Vara diz que operação de Vale do Lobo não teve "objeções" e rejeita "assalto ao BCP"

O antigo administrador da CGD advertiu que não teve condições para preparar audição na comissão de inquérito à gestão do banco público.

Armando Vara admite que encaminhou o projeto de financiamento a Vale do Lobo para a área competente da Caixa Geral de Depósitos. Mas rejeitou que tenha sido ele a apresentar a proposta formal para se realizar essa operação.

O antigo diretor de empresas Sul do banco público, Alexandre Santos tinha dito na comissão de inquérito à CGD, em abril, que os dossiers para essa operação lhe tinham chegado "já preparados" por Armando Vara. Salientou, na altura, que foi a única vez em que um projeto de financiamento lhe tinha chegado diretamente de um administrador. Detalhou que a proposta chegou por email e contrariou o depoimento que Vara fez há dois anos no Parlamento.

Mas esta sexta-feira, o antigo administrador da CGD afirmou aos deputados que tinha "a convicção de que a proposta deu entrada em Faro". Argumentou que "uma coisa é o documento, o que quer que seja. Mas a empresa tem de ter apresentado a proposta formal ou em Lisboa ou Faro". Vara disse que a empresa responsável por Vale do Lobo "não apresentou propostas de financiamento ao administrador". Mas admitiu que lhe "apresentou um projeto", o qual, disse, "encaminhei para a área competente".

Na intervenção inicial, Vara, que está preso em Évora, disse aos deputados que não teve condições para se preparar para a audição desta sexta-feira na II Comissão Parlamentar de Inquérito. O antigo administrador da CGD, que é também arguido na Operação Marquês, disse que não falaria do empreendimento de Vale do Lobo, apesar de ter realçado que essa operação foi aprovada "sem objeções". Mas acabaria por responder a algumas questões da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, e do CDS, Cecília Meireles. Vara está indiciado por corrupção passiva por suspeita de ter recebido um milhão de euros para favorecer o empreendimento de Vale do Lobo.

Armando Vara garante que a operação de Vale do Lobo "só recebeu elogios" na CGD. "Era um projeto que poderia ter ido para outros e eu fui um dos entusiastas. E é difícil pensar que nas mesmas condições não teria feito o mesmo", disse. Desabafou que era com "dor" que via "o que aconteceu àquele projeto".

O antigo administrador da Caixa pediu que se fizesse um "apanhado rigoroso" do resultado da operação de Vale do Lobo. Diz que se está sempre a falar de buracos, mas defende que a CGD recuperou o dinheiro dessa operação. O banco público vendeu os créditos sobre Vale do Lobo no início de 2018 por 221 milhões de euros. Vara diz que a CGD fez bem em vender mas que ele conseguiria ter "feito melhor".

Infoexcluído na cadeia

O antigo ministro, que cumpre cinco anos de prisão devido ao processo Face Oculta, disse aos deputados que não "tem ligação com o exterior" e que se encontra numa situação de infoexclusão. Armando Vara voltou a responder que quem o escolheu para a administração do banco público foi Teixeira dos Santos, ministro das Finanças do governo de José Sócrates.

Armando Vara disse ainda que "os anos comprovaram que tinham competências para exercer esses cargos". E disse que nos dois anos e meio em que esteve na CGD com Carlos Santos Ferreira o banco teve lucros avultados, argumento que já tinha sido utilizado pelo antigo presidente do banco público.

Em relação às acusações de participou num "assalto ao BCP", Vara garantiu que nunca houve interferência da administração do banco público no BCP. Armando Vara foi com Carlos Santos Ferreira diretamente da Caixa Geral de Depósitos para a liderança do maior banco privado português no início de 2008. O antigo governante garante que foi convidado por Santos Ferreira para ir para o BCP apenas no final de 2007.

O antigo responsável da CGD explicou que uma das primeiras decisões tomadas pela administração de que fez parte foi reduzir a exposição do banco público ao BCP. "Mas não se sai de uma carteira de 8% a 9% de um dia para o outro. Disse a Paulo Teixeira Pinto [antigo presidente do BCP] que não havia nenhuma vantagem para a CGD". Mas, realça, o BCP queria que o banco público mantivesse alguma interpretação para proteger o BCP de ofertas públicas de aquisição.

Vara afirmou que se soubesse que os créditos para compra de ações do BCP não seriam honrados, não teriam sido concedidos. E explica os prejuízos que a CGD sofreu com a crise financeira. "Como é que poderia ter existido uma crise no mundo inteiro e não em Portugal? E se chegou a Portugal como é que afetou só a CGD?", questionou.

"Sistema prisional não é digno"

Vara aproveitou a presença no Parlamento para deixar críticas ao sistema prisional: "O sistema é de tal forma absurdo que merece um olhar atento dos órgãos de discussão, debate e decisão política, porque na verdade enche-se a boca de 'reinserção, reinserção, reinserção' e o que nós vemos é reinserção nenhuma", disse Armando Vara, que está atualmente preso em Évora.

Armando Vara - que se encontra a cumprir uma pena de cinco anos de prisão desde janeiro deste ano após condenação no processo Face Oculta pelo crime de tráfico de influência - foi nomeado administrador da CGD em 2006, para a equipa presidida por Carlos Santos Ferreira, tendo ambos depois transitado para o BCP em 2008.

No final da sua audição de cinco horas e meia na comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da CGD, em Lisboa, Armando Vara relevou "as enormes dificuldades que vai sentir toda a gente" que partilha consigo a vida na prisão, pessoas que "merecem em muitos casos uma nova oportunidade na sua vida".

"Eu, hoje, não por boas razões, mas por más razões, tenho uma coisa que considero muito importante. É que conheço o sistema do ponto de vista do utilizador. E isso é dramático", partilhou Armando Vara.

Como conclusão, o ex-administrador considerou que o sistema prisional nacional "não é digno de um país como" Portugal, mas que com as suas críticas não estava a fazer nenhuma "acusação a nenhum tipo de responsável dos estabelecimentos prisionais".

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Rui Barroso é jornalista do Dinheiro Vivo.

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