O desafio da Transparência

De uma só vez, um álbum assegura não só a descoberta de um espaço próprio no universo do fado, como garante o arrumar definitivo da equívoca sucessão amaliana que muitos procuraram até aqui em Mariza . De voz tranquila, acompanhada por arranjos tão respeitosos quanto arrojados, Transparente marca a carreira de Mariza numa altura em que se assume com projecção global. No dia em que estreia o disco ao vivo no Auditório Olga Cadaval, em Sintra, Mariza fala ao DN:música sobre o novo disco, os seus "professores", a nova geração fadista, um passado soul e funk (com audição frustrada para os Cool Hipnoise) e sobre o ritualismo que conduz os seus dias em tempo de digressão.

Como explica a actual expansão do fado como fenómeno com projecção global?
Parece-me que, durante muito tempo não foi uma música tão explorada como o foi o tango, por exemplo, ou o flamenco. Talvez por causa do regime que tivemos, a música não saía tão para fora. A imagem que saía talvez fosse sempre a da Amália. O Carlos (do Carmo) não era tão visível naquela altura, embora tenha uma carreira internacional, mas de forma completamente diferente. E depois, durante um certo tempo, também nós próprios tentámos renegar o fado. Ficou pelos ambientes típicos, no bairro... Hoje parece que existe uma nova forma de olhar para o fado não como uma música menor mas como uma música que nos pode representar. E depois, nesta idade da globalização, as pessoas estão mais abertas para ouvir outras sonoridades, outras culturas. O mercado do que chamam world music começa a ser cada vez maior. E o fado foi-se encaixando. Estamos numa altura em que há muita gente a cantar o fado. E começa a ser espalhado pelos quatro cantos do mundo.

Reconhece qual o seu papel neste processo de abertura do fado ao mundo?
Quem está de fora, quem acompanha, talvez o consiga perceber. Ao mesmo tempo sei que sou diferente de outras cantoras de fado, sei que tenho feito algumas coisas fantásticas, mas não me consigo ver de fora.

A imprensa internacional já afirmou que a Mariza trouxe um outro glamour ao fado... Uma outra alma ao fado.
Acho que tem a ver com a minha vivência na Mouraria, com a forma com a qual vi o fado a ser tratado e cantado. A base do fado pode ser melancólica, mas é uma música que fala da vida, dos sentimentos. E não passamos a vida a chorar, a lamentarmo-nos. Há muitos sentimentos para serem explorados: a alegria, o contentamento, a felicidade, o amor, a paixão, o ciúme... O fado é a música que fala desses sentimentos. Como vivi isso no bairro em que cresci, transporto essas vivências para aquilo que faço. E aparece no palco... Não vou fazer isto ou aquilo para ser diferente. Esta é a forma com que vi o fado a ser tratado.

Outra ideia que costuma correr entre os textos que falam de si na imprensa internacional é a sua caracterização como "diva" do fado. E é verdade que não gosta de ser tratada como "diva"...
Não gosto da palavra! A palavra diva recorda-me logo a Maria Callas... E todas elas têm um génio que eu não tenho, do tipo gritar com toda a gente, berrar, mandar... Não sou assim! Sou muito séria quando quero as coisas organizadas, a trabalhar, mas não grito com ninguém. E depois acho que se precisa de muitos mais anos para poder chegar a esse estatuto... A diva já faz o que lhe apetece... Agora não faz isto, não quer ir, não canta... Quando se chega uma certa idade já se pode ser diva e, com esse estatuto, fazer o que passa na real gana. Mas não sinto isso.

Há ainda uma tendência, fácil e equívoca, para a apelidar de nova Amália. Está a conseguir livrar-se dessa comparação?
Deixei de me preocupar com isso. No segundo disco isso preocupava-me bastante e não sabia como lidar com isso. Não sabia como responder. Talvez não tivesse crescido o suficiente, entendido o suficiente para lidar com a comparação. Sei que há muita gente que a faz num sentido carinhoso, como um grande elogio. Mas no fundo não me estão a desrespeitar a mim. O desrespeito é para com a Amália. Amália há só uma! Não há nova Amália, afilhada da Amália, sobrinha da Amália. Amália é Amália e eu sou eu. Posso continuar a cantar, eu e toda a gente, fados que a Amália imortalizou, porque estão ali para ser cantados. Fazem parte da nossa história, da nossa cultura.

