Stress da dívida triplica com "incerteza bancária" nacional

Instituição mostra-se incomodada com "incerteza na implementação do programa e a crise dos refugiados na Grécia, bem como com a incerteza no setor bancário em Portugal"

Grécia e Portugal são os dois países do euro que destoam do grupo da moeda única, estando atualmente a agravar o nível de "stress sistémico" dos mercados de obrigações soberanas (dívida pública), refere o Banco Central Europeu (BCE), no estudo "Financial Stability Review", ontem divulgado. Outros países compensam o distúrbio, faz notar a instituição de Frankfurt.

De acordo com um indicador produzido pelo BCE, a volatilidade (nível de stress financeiro) da dívida soberana portuguesa quase triplicou (subida superior a 175% no indicador) face ao final do ano passado, para 0,28. Na Grécia, embora o grau de volatilidade seja o dobro da portuguesa (0,62), a subida foi bem mais lenta (7%).

Na Grécia, a situação está instável por causa da indefinição na aplicação do programa de austeridade da troika e da crise dos refugiados; em Portugal, são os bancos que estão a contaminar o ambiente financeiro geral, diz o BCE.

O documento que faz o balanço de uma área que no BCE é diretamente tutelada por Vítor Constâncio, o vice-presidente da instituição, faz um diagnóstico algo duro do que está a acontecer nos dois mercados nacionais.

Primeiro, conclui-se que, apesar da crise dos emergentes e do crash recente nos mercados das matérias-primas (com destaque para o petróleo, claro), a situação interna do euro até resistiu a esses impactos, notando que os níveis de stress financeiro gerais estão controlados. Até porque, diga-se, Grécia e Portugal são mercados bastante pequenos à escala europeia do BCE.

"As condições de stress soberano da zona euro continuam a ser relativamente benignas, embora haja diferenças entre países", refere o banco central. "O indicador compósito de stress sistémico nos mercados das obrigações soberanas da zona euro manteve-se perto dos níveis observados antes do início da crise financeira global em 2008, sobretudo devido ao programa de compra de ativos no setor público do Eurosistema" (quantitative easing).

O indicador mede o grau de volatilidade da dívida pública, comparando segmentos de diferentes maturidades (a dois anos e a dez anos) e de diferentes emitentes (11 nações do euro), usando preços e comparando-os das mais diversas formas de modo a captar a natureza mais imprevisível dos mercados.

Foi utilizada informação de mercado recolhida até ao final do mês de abril.

E parece que neste campeonato, Grécia e Portugal destacam-se por serem os países (as suas OT, a bem dizer) que mais estão a contribuir para o ruído nos mercados financeiros europeus e para a instabilidade dos títulos soberanos. Concretizando o diagnóstico, "o BCE nota que o stress soberano parece ter aumentado na Grécia e em Portugal, onde as questões específicas de cada país foram, até certo ponto, agravadas pelas ramificações adversas do ajustamento dos preços das ações dos bancos europeus no início do ano aos respetivos soberanos".

Isto significa o quê, concretamente? O BCE dá dois exemplos de problemas que estão a acontecer. "Por exemplo, a incerteza sobre a implementação do programa e a crise dos refugiados na Grécia"; e "a incerteza do setor bancário em Portugal".

"Subjacente a este indicador agregado, persistem tendências divergentes de stress soberano entre grupos de países." "Em particular, o recente e ligeiro aumento no nível de stress soberano nos países da área do euro que foram mais afetados pela crise financeira contrasta com as condições favoráveis que continuam a verificar-se nos outros países do euro", diz o banco.

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