15 grandes questões sobre os sismos

1. Qual é o risco sísmico do território português?

Portugal continental está numa zona de risco sísmico moderado. A localização perto da fronteira entre as placas euroasiática e africana e a existência de um conjunto de falhas activas junto à costa e mesmo no território fazem com que o País tenha "uma actividade sísmica moderada, pautada por eventos de grande intensidade, mas muito separados no tempo", explica o geofísico José Borges, do Centro Geofísico de Évora. "No contexto mundial, há zonas muito piores, nomeadamente no Pacífico. No contexto europeu, Itália e Grécia estão numa situação mais complicada, mas logo a seguir aparecem Portugal e Espanha", acrescenta. Ou seja, a zona do Mediterrâneo, afectada pela convergência entre as placas europeia e africana. Os Açores, perto da Crista Média Atlântica, uma cordilheira submarina que divide e atravessa o oceano no sentido sul/norte, estão também numa zona complicada. Mas no Continente o risco não é o mesmo em todo o território: diminui de sul para norte - Algarve, Alentejo, Lisboa e região oeste são as zonas com mais risco, enquanto o Norte tem estado a salvo dos eventos mais destrutivos. Isto porque estes geralmente têm origem a sudoeste do cabo de São Vicente.

2. Quais foram os últimos grandes sismos em Portugal?

O DN está ligado à história de um sismo em Portugal, o de Benavente, em 1909, cuja intensidade provocou uma onda de emoção no País. Este jornal integrou a onda de solidariedade que permitiu a reconstrução da vila ribatejana.
O sismo de Benavente (de que se pode ver a imagem em baixo) matou 60 pessoas e destruiu praticamente todas as casas da povoação. Apesar da devastação, está muito longe de ser o pior sismo que atingiu o território português, que foi regularmente palco de grandes eventos. A história recorda sobretudo o grande terramoto de 1755, que destruiu a capital portuguesa; primeiro, pelos abalos; depois, pelo fogo e ainda por um terrível tsunami. Não há números precisos sobre as vítimas mortais, mas alguns cálculos mencionam entre 30 mil e 80 mil. Pelo menos um sexto da população da cidade terá perecido.

Lisboa sofreu grandes estragos também em 1356 e em 1531, dois sismos de que há relatos da época. No caso do século XVI, existem referências a grandes estragos e há estimativas de que a cidade pode ter perdido 2% da sua população da época. Há numerosos sismos que produziram referências escritas, mas cuja natureza ou epicentro não podem ser estabelecidos. Entre outros, os de 1017, 1344, 1748, 63. Muitos portugueses deverão recordar-se do sismo de 1969, que causou o pânico na capital portuguesa, sem provocar estragos.

Nos Açores, a actividade sísmica é igualmente intensa, com vários eventos importantes nos últimos cem anos: 1926 (Horta), 1964 (São Jorge), 1980 (Terceira) e 1998 (Faial). O da Terceira matou 71 pessoas.

3.Onde nascem os sismos que atingem Portugal?

Os sismos sentidos no território português estão ligados a falhas geológicas bem conhecidas. Há três famílias principais de sismos em Portugal: os que estão ligados à falha de São Vicente, que fica na região do oceano Atlântico do Banco de Gorringe; os açorianos; e os do estuário do Tejo, ligados à falha do Vale Inferior do Tejo. Estas três zonas sísmicas são diferentes, mas os efeitos podem ser igualmente devastadores. Os geólogos estão convencidos de que o grande terramoto de 1755, que destruiu a Lisboa barroca, foi provocado pela actividade da falha de São Vicente, sendo esta a mesma responsável pelo sismo da madrugada de ontem. O episódio de Benavente de 1909 está ligado à falha do Vale Inferior do Tejo, por sua vez a principal suspeita dos sismos que atingiram Lisboa em 1858, 1531 e 1344. Há testemunhos de grandes estragos materiais e humanos sobretudo nos dois mais antigos, mas os efeitos foram limitados à capital e arredores. Os sismos açorianos têm grande violência e são frequentes, mas o sistema que os provoca é diferente, tendo a ver com a intersecção entre as placas tectónicas Eurasiática e da América do Norte. Para o conjunto do País, parece ser mais perigosa a actividade da falha de São Vicente. Além da catástrofe de 1755, esta zona parece ter sido responsável por sismos pouco intensos, como o de 1969, mas também por eventos que deixaram marcas de tsunamis, como o que ocorreu no ano 63. O Algarve é vulnerável. Há outras regiões sísmicas menos activas, como Moncorvo e o Vale do Sado.

