Salários perdem poder de compra e criação de emprego cai para metade

Comissão Europeia diz que turismo é o maná da economia. Meta do défice para 2016 combinada com a Europa foi cumprida com receita extraordinária do perdão fiscal. E faltam medidas de efeito permanente em 2017.

Os salários dos trabalhadores portugueses devem voltar a perder poder de compra nos próximos dois anos, sendo dos mais penalizados da Europa na evolução da remuneração real por trabalhador.

Nos ordenados nominais per capita acontece algo parecido, mas mesmo assim a Comissão Europeia considera que, entre 2016 e 2018, a economia só é capaz de criar 64 mil empregos, perto de metade dos 112 mil postos de trabalho obtidos entre 2014 - o ano em que o país saiu do programa de resgate - e 2016.

A compensação real por trabalhador em Portugal (um indicador próximo da evolução do poder de compra, pois desconta a inflação) deve cair 0,6% em média até 2018, sendo Portugal o terceiro pior caso da Europa, a seguir à Finlândia e ao Reino Unido. No salário nominal per capita, a desvalorização média anual deve rondar os 1,2%. Pior só em Chipre, Itália e Finlândia.

Mesmo com estes indícios de anemia nos salários (os anos da troika foram muito marcados por esse tipo de desvalorização), Bruxelas avisou ontem, nas novas previsões de inverno, que os ordenados podem estar a subir demasiado, tendo em conta a baixa produtividade da economia e a capacidade das empresas.

Para Bruxelas, isso ajuda a explicar o facto de o emprego estar de novo a perder gás, mesmo com a recuperação mais forte projetada para o investimento e num cenário em que a economia está mais nutrida devido aos fundos europeus.

"A forte época turística suportou a criação de emprego e a melhoria de salários", mas "o crescimento do emprego deve abrandar gradualmente de 1,3% para 0,6% em 2018". Neste ano, a criação de postos de trabalho ficará nuns modestos 0,8%, a mais baixa desde 2013. "A criação de emprego vai abrandar", lamenta a Comissão.

Bruxelas argumenta, por exemplo, que "a recuperação recente dos salários pode prejudicar a procura de trabalho [por parte das empresas] e começa a sentir-se o efeito restritivo ligado à redução da população em idade ativa sobre a oferta de trabalho [lado dos trabalhadores]". Do mesmo modo, o desemprego desce, mas fica acima do limiar dos dois dígitos. O nível de desemprego alivia de 11,2% em 2016 para 10,1% neste ano. Só em 2018 é que cai para 9,4%. Para o executivo europeu, o desemprego português "continua num nível particularmente elevado".

Avisa também que os riscos deste exercício de projeção são maioritariamente negativos por causa dos "problemas não resolvidos no setor bancário, que podem prejudicar a retoma esperada no investimento".

Há, claro, aspetos positivos para o país, a atividade interna e as contas externas. O ambiente de taxas de juro baixas e "o ciclo de fundos europeus" são dois deles.

Na conferência de imprensa que deu ontem em Bruxelas, Pierre Moscovici, comissário europeu da Economia, falou em "melhorias fortes" na situação do país, apesar da anemia no emprego. A economia como um todo (PIB) ganha alguma força, passando de um crescimento de 1,3% em 2016 para 1,6% neste ano, apoiada pelas exportações, que devem crescer 4,1% em 2017 (3,9% no ano passado), e por uma subida bem visível no investimento, que registará uma expansão de 3,8% puxada pelos bens de equipamento (+7,9%).

Como é habitual, a equipa de Moscovici também dedica muita atenção às contas do défice. Aqui, o tom da avaliação é mais crítico. A Comissão toma nota que o país já está a abaixo do limiar dos 3% do PIB exigidos pelos tratados, mas vê fragilidades na consolidação orçamental. "O défice público terá alcançado os 2,3% do PIB em 2016. A coleta de receita mais baixa do que o orçamentado foi em parte compensada por receitas adicionais (0,25% do PIB) do esquema extraordinário de regularização de dívidas fiscais PERES e pela contenção da despesa, em particular devido ao baixo investimento público."

Para Bruxelas, sem o encaixe do perdão fiscal (PERES), o défice poderia ter ficado em 2,5% ou mesmo 2,6%. O mesmo que, dizer que sem este expediente, a meta combinada com os países do Conselho Europeu estaria em risco sério.

E, em 2017, mais uma medida extra que faz a diferença. O défice desce três décimas, para 2%, à boleia da devolução do dinheiro da garantida estatal concedida ao BPP.

Quanto à qualidade do ajustamento orçamental, o governo terá de provar ou mostrar mais medidas de efeito permanente (corte de despesa e/ou aumento de receita). Bruxelas prevê que o défice estrutural praticamente não mexe e isso é negativo para o país. As regras europeias (Pacto de Estabilidade) exigem uma redução de, pelo menos, 0,6% do PIB ao ano. No Orçamento deste ano, o governo compromete-se com este valor.

Numa primeira reação às previsões anunciadas pela Comissão Europeia, o gabinete do ministro Mário Centeno considerou que, com este relatório, Bruxelas "reconhece o sucesso da estratégia económica do governo".

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