Costuma dizer-se que em equipa que ganha não se mexe. Contudo, a cada novo disco que grava faz questão de assumir a mudança.
Acho que tem muito a ver com a minha personalidade. Estou sempre a imaginar coisas, a ver coisas. Montar concertos... Mas há muito tempo que queria chegar a uma sonoridade própria. Ouvir e dizer... Esta é a Mariza . Quando se ouve um disco de Frank Sinatra, Edith Piaf, Charles Aznavour, identifica-se logo a sonoridde. Com o segundo disco foi difícil, por vários motivos. Queria, de alguma forma, mostrar que não era a nova Amália, que sabia escolher a poesia que queria cantar, que sabia trabalhar fados originais, que sabia o caminho a que queria chegar. Mas tornou-se num disco duro, é perciso mergulhar nele para o entender. É forte e pesado. Aqui cheguei a uma fase em que não quero provar nada a ninguém. Estou completamente relaxada. Escolhi o produtor dos meus sonhos com o qual queria trabalhar há muito tempo, que é o Jaques (Morelenbaum). E cada poema neste disco é como um ponto da minha forma de estar neste momento, do meu crescimento como pessoa. A minha forma de cantar mudou. Cresci... Acho que precisava de passar pelo Fado em Mim e pelo Fado Curvo para chegar aqui. Não é uma necessidade de mudar, mas de chegar cada vez mais ao som que procuro e de me expressar cada vez melhor na música que faço.

Em Fado Curvo havia piano, trompete. Agora há violinos, violoncelos, flautas, acordeão... Os instrumentos são também eles próprios um motor para esse encontro com uma sonoridade desejada?
Acho que sim. Quando se começa a trabalhar num disco não se tem imediatamente a sonoridade que se vai conseguir, mas antes uma ideia. Todo o trabalho de construção dentro de um disco pode ser movimentado, podemos sentir coisas diferentes. Isso aconteceu... Ouvi alguns temas e dizia "Jaquinho, eu estou a ouvir aqui um cavaquinho"... E ele logo dizia que no dia seguinte iria chamar o cavaquista. E tudo funcionava dessa forma. Ele tinha uma preocupação imensa em perceber o que eu sentia em cada música, o que queria ouvir em cada uma... Mas esse trabalho é feito de uma forma inconsciente, intuitiva. Não vamos à procura.... As coisas acontecem. Em estúdio vou fazendo o que me soa bem e só no final posso mostrar, porque estou orgulhosa daquilo que fiz.

O disco não é um disco de fado canónico. Até onde se pode ir não deixando nunca de ser fado?
Isso não sei. Existe uma linha que sei que não se pode passar. É como a linha da água. Sabemos que está ali e que ali termina para ti. Neste disco foi o Jaques quem me abriu a porta. E a partir dali passei a olhar para tudo de forma diferente. Ele disse-me a certa altura: "Não estamos a falar de fado... estamos a falar de música"! E é isso. Mesmo que se ponham rótulos, se isto é fado, se é tango, jazz, no fim, se espremermos tudo, o que sai é música. Eu vou deixar as pessoas decidirem se é fado ou não. Para mim é música.

Preocupa-a a opinião dos puristas?

Não. Acho que os puristas deviam preocupar-se com eles próprios. São eles quem puxa o fado para trás. O fado é uma música urbana, vive do ritmo da cidade, das pessoas, da evolução das pessoas.