4. Quais são os riscos de tsunami no nosso país?

Portugal é um país em risco de ser atingido por um tsunami, ou onda gigante produzida pela deslocação de vastas quantidades de terra no fundo oceânico. Há registos de pelo menos dois de grande intensidade, ligados aos terramotos de 1755 e de 63 d.C., que causaram profundos danos, o primeiro matando dezenas de milhares de pessoas. A zona em maior risco de tsunami é o Algarve, mas também a região do estuário do Tejo está sob ameaça. O caso toma maior relevância devido à concentração populacional que agora existe nesta região ameaçada.

Na catástrofe de 1755, calcula-se que a maior parte das vítimas terá sido causada pela onda gigante, que chegou ao actual Rossio. Os relatos dos sobreviventes são claros, mencionando o recuo das águas do rio Tejo, a ponto de serem visíveis restos de naufrágios no lodo do fundo. De repente, surgiu a onda, que se abateu sobre a multidão que procurara refugiar-se junto à água.
Este episódio é bem conhecido da ciência, mas tem apenas relatos de sobreviventes, que fazem lembrar as imagens recolhidas quando a onda do sismo de Samatra, de 2004, atingiu a cidade de Banda Aceh.

A onda que matou em Lisboa teria dez metros de altura e o tsunami atingiu outros pontos do Atlântico, incluindo Algarve, Canárias, Açores e até Caraíbas. Os relatos do sismo de 1531 também apontam para a ocorrência de uma onda, embora de menor dimensão, mas o suficiente para afundar navios no rio.

Sob Portugal paira um perigo ainda mais mortífero, embora teórico e sem precedentes históricos. Alguns geólogos afirmam que uma das vertentes da ilha de La Palma, nas Canárias, poderá (num futuro remoto) entrar em colapso e tombar no oceano. Isto, a acontecer, provocaria um gigantesco maremoto de 100 metros de altura. A teoria é controversa, contestada por outros geólogos. A acontecer, seria num prazo de milhares de anos.

5. O que são as placas tectónicas e como se movem?

A ideia de tectónica de placas surgiu da genial intuição do geólogo alemão Alfred Wegener (1880-1930), que em 1915 publicou um livro de grande influência onde desenvolvia o princípio da deriva dos continentes. A teoria levou décadas a ser aceite, mas permite explicar as actividades sísmicas e vulcânicas do planeta. Num resumo muito simplificado, a Terra tem sete placas principais, que cobrem a crosta terrestre e que se movimentam sobre uma zona  pastosa e aquecida do manto, cujos movimentos internos produzem as deslocações visíveis à superfície.

A dinâmica deste sistema é extremamente lenta e muito complexa. Há zonas onde se forma nova crosta terrestre e outras áreas onde as rochas existentes se afundam no manto. Tudo depende da densidade dos materiais e dos movimentos internos do planeta. Muita actividade sísmica e vulcânica é também explicada pela existência de placas secundárias e terciárias, respectivamente sete de dimensão média e 61 mais pequenas. Todas colidem entre si.

No caso do território continental português, o aspecto mais importante para explicar a actividade sísmica tem a ver com o choque entre a placa eurasiática e a africana. A zona de colisão entre as duas passa pelo estreito de Gibraltar e ao largo do Algarve. Muitas das tensões provocadas pelo choque ocorrem no Oceano Atlântico, sobretudo numa zona chamada Banco de Gorringe, a oeste do estreito de Gibraltar. A falha estende-se até aos Açores, arquipélago que é também afectado pela proximidade da placa norte-americana, que se afasta da euroasiática, formando a chamada dorsal meso-atlântica. As placas tectónicas terão espessura média de cem quilómetros e movem-se a velocidades pequenas, diferentes entre si. A placa africana, por exemplo, está a mover-se há 100 milhões de anos para norte, a uma velocidade que se calcula ser de 2,15 centímetros por ano.

A Península Ibérica é ela própria uma placa terciária, como no romance de José Saramago A Jangada de Pedra.

