Campeões, onze anos depois

Trapattoni foi o treinador que devolveu a alegria aos encarnados. A alma de Petit foi o que mais se viu no Bessa, num empate sob controlo.

As lágrimas de Luís Filipe Vieira encaixam na perfeição na história deste título do Benfica . "Habemus campione", lia-se numa tarja poucos instantes depois da segunda maior ovação da noite a seguir à entrada de Mantorras - o golo do empate da Académica no Dragão, resultado que devolveria o Benfica à glória qualquer que fosse o desempenho da equipa da Luz no Bessa.

Porque a incerteza que acompanhou o Benfica até ao último passo assumiu a transcendência de uma glória conquistada com crença, com alma e futebol pouco vistoso. Mas foi assim que se recuperou um título esquivo e com incerteza até ao fim. E por todas as dúvidas de qualidade o feito só podia ser pontuado com as lágrimas que traduzem um coração grande e emocionado. Assim foi o Benfica campeão, com empate no Bessa.

Estava escrito, com um empate controlado pelo Benfica , o último episódio cardíaco de um título que ontem os vermelhos seguraram com o coração de Petit e com a matreirice de Trapattoni. A velha raposa, com o seu pragmatismo inexorável, tirou o Benfica da toca para comoção geral do plantel: ainda Pedro Henriques não tinha apitado pela última vez e já treinadores, dirigentes e jogadores do banco quase invadiam o relvado. E com o champanhe a correr a jorros.

Na visita ao Bessa, ciente de que bastava não perder, o Benfica não foi incoerente face ao percurso que trilhou até chegar ao primeiro lugar final. Jogou, outra vez, com muito nervo, com aquilo que encanta Trap na Luz. O italiano confessou em Itália que o fascínio que o Benfica lhe provoca deriva essencialmente da capacidade de fazer da vontade a principal arma, mesmo consciente do défice de potencial de um plantel limitado por comparação com os concorrentes. Por isso, a exibição do único jogador que já conhecia o sabor do título deu as coordenadas aos inexperientes colegas de equipa.

A alma de Petit foi o que mais se viu num jogo nervoso que perdurou tenso, mesmo nas bancadas vermelhas, até ao golo da Académica que empatou o FC Porto. É verdade que o Boavista raramente chegou à baliza de Quim, e que na única vez que o fez aproveitou para marcar, perante uma passividade gritante da defesa benfiquista. Foi como água gelada na onda de euforia gerada pelo contexto e, sobretudo, pelo golo inaugural de Simão, de penalty.

O Benfica , que foi suave, mas dominador, tinha chegado à vantagem com alguma lógica. Tinha a posse de bola, chegava-se mais perto da área boavisteira e, sem sobressaltos (até à paragem que ditou o empate), limitava as tentativas do adversário para sair para o ataque. Foi assim antes, mas também após o intervalo, em que o Benfica até criou a melhor situação de golo - Simão só não marcou porque Kadhim fez defesa soberba.

Como tantas vezes esta época, a ansiedade tomou conta dos jogadores. Passes falhados, recuo no relvado, mas também pouco incómodo concreto para Quim. Até que o título se resolveu no Dragão, com o FC Porto a empatar. E aí o coração vermelho soltou-se das amarras das frustrações da última década. Um coração que só o pragmatismo da velha raposa conseguiu encaminhar para o sucesso.

Luz encheu-se de adeptos

Como se fosse um jogo de futebol... mas sem jogadores, nem árbitro, nem polícias. O clube abriu as portas do Estádio da Luz para os milhares de adeptos festejarem até às tantas o título que demorou onze anos a voltar a casa.

Boavista 1

Khadim; Lucas, Cadú, Éder, Carlos Fernandes; Hélder Rosário, André Barreto, Guga (Diogo Valente, 62), Toñito; José Manuel (Nelson, 87), Cafú (Hugo Almeida, 58).

Benfica 1 

Quim; Miguel, Luisão, Ricardo Rocha, Dos Santos; Petit, Manuel Fernandes, Geovanni (João Pereira, 69), Nuno Assis (Mantorras, 79); Simão, Nuno Gomes (Bruno Aguiar, 91).

Golos    0-1 (38) Simão g.p. 1-1 (43) Éder

ÁRBITRO: PEDRO HENRIQUES

O árbitro esteve à altura; ajuizou bem no lance da grande penalidade.

CARTÕES:  AMARELOS (4): Cadú (37), Lucas (77), Éder (81), João Pereira 91). ENCARNADOS (0)

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