O que é que é transparente neste disco?
Eu! Se me perguntassem há dois anos se seria capaz de cantar alguns dos temas que estão neste disco diria que era impossível. Este disco é a minha declaração de amor ao fado. Posso senti-lo no fado tradicional que canto com um poema do Vasco Graça Moura. Que outro amor eu cantaria? Mais nenhum! A poesia que escolhi reflecte tudo o que sinto neste momento. A forma de cantar é mais doce, estou mais em paz comigo. Estou aqui... Por isso o disco é transparente. Pela escolha do Jaques, por ter ido para o Brasil e usar músicos brasileiros.

Jaques Morelenbaum foi escolhido com uma sonoridade em vista ou a sonoridade surgiu pela sua presença?
Já há muito tempo que eu ouvia as coisas dele, era fã! Adorava tudo. Tem um toque de ouro, de Rei Midas. Ouvia aquela sonoridade e sonhava pelo menos que um dia produzisse só uma música. Já não pensava num disco! Uma música, um evento qualquer, uma coisa especial... Então surgiu a ideia de o convidar. Já nos tínhamos cruzado em festivais, e aqui em Portugal, mas pensava que ele nunca iria aceitar. Mas aceitou! Tinha um espaço aberto, estava livre. Foi ouro sobre azul. Livre eu estaria a qualquer hora! Nem que ele dissesse que tinha de ir para o Japão! Pensei que ele seria a pessoa que me ia ajudar a chegar à sonoridade que procurava. Quando ouço este disco sinto que a música flutua. Não é o fado duro! Pode-se ouvir se não se gostar de fado. Mas quem gosta consegue perceber que está ali boa música e que de nenhuma forma procurei desprestigiar nada. O Jaques usa os instrumentos de uma forma parcimoniosa, tudo muito sério, muito cuidado. Um outro produtor teria posto uma orquestra a soar. Está aqui a orquestra! Mas não... Ali parece veludo... Até a guitarra portuguesa foi usada de uma outra forma, sensual. E adorei a forma como respeitou os instrumentos. Foi o produtor certo para mim, conseguiu compreender-me.

Jorge Fernando e Carlos Maria Trindade, respectivamente em Fado em Mim e Fado Curvo, foram também os produtores certos no momento certo?
O Jorge Fernando apareceu numa altura certa. Foi fundamental para o Fado em Mim. O Carlos Maria Trindade também foi fundamental para o Fado Curvo e ajudou-me bastante nesse disco. Tinha de ser ele... E para este disco tinha de ser o Jaques. Era o passo certo.

O disco confirma a sua relação com a poesia e os poetas. Como escolheu os poemas?
Para este disco, como ando com uma agenda muito louca, tive ajuda. É incrível, porque costumo ser eu a fazer a pesquisa. Desta vez, além de mim, pedi ajuda a um rapaz que descobri através de um site de amigos (não gosto da palavra fãs). De vez em quando vou espreitar esse site, vejo as mensagens que me deixam, o que se passa... Respeito esse site, assumo-o. Reparei que de nove em nove dias havia uma pessoa que me deixava mensagens poéticas, com palavras maravilhosas. E perguntei ao presidente do site quem era o Ricardo Moutinho? Comecei a falar com ele, achei-o super interessante, e a perguntar-lhe o que pensava da poesia, o que sentia, o que escrevia. E ele tinha a mesma ideia que eu sobre a poesia. Achava que a poesia é uma forma de quem não escreve poder transmitir os seus sentimentos através das palavras de outra pessoa. Perguntei-lhe então se gostaria de fazer uma pesquisa de poemas para eu cantar. Disse-me que era um trabalho de muito respeito, mas que não se importava de o fazer. Apareceu com um livro de poesia pesquisada por ele do que achava que eu poderia cantar. Dali fiz a minha pesquisa. Então surgiu o poema do Fernando Pessoa e o do Alexandre O'Neill. Depois pedi ajuda ao Paulo de Carvalho, ao Fernando Tordo, ao Rui Veloso. E tenho o Pedro Campos, que toca por hobbie e canta de vez em quando, e acho que gostaria de fazer algo mais sério. Mas é professor de ciências políticas e gosta de escrever. Mostrou-me o Montras. E achei fantástico poder falar de uma Lisboa mais nova, sem os clichés do eléctrico amarelo... Ele fala de uma Lisboa moderna, actual, do desemprego, dos emigrantes.