6. Porque é que a crosta terrestre está em constante movimento?

O interior da Terra é dividido em várias camadas. À superfície, mais espessa sobre os continentes que sobre os oceanos, encontramos a crosta terrestre. Sob a crosta, até uma profundidade de 2890 quilómetros surge o manto. Abaixo do manto, o interior do planeta divide-se, por sua vez, no Núcleo Externo (entre os 2980 e os 5150 quilómetros de profundidade) e o Núcleo Interno (com um raio de aproximadamente 1220 quilómetros). A crosta terrestre não é uma camada contínua, apresentando-se antes dividida em fragmentos que se designam por placas tectónicas, que se movem entre si e sobre uma zona viscosa no manto superior. São as correntes térmicas que ocorrem no manto, gerando aquilo que se designa como correntes de convecção, as grandes responsáveis pelas forças que agem sobre a litosfera, movendo as placas à superfície do planeta. Ou seja, a razão pelas quais a crosta terrestre está em constante movimentação encontram-se no interior da Terra, as massas frias ascendendo e as mais quentes mergulhando.

7. Onde foram os últimos grandes sismos no mundo?

O abalo sísmico mais mortífero de sempre ocorreu em 1556, em Shanxi, na China. Segundo relatos da época, terá provocado a morte a mais de 800 mil pessoas, embora tivesse magnitude estimada inferior a 8,0 na escala de Richter, que é logarítmica e mede a energia libertada. Para se perceber o que significa o aumento dos valores, refira-se que a magnitude 4,0 é equivalente a uma bomba atómica de Hiroxima; a 5,0 é equivalente a mais de 30 dessas bombas.

Já neste século, em 1976, a China foi atingida pelo segundo sismo mais mortífero de todos os tempos, em Tangshan, com número oficial de vítimas superior a 250 mil. Mas há estimativas que apontam para um valor mais elevado de mortos, superior a 600 mil. Curiosamente, este sismo também não foi dos maiores sempre, em magnitude (7,5) muito menos do que se calcula para o grande terramoto de Lisboa, em 1755, cuja magnitude é hoje avaliada entre 8,5 e 9,0. A catástrofe de Lisboa, em 1755, teve grande impacto no seu tempo, mas nem sequer está entre os dez sismos mais mortíferos da História. No actual século, em 2004, ocorreu a tragédia de Samatra, que matou 230 mil pessoas, sobretudo vitimadas pelo tsunami que se seguiu ao sismo. Pelo menos 1,7 milhões de pessoas ficaram sem casa e a onda afectou territórios distantes do epicentro, em várias zonas do Oceano Índico, da Índia ao Bangladesh, passando por Sri Lanka e Maldivas. O sismo de Samatra foi fortíssimo, de magnitude 9,1, o terceiro maior dos últimos cem anos. Também nesta década, destaque para o sismo paquistanês, de 2005, que matou 86 mil pessoas.

A devastação provocada nem sempre está ligada à magnitude. Nos últimos cem anos, houve apenas três sismos com magnitude superior a 9,0. Mas no sismo de 1952, em Kamchatka (9,1), na Rússia, não há sequer registo de vítimas. O recordista em magnitude continua a ser o de Valdívia, no Chile, em 1960, que atingiu uns espantosos 9,5 na escala de Richter, matando 1655 pessoas.

