Moscovo 1980 - Muito poucos e muito bons

EUA boicotaram inimigo da guerra fria. Sá Carneiro também queria boicote

Se alguém julgava que o recorde absoluto do boicote ficaria para sempre ligado aos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, estava muito enganado. Em finais de 1979, a escassos meses dos Jogos Olímpicos de Moscovo, para os quais a capital soviética não poupou esforços organizativos, o imperturbável Leonidas Brejnev, também ele à beira de alcançar um recorde de longevidade à frente do PCUS, portanto, dos destinos da URSS, resolveu mandar avançar os tanques soviéticos para atropelar os rebeldes mujaheddin - xiitas e pró-Irão - e estabelecer a "ordem" comunista naquele território árido.

Os Estados Unidos da América, que tinham nas suas ruas uma das mais graves crises de violência urbana, pela voz do então presidente Jimmy Carter declararam-se oficialmente escandalizados com a invasão do Afeganistão, classificando-a de intolerável e apelando ao mundo ocidental que fizesse o mesmo. E foi sob o pretexto da invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas que, sob os auspícios e sucessivas ofensivas diplomáticas dos EUA, se começou a formar o maior boicote da história dos Jogos Olímpicos. A URSS mantinha-se impávida, orgulhosamente só, sentindo até dificuldade em colher apoios no próprio Bloco de Leste, sobretudo na Polónia, onde um electricista de farto bigode desencadeava um movimento de contestação imparável, directamente dos estaleiros de Gdansk para o mundo. Lech Walesa e a sua "solidariedade" haviam de conseguir abalar as fundações do poder de Moscovo, imagine-se, com a Igreja Católica como aliada. Não era por acaso. Depois do curto pontificado de João Paulo I, que foi Sumo Pontífice pouco mais de um mês, fumo branco havia de escolher o cardeal Wojtyla, polaco, que na história ficaria como João Paulo II.

Acontecesse o que acontecesse, era provável que desse na CNN, que neste ano fazia a sua estreia. Já não ia, portanto, a tempo dar a notícia da morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, cedendo o leme a Deng Xiaoping, da mesma lavra. A estação de Ted Turner teria, sim, oportunidade de anunciar a morte de John Lennon, o mais carismático dos Beatles, mais tarde, nos confins de 1980, no mesmo mês em que a tragédia chegou a Portugal, com a morte de Francisco Sá Carneiro, então primeiro-ministro, e Adelino Amaro da Costa.

Em Inglaterra, Margaret Thatcher, a Dama de Ferro, iniciava o primeiro de três mandatos em Downing Street, para retomar a temática dos recordes. Em matéria de boicotes, desta vez os Estados Unidos da América não encontraram aliado na Grã-Bretanha.

Onze portugueses

Portugal, apesar dos apelos ao boicote do próprio Sá Carneiro, apresentou- -se em Moscovo para competir, embora com uma delegação pequeníssima, já que alguns atletas se recu saram a partici-par nestes Jogos Olímpicos. Nada que impedisse, porém, um boicote generalizado: Nada mais, nada menos, do que 65 países.

Na comitiva portuguesa presente nos Jogos Olímpicos de Moscovo, apenas onze atletas. As grandes esperanças olímpicas ficaram em território nacional, ainda que por mo tivos muito diferentes. Fernando Mamede, embora em pleno de forma, anunciou que ia aderir ao boi cote, pela causa afegã, pelo apelo de Sá Carneiro e por temer conse quências se fosse. Já Carlos Lopes, mesmo que quisesse ir a Moscovo, não podia por estar lesionado. Na natação, em que morava também a esperança de medalhas, outra ausência de vulto: Alexandre Yokochi, que no mesmo ano tinha conquistado uma medalha de prata no campeonato da Europa, ficou em Portugal, de bruços no sofá.

Nas Olimpíadas de Moscovo acabariam por participar apenas 80 países, coisa que era preciso recuar até Melburne, em 1956, para encontrar um número tão diminuto de participantes.

Com a ausência dos Estados Unidos, a URSS perdia assim o seu adversário de estimação, abrindo igualmente caminho para a República Democrática da Alemanha, outro peso-pesado do desporto olímpico, que, como era de calcular, fez questão de marcar presença em Moscovo. Não era preciso ser adivinho para vaticinar qual seria o grande vencedor dos Jogos Olímpicos de Moscovo, portanto: a URSS, claro, não deu hipótese. De tal forma que se estabeleceu um recorde ainda incólume. A URSS conseguiu conquistar 80 medalhas de ouro, um feito proporcional à dimensão do boicote às suas Olimpíadas.

Mas, apesar do boicote, não se pense que faltou qualidade, já que em quantidade estamos conversados. No atletismo, modalidade-rainha, estabeleceram-se seis máximos mundiais. Nas restantes modalidades, caíram outros 28. Nada mau, para tantas ausências.


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