Quem é Anne Teresa de Keersmaeker?

A coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker é a convidada da primeira bienal "Artista na Cidade". A partir de 3 de fevereiro e ao longo de todo o ano, Centro Cultural de Belém, Culturgest, Teatro Camões, Teatro Maria Matos e outros espaços da capital vão receber mais de uma dezena de espetáculos interpretados pela companhia Rosas.

Para os mais distraídos, Anne Teresa de Keersmaeker é apenas a coreógrafa que Beyoncé plagiou num dos dos seus últimos videoclipes. Mas ela é muito mais do que isto. Estamos perante uma dos nomes incontornáveis na dança contemporânea.

Anne Teresa de Keersmaeker apresentou a sua primeira criação aos 20 anos, depois de ter estudado na Mudra, a escola do coreógrafo Maurice Béjart, em Bruxelas, e de ter passado uma temporada na Tisch School, em Nova Iorque. 'Fase, four movements to the music of Steve Reich' (1982), o espetáculo que abre esta Bienal, no próximo dia 3 de fevereiro, é uma das suas primeiras peças. Voltaria, mais vezes, a usar a música de Steve Reich, que é, assumidamente, uma das suas principais influências.

O sucesso desta peça permitiu-lhe criar a sua própria companhia, Rosas, em 1983. A peça seguinte, 'Rosas danst Rosas', colocou imediatamente a pequena companhia no centro da criação contemporânea. Esta é talvez a sua coreografia mais conhecida e aquela que resume bem a estética de Anne Teresa - minimalista e repetitiva e, no entanto, apesar da estrutura rigorosa das peças, muito emocional. "Acima de tudo, no seu trabalho, a forma gera um significado", escreveu Anna Kisselgoff, crítica do The New York Times. É por isso que, mais do que minimalista, o seu trabalho é muitas vezes definido como expressionista.

Ao longo dos anos anos 80, o grupo apresentou-se preferencialmente no Kaaitheater de Bruxelas, até que em 1992 foi convidada a ser a companhia residente do teatro de ópera de Bruxelas, La Monnaie. Keersmaeker aceitou o desafio colocando-se a si mesma três objetivos: intensificar a relação entre a dança e a música, construir um repertório e criar uma escola de dança.

E conseguiu-o. Bartók, Mozart, Bach, Schöneberg, Wagner, etc. tornaram-se nomes comuns na companhia. Em 1995, abriu o P.A.R.T.S. - Performing Arts Research & Training Studios, que recebe alunos de todo o mundo. Por esta altura, o seu nome era já uma referência no mundo da dança, e não só na Europa.

Em Novembro de 1998, Anne Teresa de Keermaeker criou 'The Lisbon Piece' para a Companhia Nacional de Bailado - esta foi, até agora, a sua única experiência como coreógrafa convidada de uma companhia. Voltou mais vezes a Portugal. Por exemplo, em 2004 com 'Bitches Brew/ Tacoma Narroes' e 'Once' e em 2007, para apresentar 'D'un soir un jour'. O 'Bal Modern' já se dançou por cá várias vezes.

Mas não trabalhar com outras companhias não significa que tenha ficado "fechada" na sua companhia. A Rosas está constantemente a colaborar com artistas de outras áreas - gente como Frank Vercruyssen (do teatro Stan), a bailarina Elizabeth Corbett, o grupo de jazz Aka Mon, o coreógrafo Jérôme Bel são alguns dos nomes associados às suas peças.

Depois de se apresentar várias vezes nos Estados Unidos, em 2011 a coreógrafa recebeu o American Dance Festival Award, pelo conjunto da sua carreira, um prémio de 50 mil dólares (quase 40 mil euros). "Ao longo dos seus 30 anos de carreira, ela desenvolveu um vocabulário único de movimentos, em coreografias que exploram a intersecção entre forma, estrutura e emoção", afirmou o júri do prémio.

Aos 52 anos, Anne Teresa de Keersmaker atingiu o topo da sua carreira. "Não acho que tenha sacrificado nada. Vivi a vida que quis viver. Mas é um desafio para uma mulher combinar a carreira como coreógrafa, bailarina e diretora de uma escola com a tarefa de criar os filhos", disse numa entrevista ao The Guardian, em Outubro do ano passado. Nessa entrevista explicou também porque os artistas que mais admira não são bailarinos nem coreógrafos, são o dramaturgo William Shakespeare e o compositor JS Bach: "São únicos pela forma como são capazes de, apesar de ancorados na experiência humana, falar de algo que está para além da nossa humanidade."

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