Manuel Alegre e Pacheco fizeram publicidade ao BPP

Um texto de Manuel Alegre fez parte da campanha do Banco Privado. Depois das suas críticas à intervenção do Estado no BPP , o famoso texto voltou a ser recordado. Alegre justifica que quando soube que o texto estava associado ao BPP mandou suspender a iniciativa e devolveu o cheque.

O que têm em comum o ex-candidato presidencial Manuel Alegre, o social-democrata José Pacheco Pereira, o general Vasco Rocha Vieira (ex--governador de Macau), a jornalista Maria João Avillez, o escultor João Cutileiro, o advogado Proença de Carvalho, o pintor Julião Sarmento, o músico Pedro Abrunhosa e o director das Produções Fictícias (e moderador do programa "O Eixo do Mal", da SIC Notícias)? Todos fizeram publicidade ao Banco Privado Português.

A agência de publicidade BBDO, que concebeu a campanha para o BPP , pediu a inúmeros representantes da elite nacional um texto sobre a sua relação com o dinheiro, que depois foi publicado em duas páginas de publicidade na revista do Expresso, a "Única".

Manuel Alegre - que ainda este fim-de-semana fez críticas violentas à intervenção do Estado no Banco Privado - recorda ao DN que, quando escreveu o texto, desconhecia que iria ser utilizado numa campanha publicitária a um banco. Pediu a suspensão da campanha e devolveu o cheque correspondente ao pagamento do texto: 1500 euros. Mas ainda ontem, no site oficial da BBDO, o nome do poeta apareceu como participante na campanha.

Está lá escrito: "Em 2005/06, o BPP contou com textos elaborados por algumas das personalidades mais marcantes da sociedade portuguesa actual, como Miguel Esteves Cardoso, Manuel Alegre, Clara Ferreira Alves, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Agustina Bessa-Luís, Pedrito de Portugal, Ana Salazar, Maria de Lourdes Modesto, entre outros." Ali também é explicado que o Banco Privado é cliente da agência desde 1999, "altura em que foi criada a campanha 'Livro', que se mantém desde então" e que a campanha "foi considerada pela revista Campaign como uma das dez melhores campanhas de imprensa do mundo em 2001".

No sábado passado, no seu discurso na Aula Magna, Alegre criticou a intervenção do Estado no Banco Privado Português: "Os explorados, os oprimidos, os deserdados da vida foram e são a razão de ser da esquerda. É por eles que estamos aqui, não pelas grandes fortunas, desculpem-me a insistência, do Banco Privado Português."

O texto utilizado na campanha publicitária do Banco Privado Português foi, então, argumento para um ataque ao ex-candidato presidencial no blogue "Câmara Corporativa", assumidamente pró-governamental.

"Quem diria que o insuspeito homem de esquerda - da verdadeira, a da Bayer -, sempre pronto a atacar qualquer suposto desvio à linha justa e a fazer uma ampla coligação com os órfãos de Trotsky, Brejnev e Enver Hoxha, seria capaz de acreditar no capital financeiro? Ai o maroto, ainda por cima precisamente em relação ao "banco das grandes fortunas"?, escreve o blogger Miguel Abrantes, o mais inflamado defensor das posições do PS e do Governo em toda a blogosfera nacional.

"Pois é, de Manuel Alegre seria de esperar tudo - menos isto. Cantar Che Guevara em poesia, desancar o PS, caçar perdizes ou coelhos em ambiente bucólico, declamar com voz grave Os Lusíadas, etc., etc., etc., é habitual e ninguém se surpreende. Mas, no meio de tudo isto, Manuel Alegre ainda ter tempo para nos alertar para os perigos de salvar bancos, quando por 'um par de Purdeys' (as Roll-Royce das espingardas) andou a cantar loas ao banco de João Rendeiro, mostra um amor desmesurado pela caça - e uma profunda convicção de que em política não há memória."

O texto de Manuel Alegre sobre o dinheiro evocava a caça e o desejo impossível de comprar "um par de Purdeys", espingardas caríssimas praticamente inacessíveis.

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