Os “galantes fatos de banho” de 1910

No Verão de 1910, os portugueses praticavam desportos ingleses mas vestiam-se segundo a moda de Paris. Portugal ainda era uma monarquia e a Europa não estava em guerra. Viajava-se de barco, visitava-se a Palestina e toda a gente usava chapéu

_MARIA JOÃO CAETANO

"As pessoas mais graves e mais sisudas diante das águas que se arrepiam, em frente daquelas lindas mulheres estiraçadas na praia, de braços nus, os trajos a modelarem as curvas dos seus corpos, acabam por se entregar às diversões pueris que fazem as delícias dos banhistas." Ora aí está. Há cem anos, ainda a monarquia não tinha caído em Portugal, mas já se sabia que no Verão as pessoas são mais felizes. Mesmo que, como se vê, os "galantes fatos-de-banho" não deixassem a descoberto grande coisa. Eles de fato completo, e muitas risquinhas. E elas ainda muito tapadas - só algumas, as mais novas, as mais ousadas se atrevem nos modelos que mostram as pernas quase, quase até ao fim da coxa. A maioria das raparigas não mostra tanto. À beira-mar há quem ande de vestidos e até de meias. Mas, apesar do calor, sorriem.
À beira-mar. À beira-rio. À beira de lagos. Ninguém resiste às margens, por essa Europa fora. "Despovoam-se as cidades, procura-se um cantinho bem agradável nas praias dos mais exóticos nomes e nos casinos, nos clubes, nas vivendas, nas estâncias balneares, a grande palavra que vive em todas as bocas, como nome do ídolo universal, é a água" - foi isto escrito em 1910 nas páginas da Illustração Portugueza, mas podia ter sido hoje que não se notaria a diferença.
No Verão, a agência de viagens Erns George vendia bilhetes "para vapores e caminhos-de-#-ferro para todas as partes do mundo" mas, nos anúncios que publicava na Illustração Portugueza, destacava como destinos preferenciais a Europa e o Oriente: "preços reduzidos" para ir até França, Itália, Suíça, Alemanha e Áustria: "viagens de recreio" no Mediterrâneo e ao cabo Norte; "viagens ao Egypto e ao Nilo" e "viagens baratíssimas à Terra Santa". De barco e de comboio, assim se viajava há cem anos. A bordo dos transatlântlicos, que levavam os portugueses até ao Brasil e África, havia festas, jantares, partidas de xadrez.
Em Lisboa, o entretenimento das elites passava pelos "matches" de futebol, ténis ou de críquete, torneios de natação e encontros hípicos. Mas, se a influência inglesa era visível no desporto, era de França, sem dúvida, que vinham as últimas da moda. Em 1910, os ateliers parisenses determinavam o que constituía "o supremo grau da elegância e que dentro em breve Lisboa admirará": as capas bordadas a ouro, as rendas brancas império, o vestido azul bordado a prata. Se as capas eram a grande novidade, as túnicas também começavam a ser cada vez mais usadas. Mas os vestidos são ainda muito compridos, a roçar o chão, e tudo tem muita ornamentação - bordados, ouro, fitas, pérolas, rendas. "Usam-se também para festas os vestidos de caudas majestosas que tinham caído em desuso", escreve a Illustração Portugueza. "À frente essa saia é curta para deixar ver o tornozelo, o que será o triunfo dessa beleza feminina, e a cauda comprida e quadrada parte da cintura completamente desligada do corpo."
As senhoras, de enormes chapéus enfeitados com penas de avestruz e fios de pérolas. Os homens, de chapéu alto ou de palha. O espartilho, essa "arma de elegância", também segue as tendências e, nesta altura, o que está na moda é o espartilho americano: "alongou-se, chega quase até aos joelhos com as suas rendas, tem uma enorme flexibilidade, o seu estofo elástico não prende os movimentos e dá à mulher a forma convencional da moda, que nenhuma senhora, por mais elegante que seja, deixará de querer apresentar" - ninguém sabia ainda que faltava tão pouco para, nos anos 20, o espartilho se tornar cada vez mais raro.
Nas páginas da revista Illustração Portugueza, entre os anúncios à farinha láctea da Nestlé e o elixir do dr. Mialhe para o estômago, publicitam-se ainda as últimas novidades para a beleza. Por exemplo, os frisadores eléctricos West, acabados de chegar "d'América", responsáveis "penteados elegantes", "frisam e ondulam em 12 minutos". Há ainda o sabonete Verbena, que "destrói as espinhas, cura a caspa, conserva suave e perfumada a pele e deleita o banho". E o que dizer dos perfumes e cremes, incluindo um, muito específico, para o "busto ideal": "seio desenvolto, mais forte, mais redondo, perfeito, dando ao corpo uma beleza fascinante e uma delicada brancura, poderá tê-lo qualquer senhora ou menina com o perfumado Creme de Beleza da Madame C. Olyvia Otero". Sim, havia pudor no que toca a mostrar o corpo na praia, mas, na escrita, tudo era permitido.

Diário da Bicicleta

1 - Vestido de seda bordada com galão dourado, coberto com uma túnica branca também bordada.

2 - O merecido descanso nas barraquinhas de praia. "Confessionários de amor?", sugere a revista Ilustração Portugueza.

3 - A banhos na costa do Mediterrâneo com os fatos-de-banho de homem, comuns naquela época.

4 - "Banhos de mar, remédio para tristes", diz a legenda publicada pela Ilustração Portugueza.

 

Diário da Bicicleta

5 - Banhistas posam para a objectiva de um amigo.

 

6 - Uma partida de cartas, antes de um mergulho numa estância balnear perto de Viena, na Áustria.

 

 

7 - "Os vestidos são já um protesto contra os actuais denominados travadinhos e que prendem o andar das senhoras, impendido-as de os arregaçarem e deixarem ver um nadinha dos dessous de renda", podia ler-se numa edição de 1910 da revista Ilustração Portugueza.)

 
 
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