Doping existia nas equipas de Zeferino há vários anos

PJ encontrou na residência do arguido do caso LA-MSS um documento com plano de treino, associado a programa de dopagem, para Dainal Petrov, que competiu na formação da Maia, sob comando de Manuel Zeferino, em 2005 e 2006.

A investigação ao esquema de doping na LA-MSS encontrou indícios de que o uso de substâncias proibidas já era prática nas equipas de ciclismo dirigidas por Manuel Zeferino pelo menos desde 2005/2006. É dessa altura um documento apreendido na casa do director desportivo da extinta formação, no qual é explanado o plano de treino, com programa de dopagem, para Danail Petrov, que competiu para Zeferino nesses dois anos, antes de rumar ao Benfica. Petrov está na Madeinox-Boavista desde a época passada.

Zeferino dirigiu o ciclista búlgaro na União Ciclista da Maia em 2006 e 2007, mas no final da temporada a LA Alumínios, principal patrocinador, mudou a equipa para a Póvoa de Varzim. A Póvoa Cycling Club, que adoptou os nomes dos patrocinadores – LA-MSS – está no centro do maior escândalo de doping alguma vez registado em Portugal. A investigação tornou-se pública em Maio de 2008, com várias buscas da Polícia Judiciária.

Zeferino e o médico Marcos Maynar Mariño foram constituídos arguidos, acusados de oito crimes de administração de substâncias dopantes e outros tantos de corrupção de substâncias alimentares.  Seis ciclistas foram punidos pela justiça desportiva por posse de dopantes – Afonso Azevedo, Pedro Cardoso e Cláudio Faria – ou por viciação de amostras de urina – Rogério Batista e João Cabreira, entretanto absolvido em segunda instância e cujo caso está no Tribunal Arbitral do Desporto.

Petrov é referido em duas passagens do processo LA-MSS, que o DN consultou. O despacho de acusação diz que “o arguido Manuel Zeferino tinha igualmente, no dia 19 de Maio de 2008, na sua residência, um documento relativo ao treino de Danail Petrov”, com um programa de dopagem associado. Segundo o relatório da Polícia Judiciária (PJ), o documento tinha várias notas escritas à mão, entre as quais“3-a-três aluvias por semana” e 6-0 - 1-oxandrolona Dia”. Oxandrolona é um de muitos esteróides anabolizantes vendidos no mercado negro e que também foi apreendida à LA-MSS, sob a forma de comprimidos não identificados e produzidos fora do circuito farmacêutico legal. Para a PJ, “Zeferino sabia que estavam a ser administradas substâncias proibidas”.

Questionado pelo DN, o conselho disciplinar (CD) da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) revelou que teve acesso à mesma documentação, mas considerou que estes “não constituem indícios suficientes de que o ciclista Danail Petrov tenha cometido uma infracção às regras sobre dopagem”. “Embora tenha sido encontrado um plano de medicação com o nome, manuscrito, do ciclista, no qual é referida a oxandrolona,  nem das diligências efectuadas pelos órgãos de investigação nem da instrução do processo disciplinar resulta outro indício do cometimento de qualquer infracção às regras sobre dopagem. Assim, em nossa opinião, não há factualidade que sustente a abertura de processo disciplinar contra o referido atleta”, explicou o CD.

O DN solicitou à Madeinox-Boavista um comentário por parte do ciclista e a resposta foi dada pelo director desportivo José Santos. Este dirigente salienta que “nada foi encontrado no comportamento [de Petrov] que induza à utilização de qualquer tipo de produtos dopantes” e que o regresso do búlgaro aos quadros da equipa, onde já tinha estado em 2003 e 2004, “teve em linha de conta o seu comportamento, quer no aspecto desportivo quer ético”.

“O facto alegado nada prova que o ciclista eventualmente tenha utilizado esses produtos, como o comprova aliás o seu passado, e o facto de ter sido submetido a controlos em competição e fora de competição sem que nada tenha acusado”, vincou José Santos, adiantando que os corredores do clube são sujeitos também a controlos internos e que não foi encontrado “qualquer tipo de resultados anómalo”.

O director desportivo da Madeinox-Boavista questiona se esses “apontamentos de treino foram entregues ao atleta”, se estes terão mesmo existido na altura em que Petrov competiu para Zeferino e se o ciclista “ terá cumprido com o determinado”. “A única prova que existe é que o atleta foi submetido a controlos em todas as provas em que participou não acusou positivo. E também cumpriu controlos fora de competição, ao contrário de outras modalidades desportivas à data dos factos era passível”.

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