Produção de azeite caiu 36% por causa da seca. Preço já está a subir

Na produção os preços subiram entre 15% e 18%, mas no supermercado as promoções estão a suavizar os aumentos

A seca provocou, na última campanha, uma quebra de 36,4% na produção de azeite em Portugal. Os preços já estão a subir: entre 15% e 18% junto dos produtores. E só as promoções e a opção de algumas cadeias de distribuição de absorver parte desse agravamento de custos deverá minimizar o impacto no bolso dos consumidores.

"Os preços começaram a subir antes do verão para valores de produção a rondar 4 euros por quilograma", garante Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, que representa 90% do volume de azeite embalado. Os últimos dados, referentes a abril, apontam para uma subida do azeite virgem para 3,60 euros/kg (+18,8% ) e de 3,84 euros/kg (+15,6%) para o virgem extra.

"O consumo do azeite tem-se mantido constante, mas houve uma forte quebra na produção. Um fenómeno a nível mundial", diz a secretária-geral da Casa do Azeite. Portugal produziu 69,3 mil toneladas de azeite em 2016/17, menos 39,7 mil toneladas do que na campanha anterior. O Alentejo foi o principal responsável pela quebra na produção: só nesta região desapareceram mais de 30 mil toneladas. Em Trás-os-Montes, a segunda maior região produtora de azeite nacional, a produção recuou para 11,4 mil toneladas, uma descida de mais de 1,7 mil toneladas.

E não foi só Portugal a sentir os efeitos da seca extrema. Todos os grandes países produtores - Espanha, Grécia, Itália e Tunísia - sentiram no terreno o impacto das condições climáticas adversas. Em Espanha, o maior produtor mundial, a quebra foi de 8,7%, para um total de 1,279 milhões de toneladas; em Itália a quebra foi de 61%, para apenas 185 mil toneladas, segundo dados do Conselho Oleícola Internacional (COI). Este organismo prevê uma quebra de 20,2% na produção mundial de azeite, que não deverá ultrapassar 2,514 mil milhões de toneladas. Ou seja, o mercado viu evaporar-se 638 mil toneladas de azeite.

Com a procura a manter-se constante, "a disponibilidade dos stocks baixa, aumentando a pressão sobre o preço numa altura em que ainda não se sabe como vai ser a próxima campanha", que só arranca em outubro, diz Mariana Matos. Há um "fator psicológico" um "jogo de expectativas que impacta o preço", reforça a secretária-geral a Casa do Azeite.

"Não fazemos comentários sobre preços de mercado", explica Pedro Monteiro, diretor-geral de compras do Lidl Portugal, quando questionado sobre se os preços do azeite de marca de distribuição tinha sofrido o impacto da subida dos preços de produção. "Os stocks existentes no final do ano passado e a produção da última campanha não tiveram, nem irão ter qualquer impacto na nossa marca própria de azeite", garante o responsável da cadeia alemã.

Nem "nos contratos já firmados a nível nacional e internacional para o corrente ano", assegura Pedro Monteiro. O Lidl fechou um acordo com a Sovena para exportar azeite desta empresa, a proprietária do maior olival da Europa, para 22 mercados, estando previsto um volume de 22 milhões de litros de azeite.

No Pingo Doce as marcas próprias As Nossas Planícies (Alentejo) e Os Nossos Planaltos (Trás-os-Montes) são feitas com azeitonas nacionais, precisamente das regiões onde a quebra de produção foi mais acentuada. "Trabalhamos com as Cooperativas Agrícolas de Moura, Valpaços, Beja e Brinches, com quem temos uma parceria já de longo prazo, garantindo-lhes a compra das suas campanhas anuais", começa por referir fonte oficial do Pingo Doce.

O resultado foi o esperado neste cenário de quebra acentuada de produção. "Efetivamente, da campanha de 2015 para a de 2016, registámos um aumento do preço de custo na ordem dos 10%", diz. Para garantir preços baixos (e concorrenciais) junto do consumidor a cadeia optou por absorver "parcialmente este aumento do preço de custo e refletíssemos nos preços médios de venda ao consumidor (incluindo as muitas promoções que fazemos aos nossos azeites) um aumento inferior a 2%".

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