8. Quais as medidas que deve tomar em caso de sismo?

Se estiver num dos pisos superiores de um edifício, não se precipite para as escadas. Abrigue-se no vão de uma porta interior, nos cantos das salas ou debaixo de uma mesa ou cama. Nunca utilize elevadores. Mantenha-se afastado de janelas, espelhos e chaminés. Tenha cuidado com a queda de candeeiros, móveis ou outros objectos. Desligue o gás, a electricidade e a água. Não fume nem acenda fósforos ou isqueiros, pois pode haver fugas de gás ou curto-circuitos. Utilize lanternas a pilhas. Calce sapatos e proteja a cabeça e a cara com um casaco, uma manta, um capacete ou um objecto resistente e prepare agasalhos se o tempo o aconselhar. Verifique se há incêndios e tente apagá-los. Ligue o rádio e cumpra as recomendações que forem dadas. Limpe urgentemente os produtos inflamáveis que tenham sido derramados (álcool, tintas, etc). Se estiver no rés-do-chão e a rua for mais larga que a altura dos edifícios, saia de casa calmamente e caminhe para um local aberto, sempre pelo meio da rua. Se estiver na rua quando ocorrer o sismo, dirija-se para um local aberto, com calma e serenidade. Não corra nem vagueie pelas ruas. Enquanto durar o sismo, não vá para casa. Mantenha-se afastado dos edifícios, sobretudo dos velhos, altos ou isolados, dos postes de electricidade e outros objectos que lhe possam cair em cima. Afaste-se de taludes e muros que possam desabar. Se está num local com muitas pessoas (escola, sala de espectáculos, edifício de escritórios, fábrica ou estabelecimentos comerciais), não se precipite para as saídas. As escadas e portas são pontos que facilmente se enchem de escombros e podem ficar obstruídos por pessoas a tentar fugir. Fique dentro do edifício até o sismo cessar. Saia depois com calma tendo em atenção as paredes, chaminés, fios eléctricos, candeeiros e outros objectos que possam cair. Se conduzir um veículo, pare longe de edifícios, muros, taludes, postos e cabos de alta tensão e mantenha-se dentro da viatura. Se estiver junto ao litoral, fuja para uma zona alta (30 metros acima do nível do mar) e longe da costa, pois é possível ocorrer um tsunami.

9. As casas em Portugal estão preparadas para resistir a sismos?

"A maioria das construções já terá resistência sísmica", afirma Ema Coelho, responsável do Núcleo de Engenharia Sísmica do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), que se mostra "preocupada com as edificações anteriores a 1960". Segundo explicou ao DN, "só em 1960 é que passou a haver regulamentação específica para as novas construções terem resistência aos sismos. Em 1980 essa regulamentação foi reforçada, determinando que os edifícios têm de cumprir os requisitos para resistir aos sismos". No entanto, "não há a garantia de que a regulamentação seja cumprida a 100% pelos construtores. Nas grandes obras públicas, não há dúvida que sim. Na construção privada não se tem feito essa verificação, mas penso que seja cumprida", referiu. "As câmaras municipais têm técnicos e existem mecanismos para verificar se as construções, mesmo depois de concluídas, cumprem os requisitos de resistência sísmica. Mas não o fazem", diz a mesma responsável, defendendo que "é preciso reforçar a fiscalização". Considera que, "da parte do consumidor, também não há a preocupação de saber se a casa que vai comprar tem resistência sísmica ou não". Ema Coelho salientou que "a regulamentação portuguesa, em termos da resistência sísmica em edificações, até é das mais evoluídas da Europa. Se for cumprida, o risco de os imóveis colapsarem é muito menor e não haverá problemas de maior". Revelou que "está a ser preparada nova legislação nesta matéria e as autoridades responsáveis deveriam aproveitar a oportunidade para regulamentar a obrigatoriedade de reforçar a resistência sísmica nas construções mais antigas, principalmente nas zonas mais vulneráveis, como Lisboa e Algarve". Exemplifica que, "por vezes fazem-se obras para recuperar edifícios, mas não se dá resistência sísmica. Normalmente, só tapam rachas e pintam as fachadas dos prédios. Para dar resistência sísmica às construções antigas, basta consolidar as suas ligações (paredes, tectos e chão). Os custos nem são muito elevados". Por Daniel Lam

10. Há certificados e seguros obrigatórios para os prédios?

Não. Em Portugal, além da garantia do técnico que assina o projecto, não existe nenhuma certificação de que este cumpre as normas de construção anti-sísmica. E o seguro contra riscos sísmicos é facultativo. As normas mínimas de construção anti-sísmica estão definidas num Decreto Lei de 1983, o Regulamento de Segurança e Acções nas Estruturas de Edifícios e Pontes,  que estabelece requisitos diferentes de acordo com o risco da zona do País onde se vai construir. No entanto, para a maior parte dos projectos, com excepção das grandes obras públicas, é suficiente a assinatura de um técnico inscrito numa associação profissional. "Em teoria, os edifícios construídos depois dos anos 80 estão bem preparados para resistir a um sismo, mas não existe nenhuma certificação além da garantia do técnico que assina o projecto", explica João Azevedo, do departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico. "Devia haver um processo mais exigente de controlo de qualidade. Infelizmente, do meu ponto de vista, não há garantias suficientes. E infelizmente grande parte dos edifícios de Lisboa não tem qualidade", conclui. Isto sem falar nas construções anteriores aos anos 80, e na construção tradicional, em alvenaria, no Alentejo e Algarve, acrescenta. E até a construção da época pombalina, que recorreu a métodos inovadores depois do terremoto de 1755, já foi muitas vezes "abastardada". Por outro lado, "os seguros para o risco sísmico são facultativos, enquanto que para os incêndios são obrigatórios", diz João Azevedo. O engenheiro acredita que a cobertura contra sismos é reduzida no País.