No disco assume homenagens a três cantores de fado. Amália e Carlos do Carmo, duas figuras tutelares e Fernando Maurício, menos divulgado.
Foram os meus professores, os meus gurus pelos quais tenho um respeito máximo. Comecei a ouvir o Fernando Maurício quando tinha cinco anos. Ia cantar a casa dos meus pais e eu fugia para o ouvir cantar no clube desportivo da Mouraria e a minha mãe andava atrás de mim... Há intérpretes que passam ao lado quando não se conhece o fado com mais intimidade, mas o Fernando inspirou gerações de fadistas a quem chamamos os mauricianos. Chamava-lhe Tio Maurício e adorava a forma como cantava, e quando se ouve alguém de quem se gosta vai-se ficando influenciado... Quatro ou cinco semanas antes de ele morrer estávamos numa taberna em Alcântara e ele estava a cantar. Eu pedia-lhe sempre para cantar o Quando Me Sinto Só, porque ele nunca o gravou. E ele respondeu: "Olha, esta fica para o teu repertório". E ficou. É a minha homenagem a um grande fadista que não é tão conhecido como eu gostaria. Tinha um jazz, um swing na sua forma de cantar... Foi o meu professor sem saber. Depois vem a Amália e toda a gente sabe porquê... E o Carlos... que toda a gente também sabe porquê. O primeiro fado foi dele, o meu disco de culto de fado era O Homem Na Cidade... Porque foi meu professor tantos anos sem o saber, pela sua genialidade como intérprete, pelo dom da palavra, por tudo o que deu ao fado, e por tudo o que me ajudou neste disco. Ia para casa dele e fazíamos serões até às quatro da manhã! Não sei como é que me aguentou.

Hoje há muitas novas vozes a cantar o fado. Acompanha esta nova geração?
Tento perceber. Obviamente, como toda a gente, gosto mais de uns que de outros. Gostaria de ter mais tempo para perceber melhor o que se está a passar no fado. Mas tento entender... O que me assusta nos últimos tempos é a história do fado se transformar numa moda. E parece-me que o fado não é uma coisa de modas! Também há um pouco a ideia de que o fado é a única saída para cantar no mercado internacional ou se ser respeitado no próprio país. Isso também me assusta, porque às vezes aparecem coisas completamente deslocadas. E pode ser negativa a imagem de ser comercial. O poder-se fazer um espectáculo lá fora, que há um mercado aberto... Isso pode influenciar de forma errada gente que não conhece o fado na sua essência e depois pensa que se pode cantar de qualquer maneira, de trás para a frente. Mas o mar deita fora aquilo que não quer. E isso vai acabar por acontecer.

Há vozes que a entusiasmem particuralmente?
Há, sim! O Camané, por exemplo. E entre as vozes femininas há uma miúda que ainda não gravou um disco, mas se gravar as pessoas vão gostar: a Rosarinho. Canta muito bem! Para a sua idade, tem uns 20 ou 21 anos, tem uma voz com muita maturidade...

Está atenta então aos talentos emergentes...
Vou às taberninhas quando estou em Lisboa. De vez em quando encontro-a e espicaço-a. Ando muito entretida a ouvir essas vozes que ainda não têm discos.

E dos que já gravaram compra os discos? Vê concertos?
Não tenho tempo para isso... Tenho de ser sincera. Isto ocupa muito tempo e quando compro discos vou à procura de uma coisa específica que quero ouvir... Como quando preciso de ouvir um disco da Nina Simone que tenha a música tal... Discos de fado, compro dos antigos. É uma forma de aprender, de continuar a estudar.

E o que diz dos projectos mais ousados que transformam o fado através de outras linguagens?
Adoro! A Naifa acho fantástico, sobretudo a forma como se aproximam da guitarra portuguesa. É diferente. Há pessoas que se sentem influenciadas pelo fado, mas depois têm a sua própria forma de estar. Porque não combinar o fado com a sua forma de ver a música?

