Campeão e outros dois ciclistas suspensos por doping

Nuno Ribeiro, vencedor da Volta a Portugal, e dois outros ciclistas da Liberty Seguros, Isidro Nozal e Hector Guerra, foram suspensos provisoriamente pela União Ciclista Internacional (UCI) desde o início da semana, por alegado doping antes da prova portuguesa, com CERA, eritropoietina (EPO) de acção prolongada. Os testes foram feitos pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP).

A informação foi avançada pela UCI: “A decisão de suspender os três ciclistas foi tomada em resposta a relatórios dos laboratórios de Lausana e Paris, acreditados pela Agência Mundial Antidopagem, indicando um resultado analítico adverso, por EPO recombinante (CERA) em amostras sanguíneas recolhidas aos três corredores durante um teste fora de competição a 3 de Agosto de 2009” (dois dias antes do arranque da Volta).

A UCI adiante ainda que Guerra e Ribeiro estavam inscritos nos Mundiais de ciclismo, que na próxima semana arrancam em Mendrisio, Suíça, mas as federações de ciclismo portuguesa e espanhola já “foram instruídas pela UCI para retirarem estes ciclistas das suas equipas nacionais”.

Cabe também às respectivas federações avançarem com os procedimentos disciplinares, quando os testes forem oficialmente declarados como positivos: depois de as contra-análises confirmem os resultados iniciais, o que normalmente acontece, ou os corredores abdicarem desta exigência.

Se for considerado culpado, Ribeiro perde o título de vencedor da Volta à Portugal que será entregue a David Blanco, da Palmeiras-Resort Prio, o primeiro estrangeiro com três vitórias nesta prova: 2006, 2008 e 2009. Os três ciclistas estão sujeitos a suspensões definitivas de no mínimo dois anos, podendo ir até quatro se houver indícios agravantes.

Para já, o caso acabou com o patrocínio da Liberty Seguros à equipa dirigida por Américo Silva. “É com enorme tristeza que tomamos conhecimento desta situação. A promoção do ciclismo sempre foi um compromisso que assumimos com a equipa, com os nossos colaboradores e com os portugueses em geral. No entanto, a Liberty Seguros pauta-se pela honestidade, rigor e comportamento ético – não podemos nunca permitir uma situação destas”, afirmou em comunicado José António de Sousa, director-geral da Liberty Seguros, que no contrato com a União Ciclista da Charneca “estão consagradas regras proibitivas relativamente a este tipo de substâncias”.

Controlos feitos pelas autoridades portuguesas

Os testes que terão ‘apanhado’ Ribeiro, Nozal e Guerra foram realizados pela ADoP, “a pedido da UCI, baseados na informação recebida sobre as actividades dos ciclistas”. A mesma informação foi avançada ao DN por Luís Sardinha, presidente do Instituto do Desporto de Portugal e, por inerência, do Conselho Nacional Antidopagem (CNAD), organismo consultivo da ADoP.

Quando DN falou com Luís Sardinha, o CNAD ainda não tinha sido oficialmente informado pela UCI acerca dos resultados dos testes, pois, tratando-se de uma competição internacional, “a gestão dos resultados das análises é feita na totalidade pela UCI”. No entanto, adiantou o presidente do IDP, a operação antidoping antes e durante a Volta a Portugal foi posta em prática pelas autoridades portuguesas, “sob mandato da UCI”.

As operações de controlo antidoping nas competições internacionais, como a Volta a Portugal, cabe à UCI, mas são elaboradas em colaboração com a ADoP e cabe ao organismo português colocá-la em prática. O mesmo acontece em França com o Tour, em que a agência francesa colabora com a UCI.

Já no ano passado, o CNAD tinha solicitado ao laboratório de Lausana, na Suíça, que procurasse CERA nas amostras colhidas em 18 controlos sanguíneos feitos na Volta a Portugal.

CERA, o dopante da moda

As primeiras análises detectaram CERA, EPO sintética de acção prolongada, substância que manipula o sangue, estimulando a produção de glóbulos vermelhos, o que melhora o transporte de oxigénio para as células e reduz o cansaço.

Devido à complexidade e aos custos elevados dos testes antidoping sanguíneos, o despiste de CERA é feito em poucos dos 33 laboratórios acreditados pela AMA (Lausana e Paris são os principais) e têm de trabalhar em conjunto, pois no caso desta EPO, os resultados de um laboratório têm de ser confirmados por um segundo.

Foi a CERA que provocou vários rombos na Volta à França do ano passado, quando a agência francesa ordenou a reanálise das amostras suspeitas, depois de os cientistas antidoping terem desenvolvido métodos de detecção deste EPO de terceira geração.

Nessa altura, Neil Robinson, responsável pela despiste de EPO no laboratório de Lausana, considerou não haver “interesse dos atletas em continuarem a usar CERA”, porque esta EPO tem uma semi-vida muito mais longa que as eritropoietinas sintéticas de primeira geração, logo é de mais fácil detecção.

Mas Neil Robinson falhou nas previsões. Depois dos casos no Tour 2008 – Bernhard Kohl, terceiro classificado da geral e melhor trepador, Stefan Schumacher, Riccardo Riccò e Leonardo Piepoli – os problemas repetiram-se nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, com cinco testes positivos: Rashid Ramzi, medalha de ouro dos 1500 metros, Davide Rebellin, prata na prova de estrada do ciclismo, novamente Stefan Schumacher, Athanasia Tsoumeleka, campeã olímpica dos 20km em Atenas 2004, e Vanja Perisic, especialista dos 800m.

Já este ano, outra figura proeminente do desporto foi apanhada com CERA: Danilo Di Luca, vice-campeão da Volta à Itália em bicicleta.

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