População inativa tem maior aumento trimestral desde 2011

Taxa de desemprego em sentido mais lato é o dobro do valor oficial. Taxa de subutilização do trabalho está nos 12,9%.

Os efeitos da pandemia no mercado de trabalho já parecem estar a fazer-se sentir, apesar de as medidas de confinamento terem arrancado apenas em meados de março. As consequências começam a ser visíveis através de dois indicadores: a população empregada (que diminuiu 0,9%, sendo a primeira variação negativa desde 2013) e o aumento da população inativa que subiu 1,9% face ao final do ano passado (a maior desde 2011).

"A população inativa com 15 e mais anos aumentou 1,9% (67,8 mil) relativamente ao trimestre anterior e 1,4% (49,7 mil) em relação ao trimestre homólogo", refere o Instituto Nacional de Estatística no destaque publicado ontem sobre o mercado de trabalho referente aos primeiros três meses do ano.

"Sendo usual a observação de um aumento trimestral da população inativa com 15 e mais anos no 1º trimestre de cada ano, o ocorrido em 2020 foi o mais elevado da série iniciada em 2011", acrescenta o gabinete de estatística.

O INE faz a ressalva, indicando que os dados recolhidos para este inquérito ao emprego podem estar afetados pelas medidas de confinamento dos portugueses impostas a partir do dia 16 de março. Em todo o caso, o efeito estatístico, mesmo que diluído e sendo uma questão técnica, pode estar a baralhar os dados.

"Pessoas anteriormente classificadas como desempregadas e pessoas que efetivamente perderam o seu emprego devido à pandemia covid-19, e que em circunstâncias normais seriam classificadas como desempregadas, podem agora ser classificadas como inativas", sublinha o INE.

Tal efeito estará relacionado com as "restrições à mobilidade, à redução ou mesmo à interrupção dos canais normais de informação sobre ofertas de trabalho em consequência do encerramento parcial ou mesmo total de uma proporção muito significativa de empresas, razões pelas quais não fizeram uma procura ativa de emprego (condição essencial para a sua classificação enquanto desempregados)", frisa o gabinete de estatística.

"Também a não disponibilidade para começar a trabalhar na semana de referência ou nos 15 dias seguintes, caso tivessem encontrado um emprego, por terem de cuidar de filhos ou dependentes ou por terem adoecido em consequência da pandemia, leva à inclusão na população inativa", explica o INE.

"Estas pessoas não empregadas ficam assim na fronteira entre a inatividade e o desemprego", indica o instituto de estatística, adiantando que "a diminuição da população empregada e da população desempregada observada no 1º trimestre de 2020 pode ser parcialmente explicada pelo atual enquadramento social e económico associado à covid-19 e refletiu-se na diminuição da população ativa e no aumento (quase) equivalente da população inativa", aponta.

Mas há outros critérios que também excluem pessoas de estarem empregadas como "o caso das pessoas ausentes do trabalho por uma duração prevista superior a três meses e que, simultaneamente, aufiram um salário inferior a 50% do habitual". Já os trabalhadores que estão em lay-off continuam a ser considerados empregados.

Ausências do trabalho disparam

Outro dado que ressalta do inquérito ao emprego é o facto de terem disparado as ausências ao trabalho.

"No primeiro trimestre de 2020, a população com 15 ou mais anos ausente do trabalho na semana de referência, estimada em 471,9 mil pessoas, verificou um aumento trimestral de 37,5% (128,6 mil) e um aumento homólogo de 56,1% (169,5 mil)", indica o INE.

Trata-se do valor mais elevado da atual série iniciada em 2011 "com exceção dos observados nos terceiros trimestres de cada ano (que, por norma, correspondem ao período mais alargado de férias de grande parte da população)", adianta.

"Concentrando a análise na população empregada ausente do trabalho na semana de referência, esta foi estimada em 452,1 mil pessoas e aumentou 33% (112,2 mil) em relação ao trimestre anterior e 52,6% (155,9 mil) relativamente ao trimestre homólogo. Estes aumentos corresponderam às maiores variações absolutas deste indicador num dos primeiros trimestres da série iniciada em 2011", sublinha o INE.

Entre as razões apontadas para as ausências, estão a suspensão temporária do contrato ou o lay-off. "Verificou-se que a "redução ou falta de trabalho por motivos técnicos ou económicos da empresa (inclui suspensão temporária do contrato ou lay-off)", adianta o INE, lembrando que esta justificação "raramente era apontada como razão da ausência, foi agora a terceira razão mais indicada (15,1%; 68,3 mil).

"De modo semelhante, a opção "outra razão" foi a quarta razão mais assinalada (10,8%; 48,7 mil). Nesta modalidade de resposta incluem-se aqueles que não trabalharam na semana de referência por precisarem de tomar conta dos filhos em virtude das escolas terem fechado ou por precisarem de tomar conta de pessoas dependentes", aponta o destaque divulgado ontem.

Desemprego não oficial é de 12,9%

Depois de ter atingido o valor mais baixo desde 2011 (início da atual série estatística), a taxa de subutilização do trabalho voltou a subir nos primeiros três meses do ano. Trata-se de um indicador do nível de desemprego em sentido lato da economia, somando aos desempregados outras formas de "subutilização do trabalho".

Neste contingente, inclui-se a "população desempregada, o subemprego de trabalhadores a tempo parcial, os inativos à procura de emprego, mas não disponíveis e os inativos disponíveis", explica o INE.

Esta taxa tem vindo a descer, mas nestes primeiros meses do ano voltou às subidas.

"No 1º trimestre de 2020, a subutilização do trabalho abrangeu 694,7 mil pessoas e a taxa correspondente foi 12,9%", indica o INE.

Neste lote estão as pessoas que trabalham a tempo parcial, mas estavam disponíveis para trabalharem mais horas (159 mil pessoas, mais 2,1% do que no final de 2019); o número de inativos à procura de emprego, mas não disponíveis para trabalhar (21,2 mil pessoas) e o número de inativos disponíveis, mas que não procuram emprego (166,4 mil, mais 14,6% do que no trimestre anterior).

A taxa de desemprego calculada pelo INE para o primeiro trimestre do ano fixou-se nos 6,7%, valor igual aos últimos três meses de 2019 e 0,1 pontos percentuais abaixo do mesmo período do ano passado.

Jovens "nem nem" voltam a ser mais

Os jovens portugueses que não estão a estudar nem a trabalhar também voltaram a ser mais nestes primeiros três meses do ano.

"No 1º trimestre de 2020, do total de 2206,5 mil jovens dos 15 aos 34 anos, 10,4% (230,3 mil) não estavam empregados, nem a estudar ou em formação", indica o INE, representando um aumento de 0,9 pontos percentuais (21,4 mil) face ao último trimestre de 2019.

Mais uma vez, os inativos têm um peso considerável. "De referir ainda que 86,4% do referido aumento trimestral da população dos 15 aos 34 anos que não estava empregada, nem a estudar ou em formação ocorreu nos inativos (18,5 mil)", aponta o gabinete de estatística.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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