Vendeu-se mais bacalhau no super mas não deu para compensar perda do turismo

Consumo interno caiu mais de 10% com o fecho dos restaurantes e perda do turismo. Mas, em 2020 os portugueses encheram o carrinho no super e a tendência continua em 2021.

Os portugueses até podem ter abastecido a despensa com bacalhau, mas os 327,2 milhões de euros gastos no ano passado no super com compras do fiel amigo seco e congelado não foram suficientes para segurar as perdas sofridas com o fecho da restauração e a redução drástica do turismo. O resultado é uma queda acima de 10% do consumo interno. Importou-se menos produto, mas também se exportou menos: um recuo de 11,4%, para 16,2 mil toneladas nas vendas para o exterior, com perda de 13,1% nas receitas por via da exportação, para 105,2 milhões de euros.

No ano passado, Portugal importou 88,3 mil toneladas de bacalhau, menos 12,6% face a 2019, no valor de 490,6 milhões de euros (-15,4%), de acordo com informação facultada pela Associação dos Industriais do Bacalhau (AIB). Parte foi vendida nos supermercados, com os consumidores nacionais a encher o carrinho de compras com 28 mil toneladas de bacalhau seco (+3%) e 8,9 mil toneladas de ultracongelado (+11%), resultando em vendas de 239,5 milhões de euros (+1%) e 87,7 milhões de euros (+15%) deste produto, segundo os dados da NielsenIQ.

Uma tendência de crescimento que se mantém neste arranque do ano, com o novo confinamento a dar certamente um novo impulso às vendas. Até 7 de março vendeu-se um total de 5,1 mil toneladas de bacalhau, das quais 3,7 mil em produto seco (+6%) e o restante em ultracongelado (+12%). Ou seja, gastaram 43,9 milhões de euros na espécie, dos quais 29,9 milhões em produto seco (-2%) e 14 milhões (+15%) em bacalhau ultracongelado, revela a NielsenIQ.

Apesar destas compras, globalmente o setor não conseguiu compensar as perdas sofridas no canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés) - fechado durante os meses de confinamento e funcionando com limitações ao longo do ano - e, sobretudo, a perda de muitos milhões de turistas que por causa da pandemia não visitaram Portugal. A AIB estima que, no ano passado, "o consumo tenha sofrido uma queda superior a 10%", realidade que Paulo Mónica, secretário-geral da AIB, atribui ,"em grande medida," à "diminuição extrema do fluxo de turistas e das restrições ao funcionamento da restauração impostas pelas medidas de controlo sanitário à pandemia".

Entregas em casa e novas categorias no Brasil

Só com o fecho dos cafés, restaurantes e hotéis, a Riberalves viu desaparecer entre 35% e 40% do seu volume de negócios. "O consumo do bacalhau cresceu no retalho, a grande quebra foi mesmo na restauração, uma parte importante do negócio da Riberalves, cerca de 35% das vendas, o que afetou o negócio como um todo", reconhece Ricardo Alves. "Tivemos uma quebra de 4% em termos de quilos vendidos e uma quebra de 12% em valor. Isso deveu-se à baixa do preço do bacalhau que, ao longo do ano diminuiu em mais de 10%, e à redução de vendas como um todo, em quilos", explica o administrador.

Isto, apesar da subida de vendas no super - "na ordem dos 10%" - e de, mal a pandemia ter atirado os portugueses para casa, a companhia ter avançado com entregas ao domicílio. Primeiro em Lisboa, usando a frota própria, mas depois alargando a outras regiões. "Como temos um conjunto de parceiros que distribuem em exclusivo a marca Riberalves, a ideia é expandir para o país. Chegar ao Porto, brevemente. É o nosso objetivo", adianta Ricardo Alves, sem precisar uma data. "Tivemos uma venda interessante no arranque e estabilizou. Estamos a falar de cerca de 3 a 4 toneladas de bacalhau", revela.

No ano passado, a empresa faturou 132 milhões de euros, com as exportações a valer cerca de 35% do negócio da empresa nacional, tendo registado um "crescimento residual de cerca de 3". Venderam 15 mil toneladas de produto acabado no mercado nacional e enviaram para mercados como Brasil, Angola, França, Martinica, Guadalupe ou México um total de 5700 toneladas. A grande fatia - 3600 toneladas - foi para o Brasil, mercado para onde a Riberalves planeia entrar com uma nova categoria: os pré-cozinhados.

Será um mercado teste. "Já tivemos aprovação. As primeiras amostras já chegaram ao Brasil, esperamos em maio já ter produto nas principais cadeias de distribuição à venda para o consumidor", revela Ricardo Alves. Nos super brasileiro irão estar disponíveis cinco referências - resultantes da parceria com um produtor nacional - com marca Riberalves: bacalhau à Brás, o escondinho de bacalhau (empadão), bacalhau à Chefe (o Espiritual), as Delícias de Bacalhau (croquetes redondos com molho bechamel)e bacalhau com natas.

"Vamos lançar também em Portugal ainda este ano. Está mais avançado no Brasil, vimos uma oportunidade maior nesse mercado, vimos uma categoria mal explorada no Brasil", justifica.

Levar esta nova categoria para outros mercados externos ainda não está nos planos. A estratégia passa pela transferência do consumo de bacalhau seco para demolhado. "Para nós é o futuro, é um produto muito mais cómodo" e onde se pode adicionar marca e, com isso, valor.

Expectativas para o ano

Ricardo Alves mantém um otimismo q.b. em relação a 2021. "A área onde tivemos maior quebra foi a restauração e acreditamos que pior do que o ano passado não irá ser. O objetivo é crescermos, porque a restauração vai melhorar, acreditamos nós", diz o administrador. "Aliás, estamos a recrutar porque acreditamos que as coisas vão melhorar com a abertura da restauração. E o objetivo é regressarmos aos números de 2019 em toneladas", diz.

A companhia também planeia investir até 1,3 milhões de euros na redução da sua peugada carbónica. "Temos de caminhar para o objetivo da peugada carbónica zero e vamos investir bastante, não sei se em parceria ou a sós, cerca de 1,2 a 1,3 milhões de euros, nas duas fábricas", diz. O projeto deverá passar, entre outras intervenções, na instalação de centrais fotovoltaicas. "As grandes decisões serão tomadas até ao verão e o projeto implementado até ao final do ano."

Com Teresa Costa

Jornalistas do Dinheiro Vivo

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