Maniche

O menino que cresceu na Boavista, um bairro problemático de Lisboa, desde muito novo adoptou a organização como estilo de vida... e não conseguiu deixá-la fora do relvado Rita Bravo

A técnica aliada a um sentido posicional quase perfeito a meio-campo, uma invulgar forma física capaz de o manter com o mesmo ritmo durante 90 minutos chamaram a atenção de José Mourinho. De tal forma que o mister esperou que Maniche resolvesse a sua situação no Benfica para levá-lo, em 2002/03, para o FC Porto. Começava o percurso glorioso do jogador formado na Luz. Nuno Ribeiro tornou-se sénior em 1996/97, época em que foi emprestado ao Alverca - estava na Liga de Honra - e lá permaneceu até 98/99, quando o clube ascendeu à I Liga. Em 99/00 voltou ao Benfica e até 2000/01 "deambulou" na equipa principal. Na temporada seguinte rumou à equipa B, fruto de quezílias entre o jogador e direcção. Saiu em litígio com o clube, quando Mourinho o elegeu para conquistar a Europa com o dragão ao peito. Chega ao Mundial 2006 após uma época difícil entre o Dínamo de Moscovo e o Chelsea, uma cirurgia... mas muita vontade de repetir o melhor golo do Euro 2004. Sim, aquele que fuzilou a Holanda.

Directo, responsável, organizado: três características indissociáveis da personalidade de Maniche O médio formado nas escolas do Benfica sempre teve uma tendência natural para unir o grupo de trabalho A timidez solta-se quando o protagonismo espreita

O cabelo louro escuro, escorrido sobre um rosto branco, muito idêntico ao de Michael Manniche, o dinamarquês que jogou no Benfica nos anos 80, foi o suficiente para que a alcunha surgisse entre os juniores da Luz: Maniche. O até então Nuno ganhava a alcunha que nunca mais o largou dentro e fora das quatro linhas. Um "cognome" que apenas não pegou entre o grupo íntimo de amigos. Quem o garante é Bruno Jesus, o eterno melhor amigo de Maniche, ou melhor, do Nuno.

Bruno conheceu o Nuno quando este ainda jogava nos iniciados do Benfica. Uma empatia transformada numa amizade profunda que se prolonga até hoje. Caracterizar o Nuno é, naturalmente, uma tarefa difícil, mas Bruno ganha fôlego e conta ao DN: "Ele é muito directo, responsável e organizado." Uma descrição sucinta a que acrescenta um exemplo quotidiano: "Se eu for jantar a casa dele e desviar um copo da mesa, nem que seja meio centímetro, ele repara e volta a pô-lo no sítio onde o tinha colocado."

Salvador, um também bom amigo de Maniche, que conheceu por intermédio de Bruno, realça outro pormenor definidor do seu carácter: "Ele tem muita força interior, que se revelou nas várias situações complicadas que teve de passar." Situações que Salvador não quis detalhar, mas que estão relacionadas com o seu crescimento no Bairro da Boavista, um bairro problemático de Lisboa, e de ter tido, até certa altura da vida, dificuldades financeiras.

As contrariedades que a vida lhe foi impondo nunca o impediram de chegar onde queria e, debatendo-se com elas, a maturidade chegou mais cedo... tal como a estabilidade económica. Mas, como Salvador salienta, "o dinheiro não mexeu com ele, apenas fê-lo crescer como pessoa, mas conservou a humildade que tinha. Aliás, talvez se tenha tornado mais humilde".

O espírito solidário, esse, também se evidenciou mais nesta altura. "Ele está sempre disposto a ajudar os amigos e, obviamente, a família", conta Bruno. A família, a base da sua estrutura pessoal e profissional, é a principal preo- cupação e ocupação. "Quando ele vem a Lisboa, a primeira coisa que faz é reunir a família. E depois, não há um serão em que não fique em casa", salientou Bruno, recordando o último ano do amigo, passado entre Moscovo e Londres e algumas - sempre menos do que as desejadas - visitas à cidade onde nasceu e onde residem os seus cinco familiares mais próximos: mãe, pai, mulher e as duas filhas. "Foi um ano muito difícil para ele", comentou Salvador. "Ainda por cima a filha mais nova nasceu no dia em que ele partiu para a Rússia, no início de Julho passado", acrescentou Bruno. O irmão, Jorge Ribeiro, é o único familiar que está fisicamente por perto. Também ao serviço do Dínamo de Moscovo, Jorge vive próximo do seu "orientador". Como explica Salvador, "o Nuno sempre encaminhou o irmão".

A capacidade de liderança, de unir um grupo sem esforços, é outra das facetas de Maniche, que nem a sua timidez consegue esconder: "Sempre foi não direi um líder, mas muito perto disso. É uma pessoa que une muito o grupo de trabalho e faz questão de conviver com os colegas fora dos relvados", destacou Bruno.

"A rebeldia tornou-o muito maduro"

"É um jogador clássico, muito prático, tecnicamente de uma execução perfeita..." Estas são as primeiras palavras de Mário Wilson quando Maniche se tornou assunto de uma conversa com o DN. O capitão Wilson conheceu, conviveu e trabalhou com o médio quando foi treinador do Alverca: "Além do remate forte, extremamente bem colocado, tem uma intencionalidade de golo fantástica." Tudo isto aliado a uma maturidade sempre vincada em cada gesto quotidiano.

"Transmitia a ideia de ter uma luta privada de peso difícil de carregar", contou o ex-técnico, referindo-se às dificuldades materiais que o jogador ultrapassou. "A rebeldia que demonstrava de quando em quando, mas que sempre soube controlar, tornou-o muito maduro", acrescentou.

A dinâmica, o sentido posicional e o domínio da situação de jogo colocam Maniche como um jogador de alto nível para o capitão que viu florescer o número 18 da selecção.


Perfil

Nuno Ribeiro

Médio

Nasceu a 11 de Novembro de 1977, em Lisboa.

Mede 1,73 metros e pesa 69 kg.

É casado com a namorada de infância, Marisa, e tem duas filhas - a Mariana, de seis anos, e a Matilde, de 11 meses.

Se não fosse jogador gostaria de ter sido pintor.

Benze-se sempre antes dos jogos, mas não por superstição e sim como um acto de fé.

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