Robôs fizeram desaparecer 310 mil empregos de qualificações médias

Tecnologia cria postos de trabalho, mas não ao mesmo ritmo que destrói, diz o pai do primeiro
computador português. Peso dos administrativos e trabalhadores da indústria caiu a pique desde 1997

Portugal perdeu 310 mil empregos de médias qualificações entre 1997 e 2017. Eram administrativos, trabalhadores qualificados da indústria e construção e operadores de máquinas. Há 20 anos, este tipo de profissão representava 38,2% do emprego total, pesando agora 28,8%. O trabalho das altas e baixas qualificações, pelo contrário, tem crescido. A culpa é, segundo alguns especialistas, atribuível principalmente aos robôs e a toda a tecnologia capaz de substituir o homem.

"A tecnologia cria empregos, mas não o faz ao mesmo ritmo que destrói e não o faz para as nossas competências atuais. As pessoas de qualificações médias estão a ser substituídas pela automatização tecnológica, que pode ser menos ou mais humanoide, como é o caso dos robôs. A verdade é que Portugal tem muitos trabalhadores de qualificações médias que teriam emprego e deixaram de o ter", refere João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra, conhecido também por ter sido o pai do primeiro microcomputador português (o ENER 1000).

Fenómeno alargado

O fenómeno não é exclusivamente europeu. A proporção de empregados de qualificações médias caiu 11,5 pontos percentuais entre 1995 e 2015 no conjunto da zona euro, de acordo com um estudo recente do CaixaBank Research. Segundo alguns especialistas, as tarefas rotineiras e deslocalizáveis estão muito presentes nos trabalhadores de qualificações médias.

"Há tarefas com vantagens para as máquinas e isso cria desajustamentos no mercado de trabalho. No entanto, o processo tecnológico tem criado mais emprego do que destruído. Estou otimista quanto ao papel da tecnologia no emprego", contrapõe Pedro Portugal, especialista em Economia do Trabalho e professor da Universidade Nova de Lisboa.

E como se pode travar os efeitos colaterais da tecnologia na criação de emprego? "A grande ferramenta dos Estados é a fiscal. Defendo que o IRS deve desaparecer. Quando as empresas têm de escolher entre pessoas e máquinas, é óbvio que o homem fica em clara desvantagem, tendo em conta o seu custo para o empregador ao nível da Segurança Social e dos impostos. Para um trabalhador receber mil euros líquidos, a empresa tem de gastar quase o dobro, algo que não acontece com o robô", sublinha João Gabriel Silva.

Em vez do fim do IRS, o fundador da Microsoft, Bill Gates, defendeu este ano que os robôs deveriam compensar fiscalmente os trabalhadores que substituíram para garantir um abrandamento, ainda que temporário, da automação de postos de trabalho. "O capital não deve ser mais taxado", considera Pedro Portugal, mostrando-se contrário à ideia de as máquinas virem a ter de pagar impostos.

"A Europa é a região do mundo que mais tributa o trabalho para sustentar o modelo social europeu. Não é o local ideal para criar emprego. O emprego de altas qualificações tem crescido em Portugal e isso é positivo. Mas um jovem com altas qualificações é muito mais castigado fiscalmente em Portugal", destaca Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Completividade.

Por outro lado, "a diminuição do emprego nas profissões de baixas e médias qualificações pode relacionar-se, em parte, com a quebra do setor da construção civil", admite Ferraz da Costa.

Donald Trump, atual presidente dos EUA, foi eleito em parte graças ao discurso, durante a campanha, em que prometia a criação de milhares de empregos, explorando em parte os receios em torno dos malefícios da tecnologia e, sobretudo, da deslocalização da produção para outros países, que é tido como um outro motivo para a queda do emprego de médias qualificações no mundo ocidental.

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