11. Que planos de contingência existem?

O plano de emergência é elaborado de acordo com as directivas emanadas da Comissão Nacional de Protecção Civil e estabelece a tipificação dos riscos, as medidas de prevenção a adoptar, a identificação dos meios e recursos mobilizáveis, os critérios de mobilização e mecanismos de coordenação dos meios e recursos utilizáveis. O plano determina também a estrutura operacional que há-de garantir a unidade de direcção e o controlo permanente da situação, definindo as responsabilidades que incumbem aos organismos, serviços e estruturas com competências no domínio da protecção civil. Os planos são nacionais, regionais, distritais ou municipais e, consoante a sua finalidade, são gerais ou especiais. Os planos de emergência estão sujeitos a actualização periódica e devem ser objecto de exercícios frequentes com vista a testar a sua operacionalidade. O simulacro mais recente, destinado a testar o plano de emergência a aplicar a um sismo de 6,7 na escala de Richter, a seis quilómetros de Benavente, foi realizado em Maio, envolvendo a participação de meios de socorro e protecção civil estrangeiros. A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) tem desenvolvido actividades conducentes ao conhecimento do risco sísmico e à sua minimização, como a realização de exercícios, acções de informação e sensibilização de populações e instituições. Participa em missões de observação de sismos ocorridos em vários países para recolher ensinamentos e contribuiu para a montagem da rede sísmica LAPSIS. A ANPC destaca ainda o estudo das vulnerabilidades sísmicas de obras de arte (quatro viadutos do concelho de Lisboa), o Estudo do Risco Sísmico da Área Metropolitana de Lisboa e Concelhos Limítrofes e o Estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis do Algarve, lançado em 2006.

12. Como funciona o gabinete de crise e quem o compõe?

A Comissão Nacional de Protecção Civil reúne-se sempre que a gravidade da situação o justifique, sendo presidida pelo ministro da Administração Interna. Dela fazem parte os delegados dos ministros dos sectores da defesa, justiça, ambiente, economia, agricultura e florestas, obras públicas, transportes, comunicações, segurança social, saúde e investigação científica. Também integram a comissão o presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil, representantes da Associação Nacional de Municípios Portugueses e da Associação Nacional de Freguesias, da Liga dos Bombeiros Portugueses e da Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais. Participam ainda representantes do Estado-Maior-General das Forças Armadas, da GNR, da PSP, da Polícia Judiciária, do Conselho Nacional de Planeamento Civil de Emergência, do Gabinete Coordenador de Segurança, da Autoridade Marítima, da Autoridade Aeronáutica e do INEM. Os Governos Regionais também podem participar nas reuniões da comissão. O presidente pode convidar para a reunião outras entidades que, pelas suas capacidades técnicas, científicas ou outras, possam ser relevantes para a tomada de decisões, no âmbito da protecção civil.

