Opinião

João Melo

Dois pesos e duas medidas

A ideologia ocidental, a começar pela sua própria auto-nomeação, é intrinsecamente arrogante, padecendo, desde logo, de dois pecados insuportáveis: o critério de dois pesos e duas medidas e o seu complexo de superioridade moral. Por "ideologia ocidental" entendo a cosmovisão elaborada e difundida a partir do centro (as potências atualmente hegemónicas, lideradas pelos EUA), a qual é assumida por um amplo arco político nos países dominantes, não se notando grandes diferenças, sobretudo culturais, entre direita e esquerda; tal cosmovisão, entretanto, pode igualmente ser assumida pelas elites dominantes das nações subalternas, numa demonstração de cachiquismo (subserviência) típico.

João Melo
Luís Alves Monteiro

Precisa-se de um plano estratégico para o desporto nacional

Planeamento, ou apenas planear pedir mais dinheiro? e se o dinheiro não chega? E se ano após ano apenas sabemos repetir a estafada receita de pedir mais e mais e o resultado da análise de qualquer gestor de recursos escassos, quando não vê inovação, visão, e alinhamento nessa visão, nos vão dando menos e menos, dando assim razão a Einstein que tão bem soube definir loucura, "continuar a fazer as coisas sempre da mesma maneira e esperar resultados diferentes".

Luís Alves Monteiro
Jorge Barreto Xavier

Semanologia

O de Orçamento do Estado - já ocorreu a discussão do Orçamento do Estado (OE) para a Cultura, entre o governo e a comissão parlamentar respetiva. Se comparado o valor do OE da Cultura de 2015 (último ano do governo Passos Coelho) - 219,1 milhões de euros - com os 324,45 milhões previstos para 2022, verifica-se um aumento do montante orçamentado. Todavia, este número é enganador, visto ter crescido o montante do OE total, de 2015 para 2022. O aumento da despesa do Estado não é, por si, garantia de melhores serviços públicos. A entrada de mais fundos europeus, os encargos da dívida, a contração de empréstimos, assim como do número de funcionários públicos explicam a maior parte do aumento. O montante de 0,25% de Orçamento consolidado para a Cultura - se retirarmos os encargos que o Ministério da Cultura tem com a RTP e a Lusa - significa que, efetivamente, em percentagem do Orçamento de Estado, de 2015 para 2022 o Orçamento da Cultura diminuiu! É que, em 2015, o Orçamento da Cultura representava 0,26% do OE. Deve ainda considerar-se o aumento da inflação - não dá para analisar o crescimento do Orçamento em meros termos nominais. E parte relevante do reforço orçamental da Cultura de 2022 provém de fundos de emergência europeia - o PRR. Finalmente, Orçamento e despesa são coisas diferentes. Qual a diferença entre o valor orçamentado e o valor executado pelo governo, entre 2016 e 2021? Ou seja, quanto é que, efetivamente, o Estado gastou com Cultura? Tenho a certeza de que vamos perceber que há distância entre a declaração de amor à Cultura feita pelos governos socialistas e a despesa efetiva que os mesmos praticam. A tentativa de deitar areia para os olhos dizendo que tem de se somar ao valor do Ministério da Cultura o que se gasta em outras áreas de governo com a Cultura é uma falácia - nem o INE nem a Comissão Europeia usam este critério. Há que comparar o que é comparável.

Jorge Barreto Xavier
Paulo Baldaia

Volta para a tua terra

Falar de centralismo neste país de salamaleques e vénias constantes ao poder passou a ser "chato". Ou melhor, os que falam de centralismo são uns "chatos". Já não é apenas a resposta básica que começa com um "não há centralismo nenhum" e que termina com o mais que certo "vocês é que são uns provincianos". Passou a acrescentar-se o "não temos paciência para essa conversa", mais ainda se quem se queixa vive e trabalha em Lisboa. Como é que os que, como eu, ganham a vida trabalhando em Lisboa se atrevem a apontar-lhe o dedo? Para os que vivem curvados perante o poder (honra lhes seja feita, a curvatura mantém-se seja qual for o poder) a pergunta faz todo o sentido. A mim, por mais de uma vez, me mandaram de regresso à minha terra.

