Um brasileiro à frente do novo gigante automóvel

Com a entrada da Nissan na Mitsubishi, Carlos Ghosn fica como CEO do quarto maior grupo automóvel do mundo

Hiperativo, foi apelidado pela Forbes de impaciente, descrito como o trabalhador mais assíduo na altamente competitiva indústria automobilística. No Japão é conhecido como Sete Vinte e Três, devido ao acumular de horas de trabalho consecutivas. Ou o Quebra Gelo, pela forma como revolucionou as práticas empresariais da Nissan. Em França, chamam-lhe Mata Custos, depois da radical transformação que trouxe à Renault, tornando a marca novamente lucrativa. Ou o Sr. Resolve, pela agressiva campanha que fez na empresa.

Por trás de tantas alcunhas existe apenas um nome: Carlos Ghosn, o CEO da poderosa Renault-Nissan, que agora vai acumular a terceira presidência executiva com o anúncio da compra de 34% do capital da japonesa Mitsubishi. É brasileiro de nascença, com ascendência libanesa e nacionalizado francês. Fala fluentemente quatro idiomas: português, inglês, francês e árabe. Não se ajeita no japonês, apesar de ter tido aulas com um professor particular. Por isso, tem consigo há 15 anos Yuki Morimoto. A intérprete de voz suave tem a difícil missão de passar com exatidão todas as mensagens do patrão. A forma entusiasmada e quase teatral como trabalha já foi tema de várias reportagens no Japão.

Licenciado em Engenharia, Ghosn chegou à Renault em 1996, vindo da Michelin. Mostrou desde logo um desempenho impressionante nos resultados da empresa. Em 1999, a marca comprou a Nissan e o brasileiro foi colocado em Tóquio. A companhia japonesa tinha perdido 10,5 mil milhões de dólares desde 1992. No ano seguinte, em 2000, os lucros da Nissan já tinham sido restabelecidos e, no espaço de dois anos, a dívida foi cortada em metade. Com isso, adquiriu o estatuto de herói no Japão. Teve direito à sua própria banda desenhada (manga) e a uma refeição tradicional japonesa, uma bentô, com o seu nome.

No seu percurso contam-se gestos ousados, distinções e reviravoltas arrojadas: colocou o inglês como língua de trabalho oficial da marca japonesa; esteve perto de fundir a Renault-Nissan quer com a General Motors (GM) quer com a Ford; disponibilizou quatro mil milhões de euros para avançar com uma frota automóvel totalmente elétrica; recebeu vários reconhecimentos pela notável reconstrução da fábrica da Nissan após o tsunami de 2011 no Japão e, pelo meio, conseguiu ser também diretor executivo da marca de carros russa AvtoVAZ até abril deste ano.

No verão de 2013, Carlos Ghosn protagonizou nos meios de comunicação franceses uma desavença pública com um outro Carlos: o português Carlos Tavares, na época o número dois da Renault-Nissan. Nessa altura, o Carlos de Portugal deu uma entrevista que enfureceu o Carlos do Brasil. À Bloomberg, considerou-se pronto para assumir a liderança de uma grande empresa automóvel, "quem sabe a General Motors". Acabou no olho da rua. Não foi a GM que o veio depois buscar, mas sim a PSA Peugeut-Citroën.

A história dos dois Carlos foi uma situação inédita no ramo automóvel, em que dois gestores de topo passam de colegas a concorrentes. Mas o percalço com o português foi apenas um breve episódio na longa carreira do brasileiro, que vai agora acumular a Mitsubishi ao comando da Renault-Nissan. A confirmação oficial chegou ontem, pela Bloomerg, que afirmou que a Nissan concluiu a compra de 34% da Mistubishi, adquirindo o controlo da empresa, que estava em maus lençóis depois de ter admitido a manipulação em testes de emissões poluentes. A operação, avaliada em 2,3 mil milhões de dólares, colocou Carlos Goshn num pódio ainda mais alto, tornando-o líder de três marcas de carros que, juntas, formam o quarto maior grupo automóvel do mundo.

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