Seul 1988 - Ouro de Rosa Mota deixa Portugal emocionado





O Portugal olímpico tinha nos seus fundistas a esperança maior para os Jogos de Seul. E na capital da Coreia do Sul ficou confirmado que esta era a época dourada do atletismo nacional. Rosa Mota venceu a maratona, com Portugal inteiro a chorar de emoção, e salvou a honra do convento. Portugal apresentou em Seul um conjunto de 66 atletas para competir em doze modalidades. A prestação de Los Angeles tinha deixado no ar muitas promessas olímpicas, que em Seul não se cumpriram. Uma super Rosa Mota, defendendo os seus títulos de campeã europeia e mundial, não deixou os seus créditos por pernas alheias na maratona. Transformou-se, portanto, na primeira portuguesa a ganhar um título olímpico. Juntando-se, na mesma especialidade, a Carlos Lopes, campeão olímpico da Maratona quatro anos antes.

A capital da Coreia do Sul fez de tudo para proteger do mundo estes Jogos Olímpicos. E, para definir o estado do planeta, nada melhor que isto: os capacetes-azuis da ONU ganharam o Prémio Nobel da Paz. Ainda com a tragédia do "Setembro Negro" de Munique, em 1972, bem fresca na memória, com as sucessivas ameaças de atentados para Seul, a organização e as autoridades sul-coreanas temiam o pior. E temiam que todo o trabalho que o país vinha de-senvolvendo havia sete anos para os seus Jogos caísse por terra.
Por isso, não foi por acaso que requisitou um autêntico exército, uma força de 100 mil homens, para garantir que não havia surpresas, explosivas ou de outra ordem, nestes Jogos, que de certa maneira eram de conciliação mundial. Porquê? Porque a Guerra Fria, por esta altura, começava a ficar algo morna, com a União Soviética e os Estados Unidos da América a caminhar para entendimentos. Para isso, muito contribuiu a nova vaga e o ar fresco de palavras como glasnost e perestroika na pátria dos czares, agora com Mikhail Gorbachev à frente dos seus destinos, ultrapassada uma longa crise de sucessão no poder, que deixara fragilizada a URSS, enquanto os EUA se for- taleciam. Não era bem assim, pois esta época não era propriamente de vacas gordas nos EUA, que pagavam agora as facturas do endividamento das políticas de Ronald Reagan, que certa vez, quando julga- va que tinha os microfones desli- gados, fez este discurso para afinar a voz: "Meus caros americanos, tenho o prazer de anunciar que hoje assinei legislação que ilegaliza a Rússia para sempre. O bombardeamento começará em cinco minutos."

Reagan estava só a brincar aos discursos, mas a Rússia não estava para brincadeiras, nessa altura a Guerra Fria estava mais fria que nunca e era impossível vislumbrar-se enten- dimento entre as duas potências que dividiam o mundo. Em 1988, tudo tinha mudado. A União Soviética proclamou também que ia retirar as suas tropas do Afeganistão, o que caiu bem aos EUA. Por outro lado, negociações decorriam pacificamente sobre as questões de desarmamento nuclear. Estavam, portanto, reunidas condições, para um momento histórico nos Jogos Olímpicos de Seul. De novo os Estados Unidos e a URSS, as grandes nações do olimpismo, iam medir forçar no desporto, coisa que não acontecia desde 1976. Mas todos se esqueceram de outra potência, que também boicotara os Jogos Olímpicos de quatro anos antes, em Los Angeles. A República Democrática Alemã parecia não ter palavra a dizer naquele braço-de-ferro. Mas teve. A URSS foi a grande vencedora. E os EUA tiveram mesmo de resignar-se ao 3.º lugar.

Estas olimpíadas, no entanto, não acabariam sem explodir uma verdadeira "bomba". Um canadiano supersónico pulverizou o recorde mundial dos 100 metros, que cumpriu em 9,79 segundos, vulgarizando o campeoníssimo Carl Lewis. O mundo ficou de boca aberta. E de boca aberta ficou quando o Comité Olímpico Internacional veio anunciar que Ben Johnson tinha acusado positivo no controlo antidoping. Mister Johnson tinha usado esteróides anabolizantes, o que mais tarde lhe valeu a alcunha de "Benoid". Obviamente, foi desclassificado, sendo o ouro entregue a Carl Lewis.


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