Paulo Baldaia
Rosália Amorim

Xangai, uma cidade inteira à janela

São impressionantes as imagens que nos chegam de uma das cidades mais cosmopolitas da China. Xangai é uma espécie de Nova Iorque do futuro. Percorrer as ruas daquela urbe é um autêntico banho de inovação, de arquitetura vanguardista, de tecnologia e de ambiente internacional de negócios. Mas hoje parece ter entrado num túnel que a forçou a uma viagem ao passado. Uma das metrópoles mais importantes do mundo vê-se debaixo do uso e abuso da autoridade e da força bruta.

Rosália Amorim
António Araújo

Eu & Margarida (onde se fala de limões sicilianos, plantas de vidro, cartas de amor)

Uma vez, Eu & Margarida fomos visitar uma fabriqueta de limoncello na Costa Amalfitana, dessas a atirar para os turistas que somos, e quem ali nos recebeu era um português, é óbvio, de Benfica e do Benfica, que falava pelos cotovelos e nos mostrou a coisa toda. Na hora de abrir a cuba onde se maceravam os limões em álcool, os vapores que dali vinham deixaram-nos a ambos os dois, Margarida & Eu, mais para lá de etilizados, e por horas estonteados, episódio de somenos, só íntimo nosso, mas que me veio à lembrança ao ler um encanto de livro chamado The Land Where Lemons Grow, o qual, como o subtítulo indica (The Story of Italy and Its Citrus Fruit), é um périplo por Itália através dos seus citrinos. A autora, Helena Attlee, tem uma profissão daquelas, especialista em jardins italianos, e começa por nos falar dos limões dos Médicis, na Toscânia, cultivados como maravilhas raras que são, sem dúvida.

António Araújo
João Lopes

Um pensamento em forma de assim

Conhecemos esse vício cultural muito português em que, por vezes, conscientemente ou não, participamos. Chamemos-lhe a continuada promoção de alguns dos nossos artistas como figuras obrigatórias de uma galeria de "heróis" - sempre que possível para delirante consumo mediático. Os prémios internacionais e, claro, a morte servem para inflacionar tal vício. Exemplo? Em alguns casos, a cegueira militante contra a filmografia de Manoel de Oliveira deu lugar à sua compulsiva e gratuita celebração como "mestre"...

João Lopes
Joana Amaral Dias

Eufemiza-me

Sabemos que a "operação especial" de Putin é uma invasão. Muito bem. Óptimo. De igual forma, sabemos que a "operação israelita" foi um pelotão de fuzilamento da jornalista na Palestina e até um aviso para não aparecerem mais repórteres. Executar Shireen Abu Akleh com total impunidade só em figura de estilo pode ser classificado como "confrontos" ou "repressão". Da mesma maneira, sabemos que o "direito de resistência" da Finlândia ou da Suécia juntando-se à NATO é mesmo uma declaração de guerra. Talvez irreversível e aniquilando as poucas alternativas restantes. Pois é. Hipocrisias e ingenuidades à parte, não é preciso ser-se versado em Relações Internacionais ou em Negócios Estrangeiros para entender que a comunicação e as interacções entre Estados se regem por interesses e estão subordinadas a uma lógica de poder. Esta guerra na Ucrânia é uma guerra por procuração, um triângulo bélico, tal como assumido pelo próprio secretário da Defesa norte-americano Lloyd Austin.

Joana Amaral Dias
José Mendes

Política, Ciência e Pessoas

Há uns anos, ainda em funções governativas, fui convidado para uma reunião de diretores de agências nacionais de ambiente e energia dos estados-membros da União Europeia. Recordo o admirável empenho daquelas pessoas na descrição de cenários para a transição energética, apresentando gráficos e curvas quase perfeitas da relação entre a penetração de tecnologias limpas e os benefícios para o ambiente e o clima. A certo ponto, fui interpelado a comentar uma apresentação da Agência Europeia de Energia. A minha intervenção foi, para surpresa dos presentes, sobre pessoas. Defendi a ideia de que competia aos políticos ler as evidências e as interpretações da ciência para formular as opções e tomar as decisões. Mas fui mais longe, ao afirmar que, no fim do dia, seriam as pessoas a decidir.

