Fado 'transparente' em Belém

Acompanhada pela Sinfonieta de Lisboa e por Jaques Morelenbaum, Mariza actua frente à Torre de Belém . E grava novo DVD

Poucos meses volvidos sobre a edição do magnífico Transparente, Mariza concretiza hoje o sonho que o disco naturalmente levantou: cantar, ao vivo, com orquestra dirigida por Jaques Morelenbaum. O som discreto e envolvente do seu álbum deste ano vai assim conhecer vida em palco por uma noite só, com direito a gravação para posterior edição em DVD. No relvado frente à Torre de Belém está montado um palco que, pelas 22.00, recebe Mariza , os seus músicos habituais, a Sinfonieta de Lisboa e, claro, o maestro e violoncelista brasileiro, que o mundo conhece de trabalhos assinados junto a nomes como Tom Jobim ou Caetano Veloso.

"Esta é a primeira e provavelmente a única ocasião em que nos vamos apresentar desta forma", confessa Mariza ao DN. E explica: "Não temos disponibilidade para já. E em termos de orçamento é uma loucura. Tivemos a colaboração da Câmara de Lisboa, que nos ajudou com o espaço, que é fantástico. E a EGEAC não se poupou a esforços para que o espectáculo se pudesse realizar. E depois ter o Jaques, a Sinfonieta de Lisboa, a Torre de Belém por trás... É um concerto para ser gravado em DVD. Já tenho um DVD que veio de fora para dentro. Agora terei um que vai de dentro para fora, para mostrar ao mercado internacional o público português e como é um concerto em Portugal. Além de que é uma oportunidade única para fazer o Transparente ao vivo."


O álbum será interpretado quase todo na íntegra, mas haverá novos arranjos, de Jaques Morelenbaum, para temas dos dois álbuns anteriores, Fado em Mim e Fado Curvo. Os ensaios decorreram nos últimos dias, e hoje a hora da verdade chega pelas dez da noite. "Quando começámos a falar que podíamos voltar a fazer um concerto em Monsanto, disse que queria convidar o Jaques, porque tinha sido o produtor do disco. E depois uma orquestra." O projecto avançou, mas deslocou-se para a Torre de Belém , com entrada livre. A canção Duas Lágrimas de Orvalho, que Mariza canta a sós com o violoncelo de Morelenbaum, será certamente um dos momentos altos da noite. Mas Mariza ainda não imagina o que esperar nesse instante: "Esse momento em estúdio foi único. E quase que nenhum de nós respirou. E não mais se repetiu. Por isso não estou a imaginá-lo de novo"... Vamos ver...


Ao assinar este disco com Mariza , o violoncelista e produtor traz ao fado um mundo de referências brasileiras que, de certa forma, estão em sintonia com um conjunto de opiniões que colocam o Brasil na génese do fado. "O fado tem raizes brasileiras", confirma Mariza . "E eu trago comigo um pouco da lusofonia. Acho que o fado tem isso. E o Jaques faz também parte dessa lusofonia. Ele conhece muito da música portuguesa, tem muitos discos em casa. E ajudou-me a chegar à sonoridade que eu procurava, percebeu-me. Parece-me que foi o parceiro ideal para este disco. Não sei se haverá mais oportunidades de trabalharmos juntos, até porque ele tem uma agenda muito cheia. E também não sei se poderíamos continuar a fazer mais discos. Vamos continuar a renovar, talvez ele possa aparecer para produzir mais dois temas... Às vezes estar à volta de uma mesma sonoridade muito tempo pode cansar. Mas gostava de poder continuar a fazer algumas com ele. Ele traz aquela sonoridade brasileira, aquele gostinho bom. E tira um bocadinho da dureza que o fado tem e algumas pessoas não gostam de a sentir. Este disco tanto pode ser ouvido por pessoas que gostam de fado como pelas que não gostam de fado. Ele teve a subtiliza de saber trabalhar nesse sentido", explica.


E depois de Morelenbaum? Quem será o senhor que se segue. Naturalmente, é ainda cedo para pensar em cenários. Transparente ainda tem muita vida pela frente, e Mariza tem pesada agenda pelo caminho antes de pensar sequer em voltar a estúdio. "Todos os meus discos têm dois anos e meio de intervalo e este ainda é tão recente que ainda não pensei em quem poderia chamar. Se um Sakamoto, ou fazer uma coisa com a Paula Morelenbaum e entrar um bocado mais no mercado brasileiro. Mas entretanto acabo de chegar de Madrid, onde gravei o Há Uma Música do Povo, com o José Mercé, o maior cantor de flamenco da actualidade. Desde que a música seja bem tratada, se sentir que estamos no bom caminho e não estamos a desprestigiar o fado, estou sempre aberta a experiências novas", remata.


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