Como António Variações fez nos anos 80...
Exacto. Eu adorava-o. E toda a gente adorou. Pôs o seu cunho pessoal no que fez. Mas gosto destas abordagens ao fado. Agora não sei se as conseguiria fazer. Gosto muito de instrumentos acústicos, mas acho que é uma porta fantástica. No flamenco faz-se bastante. No tango também.

Depois da revolução o fado foi enjeitado como uma expressão do "antigamente". Nos anos 70 e 80, tirando raras excepções, mal se ouviu. Nos 90 o cenário começou a mudar. Hoje é, novamente, "uma música do povo", como dizia Fernando Pessoa?
Mas ele não sabia se era um fado... Há dias li o livro do José Gil. Não sou filósofa, li e entendi as coisas à minha maneira... Com algumas coisas concordo. Mas em relação à música, nos últimos tempos parece que há um orgulho em ser português. E o fado tem sido um dos seus representantes no exterior... Na nova geração, e falo de pessoas na casa dos 30 ou 40, algumas têm recordações vagas do que foi o regime. Outras nem o viveram. Assumem por isso o fado como parte da sua cultura, de ser português.

Sem conotação política...
Não existe. Não há aquela imagem do fado e do regime... E cada vez mais parece que as pessoas que cantam fado tentam fazer cada vez melhor. Cantar boa poesia, fazer um fado novo... E as pessoas vão-se identificando mais com aquele artista ou com outro.

Transparente é editado a 25 de Abril. Há algum sentido por detrás desta data?
Nenhum! A ordem veio de Londres, e lá nem sabem o que é o 25 de Abril. Para eles é uma data normalíssima. Para nós não, é uma data muito importante.

O fado é, para si, uma vivência de infância e uma redescoberta mais tarde. E pelo meio? Houve uma altura em que cantou em bandas de soul e funk...
Gostava muito... Mas no final da noite, nesses sítios onde cantava, ficavam sempre os clientes habituées, a conversar, e eu cantava um fadinho sem instrumentos. Se sentisse que havia ambiente, senão não cantava... O fado esteve sempre presente. Mas a minha mãe é africana. O meu pai é apaixonado por fado e vozes masculinas, mas a minha mãe tinha as suas cassetes e disquinhos da Nina Simone, da Miriam Makeba, do Tom Jobim, da Elis Regina, Frank Sinatra... Ouvia música das Antilhas, dos Camarões, tinha um universo musical completamente diferente do do meu pai.
E por isso fazia sentido que eu cantasse outras coisas.

De qualquer forma, cantava uma música igualmente emotiva.
Completamente! Continuo a ouvir, mas hoje não sei se teria coragem de cantar. Mas nesse tempo cantava. E era terrível em palco. Cantava de todas as maneiras, em cima das mesas! Enchíamos casas porque aquilo era completamente louco, com música que as pessoas gostavam. Íamos ao disco sound, voltávamos à soul... Era fascinante poder tocar outros géneros musicais, cantar em inglês, experimentar. Mas não há música onde me consiga expressar melhor que o fado. Tentei fazer aquilo com o Sting, mas tem de ser em português...

Chegou a fazer uma audição para os Cool Hipnoise...
Mas eles mandaram-me embora! Foi incrível... Mas foi porque tinham umas datas e coisas para fazer. Eu sou uma pessoa muito independente e aos 20 anos já morava sozinha. E trabalhava. Cantar era um prazer mas, ao mesmo tempo, o meu trabalho. Cantava em casinos, em clubes, em pequenos bares, e surgiu a oportunidade de fazer essa audição com os Cool Hipnoise. Que engraçado, um projecto original. Fiz a audição, eles gostaram da voz, mas depois começaram a dizer que iam viajar à Alemanha de carro... De carro!? E que não sabiam muito bem os cachets, que às vezes era só mostrar o produto e não havia cachets. E eu ia viver do quê? Do ar? Nada estava assegurado... E eles não queriam uma cantora que fosse a cara dos Cool Hipnoise e ao mesmo tempo cantasse no casino. E não ia deixar de cantar no casino nem nos clubes, porque era dali que vinha a minha sobrevivência. "Então não dá", disseram. Então não deu.