José Mendes
Sebastião Bugalho

Os príncipes na torre

A história dos príncipes na torre, um dos maiores mitos medievais de Inglaterra, foi distorcida pelos mistérios que se lhe seguiram e pela propaganda que lhes dedicaram. Tomás Moro, biógrafo de Ricardo III, fez por instaurar unanimidade entre a dinastia que lhes sucedeu. Shakespeare, na peça que eternizou Ricardo de Gloucester enquanto breve rei, foi talvez o maior responsável pelo perpetuar dessa interrogação: o que aconteceu, afinal, aos sobrinhos de Ricardo III, enclausurados na torre de Londres para este se fazer rei? Não se sabe. Os herdeiros de Eduardo IV não terão sobrevivido à ambição do tio, que foi de regente a soberano com a ajuda do Parlamento após a anulação do casamento dos pais. Dois pequenos corpos foram achados numa escadaria empedrada, dois séculos mais tarde, e devidamente enterrados na Abadia de Westminster. Gloucester, coroado Ricardo III, não teve melhor sorte. O reinado duraria dois anos, até à chegada dos Tudor como solução de paz para a chamada Guerra das Rosas. Henrique VII, que inaugurou esse tempo, foi confrontado duas vezes por pretendentes ao trono que se faziam passar por um dos príncipes desaparecidos. O primeiro, derrotado no seu segundo ano, foi perdoado e integrado na corte como cozinheiro, apesar de antes o terem coroado rei na Irlanda. O segundo, igualmente vergado, seria executado. Ambos tentaram aproveitar-se do sumiço dos York, clamando direito ao trono. Ambos reuniram apoiantes nacionais e estrangeiros com tal reivindicação. E ambos perderam em batalha a significância que a tragédia dos dois príncipes lhes havia conferido.

Sebastião Bugalho
Leonídio Paulo Ferreira

Coreanos, e agora?

Entre as eleições presidenciais sul-coreanas de 9 de março, que deram a vitória ao conservador Yoon Suk-yeol, e a tomada de posse em Seul deste na terça-feira passada, participei, em finais de abril, na WJC2022, uma conferência internacional de jornalistas, desta vez por videoconferência, ainda por causa da pandemia da covid-19, mas que em duas edições anteriores me permitiu visitar o país e inclusive ir em reportagem à zona desmilitarizada que o separa da Coreia do Norte desde a sangrenta, mas inconclusiva, guerra de 1950-1953. A diversidade de nacionalidades presentes na conferência (de americanos a russos, de colombianos a papua-novo-guineenses) e a discussão de temas como a manipulação da informação tanto em tempos de paz como de guerra serviram para confirmar a solidez da democracia neste país da Ásia Oriental, que até surge mais bem classificado do que o Japão no recente Index da liberdade de imprensa; ao mesmo tempo, a grande capacidade organizativa ajudou a perceber uma vez mais por que razão as empresas nacionais são tão competitivas nos mercados internacionais que permitem à Coreia do Sul ser hoje a 12.ª economia mundial.

Leonídio Paulo Ferreira
Vivia Chang

Taiwan, parceiro indispensável no caminho para a recuperação global pós-pandemia

Nestes momentos que temos vivido em pandemia, graças ao controlo com sucesso da pandemia da COVID-19 do Governo Português, a atitude cívica portuguesa e com o melhor trabalho na vacinação mundial, possibilitou ir reconquistando aos poucos uma vida quase igual àquela que tínhamos antes da pandemia. Deixar para trás as restrições apertadas e recuperar interacção social, não só pessoal como também profissional.

Vivia Chang
Mirko Stefanovic

Investir em Israel

As informações sobre os planos do fundo de investimento privado Affinity Partners, administrado por Jared Kushner, genro do ex-presidente norte-americano Donald Trump, é mais uma prova de que as coisas nunca param no Médio Oriente. Foi noticiado que a Arábia Saudita, do seu Fundo Estatal, contribuiu com 2 mil milhões de dólares para o Fundo e que parte desse dinheiro será usado para investir em algumas start-ups israelitas. Para isso, obviamente, não precisavam de cerimónias de acordos de paz, embaixadas ou grandes reuniões com as mais altas autoridades. Foi feito como algo perfeitamente normal e usual, obviamente aprovado pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammad bin Salman.

