Um Portugal calmo assiste à abertura

Lisboa, Norte e Algarve presenciaram um pouco indiferentes o aparato da inauguração do século. 0 trabalho não parou.

Lisboa passou uma tarde sem sobressaltos. Não fora a estranha calma nas principais artérias, com a ausência de engarrafamentos e umas sirenes a «animar», poder-se-ia dizer que a cidade assistiu atenta ao aparato da pré-inauguração da Expo, mas sem interromper o ramerrão de uma quinta-feira de trabalho. A curiosidade ficou para os telejornais.

À porta do Hotel Ritz, batedores da PSP, guarda-costas de auricular no ouvido, óculos escuros e telemóveis aguardavam a partida das comitivas mais importantes. Ali perto, na esquina da Rodrigo da Fonseca com a Marquês de Subserra. uma avó passeava descontraída o neto no carrinho. «Moro aqui e já estou habituada a estas coisas», disse-nos.

À janela do primeiro andar do 107 da mesma rua, uma senhora aguardava ansiosa por descortinar, entre os fatos de bom corte, o rei Juan Carlos. Tarefa inglória... Também à porta do Meridien, uma família que ia a passar parou por momentos. «É para ver se se vê alguém conhecido. Até agora, nada. Pode ser que nos ofereçam um bilhete», ironizou o avô. A espera começou a enfastiar a avó, que filosofou: «Do Ritz saem os mais finos. Os daqui são de segunda. É só árabes vestidos com lençóis e cheios de dinheiro do petróleo.» Cansada de esperar e desiludida por não ver os belos fatos das senhoras que há anos admirou nas noites de baile - «quando morava em frente à Embaixada de Itália» -, a senhora desistiu e foi embora. Azar: minutos depois, passava o Presidente Sampaio!

Pelos itinerários previamente definidos como zonas fechadas, circulava-se com estranha facilidade. Em cada cruzamento das avenidas da República, EUA, Gago Coutinho e até à Expo, vários agentes regulavam a circulação, mandando parar o trânsito à passagem das comitivas, para logo a seguir deixarem passar.

Indiferentes, três operários indianos de Nova Déli varriam lentamente o passeio prefabricado da Marechal Gomes da Costa, ignorando o que se passava lá para baixo. Indiferentes não ficaram os já habituais mirones do viaduto da Praça José Queirós. Homens e mulheres, quase todos reformados, residentes na zona de Moscavide, debruçavam-se no guarda-corpos do viaduto como se de um parapeito de janela se tratasse, para apreciar a vista: «Há uns tempos que isto aqui já é o nosso ponto de encontro.»

O Algarve esteve indiferente à Expo, devido sobretudo ao problema da falta de acessibilidades. É que cinco horas de deslocação a Lisboa e outras tantas para o regresso, para além do custo de entrada e de outras despesas, estão a deixar muita gente sem vontade de visitar a última exposição universal deste século.
 
A cerimónia da inauguração passou ao lado de muitos algarvios, para os quais tudo não passa de «dinheiro mal gasto», cuja factura «terá de ser paga mais tarde por todos nós». «Não penso ir lá, porque os cinco contos só para a entrada fazem-me falta», dizia ontem um cidadão de Albufeira. Uma mulher considerou ser «uma excelente oportunidade para ver as maravilhas do mundo».

Em Portimão, enquanto um taxista dizia ao DN que o movimento turístico, este ano, nesta região, se vai ressentir, devido à Expo, a dona de um café, não perdendo pitada da transmissão televisiva, manifestou receio pela falta de árvores do recinto: «Fui à Expo de Sevilha e agora quero ir à de Lisboa, para compará-las.»

O dia zero da Expo'98 foi visto, na Baixa do Porto, com alguma indiferença. Os cafés sintonizaram as televisões no canal 1 da RTP1 mas os olhares dispersavam-se para o movimento exterior nas esplanadas e nas montras, já que o bom tempo convidava ao passeio. A grandiosidade da Expo'98 foi apreciada com reservas. Muitos portuenses duvidam de «que as obras estejam concluídas» e consideram que «os acabamentos foram apressados».

O carácter universal desta mostra é apresentado como o aspecto mais positivo para o País. «A Expo'98 será o bom reflexo da imagem de Portugal. Se falhar esse desígnio, ficaremos ridicularizados», esta é a convicção de António Santos, de 52 anos, comerciante. Das pessoas que pretendem visitar a Expo, os jovens foram os que compraram bilhetes.

As férias foram escolhidas pela maioria que o DN contactou e correspondem ao mês de Agosto, com o argumento: «No Porto, trabalha-se para sustentar a Expo.»

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