13. Como funciona a hierarquia do Estado?

O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, não foi acordado pelas autoridades competentes porque não estava a dormir. O DN sabe que o ministro sentiu o sismo à 0.37 e depois recebeu, como sempre acontece nestas situações, as mensagens da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Como não havia danos patrimoniais e/ou pessoais, o ministro não se viu obrigado a comunicar imediatamente a situação a outras figuras da hierarquia do Estado. Se o caso fosse o contrário, o MAI deveria informar outros responsáveis políticos.  Depois de informado, Rui Pereira entrou em contacto telefónico com o presidente da ANPC, general Arnaldo Cruz, e foi, já depois das 02.00, para a sede na tentativa de obter mais informações e de participar no briefing. Neste encontro participaram todos os membros da direcção da ANPC e ainda elementos da Unidade de Riscos e da Unidade de Planeamento de Emergência. Para além de Rui Pereira e de Arnaldo Cruz, o Comandante Operacional Nacional, Gil Martins, e o director nacional de Recursos e Protecção Civil, Gamito Carrilho, estiveram também presentes.Este é o procedimento normal numa situação como a que ocorreu ontem de madrugada, pelo que Rui Pereira, baseado em informações dos seus comandantes operacionais, não precisou de contactar de imediato o primeiro-ministro José Sócrates e o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.Quando ocorrem sismos a partir de uma certa intensidade, o ministro da Administração Interna e os outros responsáveis máximos da área da protecção civil recebem mensagens automáticas de aviso, o que neste caso só sucedeu depois de o próprio governante ter sentido o abalo sísmico. Neste caso, o ministro apercebeu-se do sismo à 01.37, recebeu a mensagem à 01.43 e chegou à sede da ANPC cerca das 02.15. Ou seja, o ministro demorou apenas 32 minutos a ficar ao comando das operações, o que também terá a ver com o facto de o ministro viver muito perto do centro nevrálgico de resposta a este tipo de casos. Quando os noticiários da manhã foram para o ar, Rui Pereira surgia já a fazer as primeiras declarações a partir justamente da sede das operações.

14. Quem estuda este fenómeno em Portugal?

A monitorização sísmica em Portugal é feita pelo Instituto de Meteorologia, através de redes de estações sísmicas, analógicas e digitais, instaladas no Continente e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Cerca de 7% dos funcionários do Instituto trabalham no departamento de sismologia, que gere uma rede de 14 estações sismológicas digitais e três digitais de banda larga (com transmissão de dados por satélite e por linha telefónica), para além de três estações analógicas (transmissão por rádio) instaladas na região da Grande Lisboa. Há ainda importantes centros universitários de investigação, como o Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa, ou o Centro Geofísico de Évora, que tem um grupo de 20 geofísicos com nove profissionais dedicados apenas à sismologia. O Instituto Superior Técnico também tem uma centro de investigação importante, com muito trabalho na área da engenharia sísmica. A Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a Universidade de Aveiro têm investigadores que integraram recentemente uma equipa que esteve em Itália a avaliar a construção dos edifícios aquando do sismo de Áquila, em Abril. No caso da FEUP, a equipa de investigação sísmica foi chamada a intervir quando se deu um forte tremor de terra em Los Angeles, na primeira metade da década de 90.

15. Portugal ficou livre de um grande sismo depois do de ontem?

Não. O sismo de ontem não impede nem atrasa um terramoto como o de 1755, que pode acontecer amanhã ou daqui a 300 anos. O geólogo José Luís Zêzere, do Centro de Estudos Geográficos de Lisboa, explica que o sismo de ontem serviu para libertar a tensão acumulada num ponto, mas que Portugal está numa área muito complexa: o abalo libertou alguma tensão "da mesma forma que se retira um pouco de ar a um balão". E, usando a mesma imagem, acrescenta que "Portugal está numa área em que existem vários balões, que enchem a ritmos diferentes", conclui. Ou seja, vários pontos capazes de originar sismos, como as falhas do banco de Gorringe, a falha Marquês de Pombal, ao largo da costa alentejana ou a falha do Vale do Tejo. Para o geólogo António Ribeiro há ainda a possibilidade de a libertação de energia numa falha significar que se acumula tensão noutra. O especialista acrescenta que, "infelizmente ainda estamos muito longe de conseguir prever sismos ou de saber identificar quando um sismo é premonitório de outro maior". O terremoto de 1755, por exemplo, tem um período de retorno de cerca de mil anos, diz. Ou seja, é provável que aconteça um sismo daquela magnitude em cada período de mil anos. E essa probabilidade não é influenciada pelos pequenos sismos, conclui. Por isso, um abalo como o que destruiu Lisboa no século XVIII pode acontecer amanhã, daqui a 10 anos, ou daqui a 100. Para o geofísico Luís Matias, do Instituto de Meteorologia (IM), é preciso explicar que um grau de diferença, na escala de Richter, corresponde a 30 vezes mais energia libertada e que o aumento é exponencial. Ou seja, dois graus de diferença corresponde a uma quantidade de energia 900 vezes maior. Assim, seriam necessários "muitos sismos de magnitude 6.0 para atrasar ou evitar um abalo mais intenso", conclui o geofísico.

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