E se tivesse dado? A sua vida teria tomado que rumo?
Houve uma altura em que cantava no Senhor Vinho, no Chafarix, num bar que se chamava Artz, fazíamos casamentos e baptizados ao fim de semana... Ao mesmo tempo andava a fazer uma maquete com o Tiago Machado e o João Pedro, com umas baladas, uma soul em português. Mas como já tinha voltado a cantar fado, andava muito apaixonada com o fado, e tudo me soava mal. E de repente aparece um dos produtores dos Fleetwood Mac, que é português. Ouviu o que estávamos a fazer, achou interessante e convidou-nos para ir para Inglaterra. Estávamos a uma semana de ir para Inglaterra e desisti de tudo. Porquê? Não era o que queria fazer.

Ficou apenas com a casa de fados...
Depois o Jorge (Fernando) achou que era engraçado fazer um disco, porque toda a gente que está numa casa de fados grava um disco que se vende ali e oferece aos amigos.

E foi o que foi... Mas recentemente teve experiências fora de portas fadistas. Um dueto com Sting e um palco partilhado com Lauryn Hill em Hollywood. O que representam estas experiências de contacto com o universo pop?
São experiências engraçadas. O Sting conhecia o meu trabalho, é uma pessoa super atenta a sonoridades diferentes e foi muito engraçado. É bom saber que, de alguma forma, se pode também pisar aquele palco, olhar para aquelas estrelas que se vêem na televisão. Mas eu continuo a gostar muito do fado. Cada vez mais.

O fado concretiza todo o seu desejo de expressão artística?
Não me imagino noutra música. Posso um dia experimentar, por brincadeira, e por prazer, cantar uma bossa nova... Mas a música onde me sinto feliz, na qual me expresso, é o fado. É meu, faz parte da minha alma, é como respirar. Não há dúvidas.

O reconhecimento do público, da imprensa, sublinha essa dedicação ao fado?
Em tempos lia o que escreviam. Mas não o faço mais. Hoje leio o que os fãs escrevem. Quando estou em baixo leio o que as pessoas dizem, aquilo de que gostaram. Fico feliz...

Os fãs portugueses deixam mensagens diferentes das dos fãs estrangeiros?
São diferentes, sim. Os portugueses têm muita dificuldade em expressar as suas emoções.

Como é um dia de trabalho seu?
Depende. Normalmente fazemos dois concertos e depois paramos um dia. Se é dia de viagem, estou de pé às oito da manhã, às vezes mais cedo. Esses são os dias mais complicados. Por vezes temos de viajar de tour bus 800 quilómetros porque é mais prático... Num dia menos complicado acordo mais tarde. Durmo tarde, e levanto-me às onze e meia, meio-dia. Tenho por lá os meus iogurtes... Em dias de concerto, sempre líquidos, é uma forma de me proteger de intoxicações alimentares (que faço com muita facilidade). Então muitos líquidos, sumos, iogurtes, fruta empapada... E fico no quarto a ler, ou no computador, à espera da hora de me virem buscar para fazer o som. Depois chego ao local do concerto, começo a engomar, às vezes decoro o meu camarim, mudo as coisas. Duas horas antes do concerto já ninguém me pode ver. Fechei portas, estou no meu mundo, com os meus chás, a minha concentração. Às vezes saio, falo com os músicos, volto ao camarim. 20 minutos antes estou no meu stress, e só o João Pedro pode entrar. Os músicos entram então em palco... E se o concerto não começa à hora marcada fico a sofrer. Começo a ouvir o som das guitarras e depois fecho completamente.

