Há 40 anos Lisboa fugiu para a rua

Lembro-me como se fosse hoje, e por duas grandes razões, do tremor de terra de 28 de Fevereiro de 1969 em Lisboa. A primeira, porque fazia anos no dia seguinte e estava com a cabeça nas prendas que ia receber. A segunda, por causa do barulho. Era um barulho como nunca mais ouvi igual. Parecia o cruzamento de disparos de artilharia pesada com uma trovoada XXL, um ribombar de fim dos tempos, com o mundo à volta a abanar na mesma proporção.

Aterrorizados, os lisboetas fugiram para a noite fria. Milhares e milhares de pessoas estremunhadas, em pijama, roupão, meias vestidas (recordo-me de um vizinho, atarantadíssimo, de chinelos de quarto, sobretudo, camisa, calças de pijama às riscas e chapéu, a dizer para a mulher: "Fechaste a porta de casa? Fechaste a porta de casa?"), invadiram as ruas, correram para os espaços abertos, meteram-se nos carros e rumaram ao Parque Eduardo VII, a Monsanto, ao Aeroporto da Portela, aos jardins, onde quer que não lhes caíssem prédios e casas em cima.

Eu, o meu pai, a minha mãe e a minha avó, passámos parte dessa noite metidos no carro, no Parque Eduardo VII, mais dezenas e dezenas de outras famílias, a ouvirmos as últimas notícias nos rádios. Havia um cheiro esquisito no ar, que nunca identifiquei. No dia seguinte, na escola, só se falava no tremor de terra, e muitos miúdos brincavam aos sismos, bastava começar a tremer e gritar "BRUUUUUUMM!".

Ontem. como há 40 anos, abanou, assustou, mas não caiu.

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