Este homem não é um artista qualquer

O artista inglês desafiou as regras do mercado e vai leiloar directamente 223 peças na Sotheby's. Mais uma travessura do rebelde das artes que lhe vai render muitos milhões

Este homem não é um artista qualquer

Damien Hirst. O artista inglês desafiou as regras do mercado e vai leiloar directamente 223 peças na Sotheby's. Mais uma travessura do rebelde das artes que lhe vai render muitos milhões

Será a maior venda de sempre de um criador vivo

Museus, galeristas, coleccionadores, curiosos, milionários arrivistas todos se perfilam para aquele que será um leilão único e revolucionário. Pela primeira vez um artista entrega directamente as suas obras a uma casa leiloeira, dispensando intermediários. Nos dias 15 e 16, segunda e terça-feira, vão à praça na Sotheby's de Londres 223 peças de Damien Hirst. Instalações, esculturas, pintura e desenho com as quais o ex-rapaz rebelde de Leeds pode embolsar qualquer coisa como 120 milhões de dólares, cerca de 86 milhões de euros, soma jamais conseguida de uma só vez por qualquer artista. Uma pequena fortuna que torna ainda mais rico este que já era um dos mais ricos artistas do mundo.

O aspecto é de uma pop-star. O culto também. De grandes óculos de aros grossos de massa, jeans, blusão desportivo, ténis, ele surge içado como um boneco por uma enorme roldana presa ao tecto de um dos seus estúdios, a duas horas de carro de Londres. Os braços estão abertos. Ele é a própria instalação numa fotografia que enche uma página da última edição da revista Time. É ele a capa, o cover-boy, o mau rapaz, como titula a publicação, provocador e com instintos mórbidos, que idolatra cadáveres, guarda animais em formol, torna caveiras em objectos preciosos e se prepara para um feito que o colocará na história da arte, desta vez não pela obra em si, mas pelo que decidiu fazer com ela. Vendê-la, sem intermediários, a quer der mais. "Nunca vi qualquer possibilidade de alguma ver poder ser pago por fazer qualquer coisa de que goste", declarou nessa entrevista à Time este homem que nasceu fora do meio artístico e a quem os mais próximos não auguravam um futuro nada brilhante.

Enganaram-se. E enganou-se Hirst. Dono de uma fortuna que o londrino Sunday Times calculou em cerca de 364 milhões de dólares (261 milhões de euros), Damien Hirst comprou uma quinta em Devon, onde vive com a mulher, Mai Norman e os três filhos. É uma mansão gótica que Hirst quer converter num museu privado. Tem ainda uma casa no México, onde passa cerca de três meses por ano com a família, e sempre que está em Londres instala-se numa suite no Claridge, um dos hotéis mais in da capital britânica. Nada mal para alguém que como ele, cresceu num bairro industrial. Ainda à Time, Hirst confessa a fraqueza. "Gosto de ouvir o porteiro dizer: bem-vindo, senhor". Mas o dinheiro não lhe paga apenas os luxos. Dá-lhe para empregar mais de 120 pessoas nos seus seis estúdios em seis diferentes locais de Inglaterra.

Mais calmo, mais negro

Damien Hirst nasceu em Bristol, Inglaterra, a 7 de Junho de 1965 e cresceu em Leeds. Completou há pouco 43 anos e afirmou ter chegado à idade em que sente que precisa de mais qualquer coisa. "Algo mais pessoal, e calmo, e negro." A morte sempre foi a obsessão artística deste homem que é o nome principal do chamo grupo Young British Artistes, em fenómeno mediático que fundou no início da década de noventa com Sarah Lucas e Mark Quin. Foi pouco depois de ter tido o primeiro contacto artístico com aquele que foi a sua grande inspiração, o coleccionador de arte Charles Saatchi.

Criado pela mãe, Damien Hirst nunca conheceu o pai. O padrasto abandonou-o tinha ele 12 anos. Rebelde, foi preso duas vezes por pequenos roubos em lojas e teve graves problemas com droga e álcool que se prolongaram durante anos. A mãe, Mary, achava que tinha perdido qualquer tipo de influência sobre o filho e limitava-se a incentivá-lo no desenho, a única qualidade que lhe reconhecia e lhe valeu a entrada no Goldsmiths College na Universidade de Londres. Nesses anos organizou a sua primeira exposição, uma mostra colectiva para a qual chamou importantes galeristas londrinos. A marca da sua arte já estava definida e ficou sublinhada depois de uma experiência de trabalho numa casa mortuária que o delimitou nos temas e nos materiais usados nas suas obras.

Nas suas colecções a morte está sempre presente. Seja através de esculturas que representam cadáveres em estado de decomposição, colecções de animais em formol, ou grandes mamíferos fechados numa vitrina. O mais famoso é um tubarão imerso em formol: The Physical Impossibility of Dead in the Mind of Someone Living. A sua venda em 2004 fez dele o segundo artista vivo mais caro de sempre a seguir ao norte-americano Jasper Jonhs.

Amigo de Bono Vox, frequentador dos clubes do Soho londrino, proprietário de restaurantes, Hirst nunca foi um artista convencional. Longe disso. A actual decisão de passar por cima de galeristas e marchands só veio reforçar essa faceta pouco ortodoxa que ultrapassa as fronteiras da arte e quebra as regras de mercado.

Hirst, o artista que viu o mayor de Nova Iorque proibir a exibição de algumas obras suas em locais públicos e que só aprendeu tarde que as coisas esquisitas que fazia podiam ser consideradas arte mesmo sendo obscenas, ofensivas, demasiados chocantes, que admirou Francis Bacon ao ponto de inconscientemente transferir o grotesco para as suas próprias pinturas e que por não gostar do que viu abandonou por uns tempos a tela, esse Hirst nunca satisfeito, sempre em busca de algo mais mórbido e aterrador, inventivo, subversivo, tornou-se o seu próprio manager e é o homem no centro do seu universo. Invulgar.

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