"Já não sou uma miúda de 20 anos e sinto-o quando danço"

Aos 52 anos, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker, que é este ano a protagonista da Bienal Artista na Cidade, em Lisboa, continua a considerar o processo de criação de uma peça tão complexo como quando era uma jovem bailarina. Para ela, a dança é muito mais do que trabalho: "É uma obsessão ou uma paixão".

Diz que o processo de criação de uma peça é tão intenso e tão complexo que, às vezes, quando chega ao final, tem vontade de não voltar a criar. Como é que explica esse sentimento?

Ao longo dos anos desenvolvi ferramentas, tenho mais experiência, mas, apesar disso, continuo a achar que criar uma peça é algo muito complexo e muito intenso. Não me quero queixar, porque gosto muito do que faço. Mas de alguma forma eu fico obcecada pelo trabalho e por essas dificuldades. Não é só trabalho, é como uma obsessão ou uma paixão. Se calhar é por estar a ficar mais velha, tenho mais dificuldade em libertar-me do trabalho quando saio dos ensaios. E apesar de saber cada vez melhor o que quero fazer, ainda é muito intenso para o meu sistema nervoso. É por isso é que às vezes, no fim desse processo, penso que é demais para o meu corpo e para a minha cabeça. Claro que é diferente quando sou eu a dançar. Aí há muita coisa que eu não tenho que explicar. Mas ao trabalhar com outros, tenho que explicar muita coisa, tenho que verbalizar aquilo que quero, como cheguei até aqui, é um processo social muito intenso porque eu trabalho com pessoas, não trabalho com computadores. Há um enorme potencial naqueles corpos, que são corpos sociais e emocionais mas temos que lidar com eles e capitalizá-los, é um processo muito complexo.

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É por isso que não costuma aceitar trabalhar com outras companhias que não a sua? Por ser mais difícil trabalhar com outras pessoas e outros corpos, que não conhece tão bem?

Tenho responsabilidades para com a companhia, a Rosas, e as pessoas com quem eu trabalho, e de quem gosto, criámos um espaço em Bruxelas onde gostamos muito de trabalhar. E além disso sou uma mãe, tenho dois filhos, e não vejo a vantagem de passar dois ou três meses fora - eu sou muito lenta, os meus processo de criação demoram muito tempo. Já é um desafio combinar a maternidade com o trabalho estando em Bruxelas. A minha filha tem 15 e o meu filho acabou de fazer 18, já são crescidos mas ainda assim quero lá estar, acho que eles precisam de mim.

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O que é que significa para si esta oportunidade de apresentar uma parte importante das suas obras ao longo de um ano numa cidade?

É uma situação excepcional para a companhia, para mim e obviamente também para os espectadores, poder ver todas essas peças feitas em momentos tão diferentes. Apesar de haver filmes, e bons filmes, estas peças foram feitas para serem apresentadas ao vivo. É assim que elas existem. É um presente muito generoso de Lisboa e de todos os organizadores tornar isto possível. Ter todos estes teatros a trabalhar juntos é algo excepcional, não acontece muitas vezes. Especialmente nestes tempos difíceis, de crise económica.

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Como vai ser o trabalho com a Companhia Nacional de Bailado?

Não vou criar nenhuma peça nova para esta bienal, são tudo peças que já existem. A CNB vai dançar o nosso repertório. Eu vou seguir o trabalho mas o principal vai ser feito por bailarinos muito experientes da companhia Rosas, os mesmos que o fizeram em Paris. E os que criaram a peça também vão colaborar no processo. Mas eu vou seguir todo o processo e estarei lá na parte final. São peças que existem, a partir de uma escrita, e temos que dar-lhes toda a informação possível sobre o que significava para nós interpretar estas peças em termos de realidade física, conteúdos, movimentos gerados, o porquê daquele trabalho. E dar-lhes confiança e a liberdade para que a tornem deles.

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Ao longo deste ano vai poder reinterpretar e rever peças que criou quando era muito mais nova. Como é que, como bailarina, sente o envelhecimento?

Envelhecer nem sempre é fácil. Como bailarinos realmente sentimos o tempo a passar no nosso corpo, é no corpo que o sentimos mais. Todos o sentimos, mas para a mulher, mais do que para um homem, é mais difícil aceitar que o seu corpo está a envelhecer. Já não sou uma miúda de 20 anos e sinto-o quando danço essas peças. Mas, como toda a gente diz, também se descobrem outras coisas, aprendemos a desfrutar. Espero que a experiência seja uma mais valia no meu trabalho,que isso se note. Não é uma felicidade enorme fazer 50 anos mas também não sou como a Madonna, que tem 50 mas comporta-se como se tivesse 20. É uma reflexão diária sobre o tempo, algo muito concreto. E ao dançar com bailarinos novos e velhos consigo perceber como o corpo humano é único. Por um lado, os corpos são todos iguais, é algo que partilhamos. Mas ao mesmo tempo são tão específicos e diferentes. Isso é algo natural e tão complexo. Está no ADN da nossa humanidade.

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É verdade que os artistas que mais admira são o dramaturgo William Shakespeare e o compositor J.S. Bach? Porquê?

Admiro muitos artistas, mas estes são únicos, falam realmente ancorados da experiência humana, de tal forma que aquilo que dizem se torna divino, vai para além da humanidade. Acho que Shakespeare faz isso através da beleza absoluta da linguagem, assim como Bach - falam de aspectos muitos específicos da experiência humana numa dimensão quase cósmica. Há outros artistas fantásticos - e até certo ponto algumas coisas de Mozart - mas estes dois são especiais. Não é uma obra, não são duas obras, é o trabalho de uma vida inteira. Algumas são melhores, outras são piores, mas são de tirar a respiração com a sua beleza, com a profundidade com que olham para experiência humana e como nós somos um microcosmos do microcosmos.

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Procura fazer algo semelhante com a sua dança?

Faço uma pequena tentativa para ser assim - mas com modéstia.

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Temos que falar de Beyoncé e do plágio que fez à sua coreografia. O que sentiu quando viu o videoclipe?

Não tenho qualquer julgamento moral sobre o que a Beyoncé fez. Acima de tudo, isto levanta-me imensas questões sobre a relação entre a cultura 'mainstream' e a cultura de nicho. Como é que uma obra de arte passa de um nicho e chega ao grande público. Essa foi a primeira reflexão. Percebemos como esta é uma indústria gigantesca e como a informação é partilhada. O que me tocou mais nesta história foi a reação da comunidade da dança, fiquei mesmo surpreendida, todos diziam isto não é possível, não é admissível. Diziam-me: não deixes que isto aconteça. Há regras e limites que não se podem ultrapassar. É um assunto complexo hoje em dia, por causa da tecnologia, mas há regras que têm de ser respeitadas.

(entrevista realizada em Lisboa a 19 de janeiro de 2012)