Mirko Stefanovic
Rosália Amorim

As prisões, a justiça e uma morte

João Rendeiro não terá sabido lidar psicologicamente com a situação com que se viu confrontado, apontam os que acreditam na tese de suicídio. A pressão do julgamento em praça pública, antes da condenação nos tribunais, e, acima de tudo, a passagem de homem todo-poderoso, influente e banqueiro dos ricos a prisioneiro na África do Sul terão levado o português a uma situação limite que culminou na sua morte. Aos 69 anos, e confrontado com um total acumulado que poderia ir além de uma década de cadeia, viu o fim da vida decretado antes de o próprio o ter decidido. Mais: a advogada terá dito que iria deixar de o representar (ainda não se conhecem as razões), terá sido ameaçado por diversas vezes na cadeia, conforme relatou, e a prisão teria más condições para acolher os reclusos.

Rosália Amorim
Viriato Soromenho Marques

Interrogações europeias dentro da tempestade

Antero de Quental foi convidado em 1890 a presidir à Liga Patriótica do Norte, quando muitos portugueses, intoxicados pelos vapores de um nacionalismo senil, queriam declarar guerra ao Império britânico por causa do Ultimato. Como é apanágio dos grandes espíritos, que não têm medo de ficarem sozinhos perante a unanimidade irrefletida das turbas, Antero, em vez de esconjurar a "pérfida Albion", escreveu no seu Manifesto: "O nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos. Só um falso patriotismo, falso e criminosamente vaidoso, pode afirmar o contrário (...) Não é com canhões que havemos de afirmar a nossa vitalidade nacional, mas com perseverantes esforços da inteligência e da vontade, com trabalho, estudo e retidão." (Expiação, 1890). Na passagem de mais um Dia da Europa, nem o facto de estarmos mergulhados numa guerra europeia cujo centro de gravidade se encontra, como no passado, em Moscovo e Washington, levou os discursos oficiais a um pouco de "retidão" autocrítica. Prevaleceu a linha oficial de autocomplacência. Apologias frente ao espelho, temperadas com algumas ideias soltas de Macron, ainda menos pertinentes do que as apresentadas em 2017.

Viriato Soromenho-Marques
Victor Ângelo

Ucrânia: quais os deveres da China?

No início da semana, Olaf Scholz reuniu-se por videoconferência com Xi Jinping. Um dia depois, foi a vez de Emmanuel Macron. Imagino que houve acerto de posições entre os dois líderes europeus, apesar do encontro presencial entre ambos só ter tido lugar umas horas após a reunião virtual do chanceler alemão com o presidente chinês. Xi Jinping está convencido que o reforço da unidade europeia permitirá, a prazo, uma maior autonomia da Europa em relação aos EUA. Por isso, deve ter comparado as intervenções de Scholz e Macron, para ver se vão no mesmo sentido, quanto ao essencial.

Victor Ângelo
Rosália Amorim

A soberania é para usar, não para delegar

A adesão da Finlândia à NATO está na ordem do dia. Será motivo para preocupação? Na ótica do Presidente da República não é. É sim um "motivo de reforço de solidariedade europeia". A Rússia já veio dramatizar e considerar uma ameaça a junção da Finlândia à NATO. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que "tudo isto será analisado" e requer "uma análise especial e desenvolvimento das medidas necessárias para equilibrar a situação e garantir a segurança da Rússia".

Rosália Amorim
Lina Lopes

Uma visão moderna e inconformista

Apesar das promessas dos potenciais avanços milagrosos decorrentes do célebre Plano de Recuperação e Resiliência, não é difícil de perceber que o Governo do Partido Socialista pretende dar continuidade à política de gestão corrente e serviços mínimos que tem mantido o país estagnado na cauda da Europa. Face ao imobilismo que o PS cultiva e acarinha na sua ação governativa, é desejável que o Partido Social Democrata exerça uma oposição dinâmica, que venha a ser percecionada como uma alternativa séria, mobilizadora dos social-democratas, e, a médio prazo, capaz de conquistar os corações e as mentes dos portugueses.

Lina Lopes
João Almeida Moreira

O presidente que come macarrão de pé

Dissidentes do bolsonarismo, como o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o ex-secretário do governo, Santos Cruz, a ex-líder parlamentar, Joice Hasselman, ou o ex-deputado governista Alexandre Frota, classificaram Jair Bolsonaro, nas páginas do DN, de "desequilibrado", "cobarde", "psicopata", "burro", "execrável", "ignorante", "corrupto" e outros adjetivos da lavra de cada um. Mas o atributo comum às entrevistas de todos foi "incompetente". Parecia quase um cognome: Dom Bolsonaro I, O Incompetente.

João Almeida Moreira