Apartheid e democracia no olhar de Goldblatt

A exposição Intersecções intersectadas é uma prova de que a relação entre arte e política nem sempre acontece através das declarações e provocações feitas directamente pelos artistas, mas de que muitas vezes a mudez do seu trabalho chega para fazer pensar no modo como se vive.


David Goldblatt é um fotógrafo que nasceu na África do Sul em 1930 e só com 30 anos começou a fazer fotografia. A sua educação, como homem e como artista, deu-se numa África do Sul dominada pelo racismo, pela xenofobia e pelas gritantes injustiças. O regime opressivo é um mote do seu trabalho fotográfico, não que as suas obras sejam fiéis e exactas representações dos acontecimentos do regime separatista em que viveu, mas porque as estruturas e dinâmicas dessas sociedade ficam espelhadas em cada uma das suas fotografias: o urbanismo, os rostos das pessoas, as acções mais comuns e quotidianas transformam-se nas fotografias de Goldblatt no termómetro dessa sociedade. O dramatismo e teatralidade dos seus retratos é revelador de como pessoas e objectos demonstram os sintomas da doença política e social daqueles tempos.


Com o fim do apartheid o trabalho de Goldblatt ganhou um registo mais contemplativo: as suas pequenas fotografias a preto branco, coloriram-se e aumentaram a escala. O que é interessante, e decisivo, nesta exposição em Serralves é o confronto – que se revela como continuidade – entre os trabalhos em que o elemento central é a caracterização da so-ciedade racista e os novos trabalhos em que o objecto de atenção é o desafio colocado pela nova sociedade democrática. Neste confronto é impossível não pensar na fragilidade do sistema democrático, sobretudo à luz dos recentes conflitos entre sul-africanos de diferentes etnias e emigrantes.


O trabalho de Godlblatt é perturbador porque ao ser, indiscutivelmente, um trabalho político, ao apresentar momentos em que os limites da humanidade estão a ser testados, provoca prazer. É inevitável sentir a beleza das suas paisagens, a melancolia das terras áridas em que a cor e espacialidade são sublimes, ou a profundidade enternecedora dos rostos dos seus retratos a preto e branco. Goethe chama à capacidade, ou potência, que a arte tem em poder provocar prazer com a maior desdita humana – a morte, a injustiça, um desastre natural – um luxo supremo, e o trabalho de Goldblatt vive do luxo de que a boa arte sempre se alimenta.


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