Sismo foi só susto mas deixa aviso para risco de catástrofe

O sismo de ontem foi sentido por todo o País, mas não passou de um abalo moderado. Um aviso a lembrar que Portugal está numa zona de risco sísmico significativo e que um terremoto como de o 1755 pode voltar a acontecer. Mesmo assim foi o mais forte desde 1969. E se há quarenta anos os lisboetas saíram para rua, ontem concentraram-se nas redes sociais 'online'.

Foi "apenas" um grande susto. A terra tremeu durante oito longos segundos durante a madrugada de ontem mas não há registo de feridos ou estragos. E apesar do pânico estivemos muito longe da catástrofe, dizem os especialistas: sobretudo porque o sismo, de magnitude 6,0 na escala de Richter, teve o seu epicentro ao largo do Cabo de São Vicente e a uma profundidade de cerca de 30 quilómetros. Se a origem fosse mais próxima, os efeitos seriam bem piores. E daquela mesma região também podem chegar sismos bem mais destrutivos, mas o de ontem teria de ser cerca de 900 vezes mais fortes para provocar estragos sérios.

"Não houve motivo para preocupação porque o epicentro foi a 100 quilómetros da costa", explica o geofísico Luís Matias, do Instituto de Meteorologia (IM). Mas há muitas falhas mais próximas da costa portuguesa e até no território continental capazes de causar aquele tipo de destruição, como a do Vale do Tejo, responsável pelo terremoto de 1909. Aliás, um estudo de 2007 da Autoridade Nacional de Protecção Civil estima que um sismo de 6,6 com origem na região causaria cerca de 10 mil mortos e 273 mil desalojados na Grande Lisboa.

Luís Guerreiro, professor do departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico de Lisboa, diz que caso o abalo de ontem tivesse sido mais perto da costa as consequências teriam sido idênticas às do sismo que atingiu a cidade italiana de Aquila, em Abril, que teve quase a mesma magnitude.

"Na localização de ontem teria de ter uma magnitude a rondar os 8,0 graus para causar danos sérios. Ou seja, libertar 900 vezes mais energia", diz Luís Matias.

O sismo teve origem na mesma "grande zona" dos terremotos que os portugueses melhor recordam - o histórico de 1755 e do 1969- : a região que inclui o famoso Banco de Gorringe, a sudoeste do cabo de São Vicente, onde há uma série de falhas activas.

Não tem, no entanto, comparação com qualquer um daqueles, explica o geólogo António Ribeiro. "O sismo de 1969 teve uma magnitude entre 7,3 e 8,0 - o que significa que libertou 900 vezes mais energia do que este. Eu senti aquele sismo, não teve nada a ver com este em que nem acordei", disse ao DN. E fica muito longe do terramoto de 1975, que teve uma magnitude estimada em 8,7.

Para Luís Matias, este abalo serve "como aviso", para recordar que o território nacional está numa zona de risco sísmico moderado. E ninguém pode garantir que um terramoto como o do século XVIII não se repita amanhã. Aliás, a única coisa que os especialistas têm a certeza é que vai mesmo acontecer, mais cedo ou mais tarde. "As condições que geraram aquele sismo estão lá. Pode acontecer amanhã ou daqui a 500 anos",diz o geólogo José Luís Zêzere.

O abalo de ontem foi mais sentido no Algarve, onde se calcula que terá tido uma intensidade de cinco na escala de Mercalli (uma escala que avalia percepção e estragos e que vai até 12). Aliás, qualquer sismo com origem naquele local será sentido melhor na região devido à proximidade ao epicentro.

Em Lisboa registou-se uma intensidade entre quatro e cinco - o que corresponde a moderado a forte. Mas o tremor foi sentido em todo o País e até em Espanha e Marrocos - há relatos de Madrid, Marraquexe e Casablanca, por exemplo. Ontem, até meio da tarde, o IM já tinha recebido mais de quatro mil e-mails com relatos.

A forma como as pessoas sentiram o sismo é depois explicada por factores locais: desde o tipo de terreno em que se encontram ao tipo de prédio. "É provável que as pessoas na margem Sul do Tejo tenham sentido melhor o sismo porque são terrenos menos consolidados do que os da margem Norte", explica o geólogo José Luís Zêzere.

Depois do abalo inicial (que gerou tanto tráfego na internet que o site do IM ficou inacessível) houve mais de 20 réplicas, com intensidade a rondar os 2. "É normalíssimo que se prolonguem pelas 48 horas a seguir ao abalo. São pequenos reajustes", explica a geofísica Patrícia Silva, do IM.

Para António Ribeiro, esta actividade sísmica confirma a teoria de que o Atlântico já começou a fechar, o que significa que a tensão acumulada aumentará e que ocorrerão mais sismos. E que um dia, daqui a milhões de anos, Lisboa vai avançar sobre Nova Iorque.

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