Armando Vara: "A vida inspira-nos" é o slogan do BCP que encaixa no gestor

Oriundo de uma família humilde do Nordeste transmontano, o actual vice-presidente do BCP é senhor de um percurso singular, forjado de vitórias com alguns dissabores de permeio, sendo respeitado pela sua competência, dinamismo e, até, pelo amor às terras e gentes de Bragança.

Ele é a personificação da subida a pulso, do rural que soube encastelar-se no poder da capital e... do capital. Ele é a imagem do político hábil e empenhado, avaro em palavras e amável no trato. Durante semanas debaixo de fogo cerrado, não escasseia quem desça a terreiro terçar armas por Armando António Martins Vara.

No epicentro da batalha pela conquista do maior banco privado português, o percurso de Armando Vara parece encaixar-se no slogan da instituição financeira: "A vida inspira-nos." Falta saber, agora, se irá encontrar outra máxima do banco: "Aqui vou ser feliz."

O contacto profissional com os algarismos iniciou-se numa oficina de reparação de automóveis, em Bragança. Jovem ainda, revelava competência para as contas, ainda que, dada a verdura da idade, recorda o sócio-gerente da empresa, chegasse tarde ao emprego, por motivo de noitadas com os amigos. Mas... nada de preocupações, Vara desenvolvia o serviço com rapidez e segurança.

Nascido no lugar de Lagarelhos, freguesia de Vilar de Ossos, concelho de Vinhais, Trás-os-Montes, o socialista começou na banca como funcionário de balcão na dependência da Caixa Geral de Depósitos (CGD) na vila de Mogadouro, terra de Trindade Coelho.

Admirador de Mário Soares, após a revolução inscreveu-se no PS, tornando-se o dinamizador do partido em Bragança. Ajudou a fundar o jornal A Voz do Nordeste, mesmo com apoio do partido. E nas páginas dessa publicação projectaria o seu perfil político. Momentos altos, com a vitória socialista de dez das 12 câmaras do distrito. O final da experiência traria, porém, amargos de boca.

Coordenou e liderou a federação da capital do distrito transmontano e, aos 30 anos, Vara ocupava o lugar de deputado na Assembleia da República. Inclusive, chegou a vice-presidente do grupo parlamentar, deixando de concluir o curso de Filosofia.

Durante várias legislaturas aprofundou contactos, concitou simpatias. Próximo de Jaime Gama, já vereador na Câmara da Amadora, Vara aproximar-se-ia de Guterres, enquanto, em 1990, fundava uma empresa com o amigo José Sócrates, destinada à venda de combustíveis. Ao integrar o "governo-sombra" do PS nas áreas das Obras Públicas e Transportes, fácil era vaticinar-lhe promissor devir. Com o triunfo de Guterres, Armando Vara seria secretário de Estado da Administração Interna (1995-97) e, de 1997 a 99, secretário de Estado adjunto do ministro da Administração Interna.

Obstinado, com excelente círculo de conhecimentos, mesmo fora da órbita partidária, regressou à governação após a segunda vitória de Guterres, então nas funções de ministro adjunto do primeiro-ministro (1999-2000), com os pelouros da juventude, toxicodependência e comunicação social.

Ainda em 2000 tomou posse como ministro da Juventude e Desporto. Alegria efémera, porquanto, não tinha terminado o ano, teve de se demitir devido a alegadas irregularidades cometidas pela Fundação para a Prevenção e Segurança, que fundara em 1999. Rude tempo.

Dada a falta de provas, em 2005 a Procuradoria-Geral da República arquivou o processo, afirmando que Vara não tinha violado a lei. Todavia, diz-se que o ex-ministro nunca perdoou ao então presidente da República, Jorge Sampaio, a pressão que terá exercido sobre Guterres para o demitir. E primou pela ausência na cerimónia em que o chefe do Estado condecorou os responsáveis pela organização do Euro 2004.

Este foi um processo polémico, num momento penoso do Governo. Há até quem relacione o episódio visando chamuscar Vara com Fernando Gomes, actual administrador da Galp Energia. Incólume a tal enredo político-partidário ficou o amigo e ex-ministro do Ambiente, José Sócrates, o futuro primeiro-ministro eleito do PS com maioria absoluta.

Então, em 2005, por determinação do ministro Teixeira dos Santos, Armando Vara regressa à banca. Mais. À CGD que conheceu desde os tempos de balcão na dependência de Mogadouro. Só que, desta vez, o ex-ministro entraria pela porta principal, indo ocupar o lugar de administrador e, posteriormente, o de vice-presidente.

Nessa instituição financeira demonstraria uma prodigiosa capacidade de trabalho, diz quem com ele trabalhou, o que, obviamente, não deixaria indiferente o presidente da CGD, Santos Ferreira. O esforço de Vara na banca chega a ser realçado, até, por elementos do PSD, ainda que lhe atribuam o papel recomendado por Sócrates em impedir a OPA da Sonae sobre a PT. A Caixa, recorde-se, seria um opositor decisivo da operação que tantos engulhos provocou a Belmiro de Azevedo.

Armando Vara, sócio do Benfica e do Clube Desportivo de Bragança, contam ainda colaboradores próximos na CGD, "é de uma competência e capacidade física de causar inveja a muitos atletas". Trabalhava cerca de 12 horas por dia, revelou propensão para decidir, foi interventivo, não lhe escapando qualquer detalhe.

Acresce, entre outras características realçadas, que gosta de mobilizar as equipas, estimulando-as e exigindo eficácia. Resultado dessa forma de ser e de agir está o cumprimento dos objectivos da rede comercial de Lisboa e Zona Sul da CGD e do funcionamento da marca Caixa.

O número dois do Millennium bcp , "arma de arremesso contra o presidente Santos Ferreira", comenta-se, dedica o tempo disponível aos três filhos, a caminhadas e a evocar e reviver as suas raízes, Vinhais, onde a irmã Lena gere um negócio de flores simbolizado por... uma rosa.

Armando Vara orgulha-se de provir de uma família humilde, de lavradores. Diz um amigo: "Só queques, preconceituosos ou frustrados falam do empregado do balcão com desprezo."

Curriculum

-Vice-presidente do Millennium bcp , nasceu no concelho de Vinhais, Trás-os-Montes, em 1954.

- Militante do PS, foi adjunto do primeiro-ministro, secretário de Estado e ministro nos governos de António Guterres.

- Foi administrador da CGD.

Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Independente e com uma pós-graduação do ISCTE em Gestão de Empresas, Armando Vara iniciou-se na CGD ao balcão da dependência de Mogadouro. Foi líder do PS no distrito de Bra gança e deputado aos 30 anos.

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