Portugueses gastaram mais 2000 milhões em compras

Pagamentos por multibanco totalizaram 24,325 mil milhões, mais 8,7%, nos primeiros nove meses. As famílias estão a consumir mais, mas parte é endividamento, avisa a CCP

Os portugueses estão a gastar mais. Só nos primeiros nove meses do ano, os consumidores fizeram compras no valor de 24,325 mil milhões de euros através da rede multibanco. São quase mais dois mil milhões (+8,7%) do que no ano passado. Ou, por outras palavras, mais 7,2 milhões por dia.

"O consumo está a aumentar, é verdade, mas não nesta proporção", diz João Vieira Lopes. Os números estão a ser inflacionados "também por alguma transferência de meios de pagamento, as pessoas estão a preferir pagar com plástico em vez de dinheiro. E ainda por um aumento do recurso ao crédito", considera o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP).

Carlos Martins, professor na Universidade Lusíada e especialista em consumo, acredita que a tendência consumista poderá prolongar-se, mas apenas se o cenário político em Portugal se mantiver estável. "Os dados mostram que os níveis de poupança das famílias crescem quando antecipam complicações."

Para já, nada indica uma retração nos gastos das famílias. A poupança em Portugal recuou e está nos valores mais baixos desde 1995, de acordo com os dados do INE. Por cada cem euros ganhos, os portugueses colocam apenas cinco de parte.

João Vieira Lopes reconhece que a febre consumista no próximo Natal vai depender da confiança nos consumidores. "Este é um negócio que tem muito que ver com expectativas. Temos receio de que a falta de clarificação da situação política possa levar a alguma retração. A incerteza terá sempre um efeito negativo, ninguém consegue é quantificá-lo antecipadamente".

Por enquanto, tudo corre bem. Muito por efeito também do verão e do boom do turismo. Basta ter em conta que só no terceiro trimestre do ano as compras pagas em terminais multibanco ascenderam a 9,3 mil milhões de euros, diz a SIBS, um crescimento de mais de 30%. Grande parte deste aumento verificou-se em Faro (+10,7%), Porto (+9%) e Lisboa (+8,3%).

A alteração dos hábitos de consumo, com o intensificar dos pagamentos eletrónicos, com recurso a cartão, é outra das explicações. O presidente da CCP lembra que grande parte das cadeias de retalho alimentar, e não só, "têm promovido o uso de cartões". E, por isso, acredita que parte destes dois mil milhões gastos a mais se devem a um maior endividamento.

"O rendimento médio das famílias não aumentou, pelo contrário, até caiu", diz João Vieira Lopes, invocando os números recentes do BCE que revelam uma quebra de 8,9% no rendimento entre 2009 e 2014. Ao mesmo tempo, o crédito ao consumo aumentou 22,5% entre janeiro e agosto, atingindo um valor global de 3,17 mil milhões de euros.

Carlos Martins admite que o nível historicamente baixo das taxas de juro pode estar a levar as famílias a aumentar o recurso ao endividamento e refere que, para esses, "a situação se pode complicar" quando se inverter a tendência dos juros. O professor universitário recorre aos números da SIBS referentes aos levantamentos na rede multibanco - 20,733 mil milhões de euros, uma subida de 1,2% - para defender que tudo indica que os portugueses "estão a movimentar depósitos que têm disponíveis, direcionando-os para o consumo em detrimento da poupança".

Mais compras significam melhores taxas de rentabilidade no comércio? João Vieira Lopes garante que não. "Há uma enorme dinâmica promocional que obriga ao esmagamento de margens, quer no comércio quer na indústria. Hoje é quase impossível entrar numa loja e não encontrar qualquer coisa em promoção ou com desconto."

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