E como é que descontrai depois dos concertos?
É com os músicos. Tenho um problema gravíssimo: da primeira música à última sei todas as notas que deram e não estavam previstas. Estou atenta a tudo. Não sei ler música, mas sei fazer isso. No jantar, eles perguntam o que é que tenho para dizer. E, quando me querem irritar, "o que é que a diva tem para dizer"? Aí já fica pior! Depois começo: "Luís, hoje no fado não sei quê aquela nota não é a que costumas dar"... "Apeteceu-me", diz ele. Mas não pode apetecer, porque me posso enganar! Podem improvisar, mas se houver uma nota que não cabe pode influenciar a minha forma de cantar e haver um choque harmónico. E pergunto se não sentiram se aquele nota podia chocar... "Você sabe lá o que choca e não cabe", respondem... E assim livramo-nos do stress. Gozamos uns com os outros.

E o que faz quando está de folga, em Lisboa?
Quando não tenho nada para fazer, o que é raro, vou para o Chiado passear. Uso um boné mas já me descobriram. Vou às livrarias, ou ao Hotel do Chiado, onde adoro tomar o meu chá.

É ritualista em dia de concerto. Uma segurança?
Tem de ser tudo como está programado. O que acontece fora do programa desestabiliza-me. Mas há excepções. No ano passado dei concertos no Hawai. E imaginam-me a chegar aos teatros de chinelos e pareo, despenteada, acabada de sair da praia? Foi o descontrolo total, relaxei completamente.

Recentemente foi designada embaixadora da obra de Hans Christian Andersen. Porque aceitou?
Comecei a ler os seus contos quando tinha oito anos. Um dia estava a passear no Chiado com a minha mãe e ela decidiu comprar um livro de contos do Hans Christian Andersen. E, todos os dias, depois do jantar, como estava a aprender a ler nessa altura, eu lia um bocadinho e ela lia o resto. Havia histórias que decorava, e queria repeti-las... E a minha mãe via que as tinha decorado e não estava a ler... Era uma forma de me ajudar a ler e, como era filha única, uma forma de me entreter. Ouvir música era outra, dançar... Assim, o Hans Christian Andersen faz parte da minha imaginação. E quando me convidaram pensei em que é que poderia ser prestável. Mas explicaram-me que, mesmo sabendo da minha agenda carregada, a melancolia que transporto na música que canto é a mesma que ele tinha nos seus livros. Então, com essa explicação, aceitei.

É também embaixadora da candidatuta do fado a património oral e imaterial da humanidade pela Unesco. É um caso mais complexo...
E mais preocupante. O processo está a andar devagarinho. Estamos a organizar os dossiês para entregar à Unesco. Sei que nos últimos tempos mudou um pouco a linha da candidatura. Mas preocupa-me também a colecção de fado que está em Londres e já devia estar em Portugal. Preocupa-me cada vez mais a forma como parece não estar a existir esta candidatura. A Mouraria precisava de ser revista, há a casa da Severa, tanta história. Alfama, as casas de fado, tudo isso tem de ser revisto e organizado para que esta candidatura seja válida e chegue a bom porto!

Sente os portugueses pouco envolvidos com esta candidatura?
Há pouco envolvimento, sim, mas também alguma falta de informação. É um caso muito sério. São poucas as músicas que foram aceites. São muito rigorosos, criteriosos. O tango não foi. Só o blues, parece-me.

Numa outra entrevista falou de metas que tinha para atingir em cinco anos: mostar o fado internacionalmente, subir para maiores níveis musicais, trabalhar com os melhores músicos, firmar uma imagem no mercado internacional. Mantém estas metas?
Claro que sim. Tenho dado os passos nesse sentido. A meta não é cantar no estádio de Wembley! É fazer cada vez melhor, ser cada vez mais profissional. Se o fado chega às grandes salas, e este ano vamos fazer algumas, tenho de ser cada vez mais profissional. Eu olho para o caso do Sting. Tem um grupo de fãs que já é fiel. Independentemente do disco que faça estão lá a apoiá-lo, é o artista deles. É essa a minha meta, ter o meu público fiel, à minha escala, claro.

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