Pokémon Go: a poção para recuperar a Nintendo? 

O jogo fez disparar as ações da marca nipónica para níveis que não se viam desde a loucura com a Wii. Depois veio a correção. O que significa isto para a empresa centenária?

Depois de uma batalha de treino num ginásio amigável, um Pokémon sem forças pode ser recuperado com uma poção. Basta usá-la duas ou três vezes para a criatura ficar em forma outra vez. Mas é preciso comprar ou ganhar poções numa PokéStop. E aprender a treinar melhor, para vencer umas batalhas aqui ou ali no Pokémon Go.

Desde que este jogo para smartphones apareceu, há pouco mais de duas semanas, a Nintendo parece ter bebido uns goles dessa poção cor-de-rosa com propriedades mágicas. As ações da fabricante japonesa dispararam para máximos de seis anos e a capitalização bolsista duplicou, para perto de 40 mil milhões de euros. Chegou a ultrapassar a editora de jogos Activision Blizzard. Será este o remédio para a febre da Nintendo?

Nem por isso. Tal como o mercado acabou por descobrir, corrigindo a valorização em conformidade, não é líquido que o sucesso do Pokémon Go se traduza numa recuperação das receitas da Nintendo. É que existe alguma confusão em relação a este franchise, lançado em 1996 para a consola portátil Game Boy, da Nintendo. Pikachu e companhia são detidos pela The Pokémon Company, formada pela Nintendo, Game Freak e Creatures. Por sua vez, foi através de uma parceria com a Niantic Labs, um spin-off da Google, que surgiu o jogo Pokémon Go. Qual é a fatia dos lucros que vai parar à Nintendo? Boa pergunta. Ninguém no mercado sabe responder.

Certo é que a Nintendo, liderada por Tatsumi Kimishima, emitiu na sexta-feira um comunicado revelando que não vai mexer nas suas previsões de vendas e lucros para este ano por causa da febre com o Pokémon Go. A Nintendo tem 32% da The Pokémon Company, que recebe licenças da Niantic. "Por causa deste esquema de contabilidade, o montante refletido nos resultados de negócio da empresa é limitado", diz a japonesa. E é preciso subtrair a percentagem que vai para as lojas de aplicações (na App Store da Apple, pelo menos 30%).

Nem o wearable Pokémon Go Plus, lançado em breve, muda alguma coisa. "Tudo o que foi referido já está refletido na previsão financeira do ano que termina a 31 de março de 2017", lê-se no comunicado da Nintendo. "Tendo em conta a situação, a empresa não vai modificar a previsão de resultados financeiros consolidados, para já."

É claro que existe um efeito colateral de notoriedade de todo o franchise, como explica Nélson Calvinho, gestor de produto da Nintendo Portugal. "É uma boa notícia que tantas pessoas estejam a ter contacto com a marca Pokémon", diz, revelando que as vendas dos títulos Pokémon para a consola portátil 3DS duplicaram na última semana.

"Acreditamos que o Pokémon GO constitui um ótimo cartão--de-visita para as experiências mais ricas dos jogos Pokémon para a Nintendo 3DS", frisa. Esta consola, que já tem cinco anos, constitui a grande aposta da Nintendo para o mercado português em 2016, porque continua a vender bem e a líder Sony descurou a sua estratégia portátil (PlayStation Vita). Não há muito a fazer: a japonesa só lançará a próxima geração de consolas domésticas em 2017, a NX, e a versão anterior - Wii U - vendeu muito menos do que o esperado.

As áreas de negócio

Foi esta fraca performance que colocou a Nintendo sob intensa pressão. A empresa reporta quebra nas vendas há quatro anos e passou algum tempo no vermelho. No ano fiscal terminado em março, o recuo das vendas foi de 8%, para 4,7 mil milhões de euros; compare-se com o pico, em 2009: foi o ano em que encaixou 17 mil milhões.

É uma situação estranha para a empresa centenária, fundada em 1889 para produzir baralhos de cartas. Nos anos 1960 concentrou-se nos brinquedos, e na década seguinte entrou nos videojogos. Foi aqui que teve uma influência fundamental, lançando consolas lendárias como o Game Boy e a NES (Nintendo Entertainment System) e jogos megapopulares até hoje, como Super Mario Brothers e The Legend of Zelda.

Com o deslize do mercado para a arquirival Sega e a ascensão da Sony (que lançou a PlayStation em 1995), a Nintendo perdeu gás no final dos anos 1990. A recuperação aconteceu quando ninguém esperava: no final de 2006, a marca introduziu a consola Wii. O sucesso foi explosivo e catapultou a Nintendo para o topo durante anos, batendo recordes mensais de vendas e ultrapassando as rivais - a Sony tinha a PlayStation 3, a Microsoft a Xbox 360. Na mesma altura, a consola portátil DS vendia que nem pãezinhos quentes.

As coisas começaram a mudar em 2010. O CEO Satoru Iwata admitiu mais tarde que se enganou na leitura do mercado quando introduziu a consola portátil com tecnologia 3D, Nintendo 3DS, em 2011. No final do ano seguinte, a Wii U também não conseguiu captar os milhões de fãs entusiasmados da geração anterior.

Entretanto, o mercado de aplicações móveis explodira e jogos como Angry Birds estavam por todo o lado. Chegou a temer-se que as consolas estivessem condenadas. E o que fez o mítico Satoru Iwata, que acabaria por morrer em 2015? Recusou-se a licenciar os títulos para smartphones, o que gerou muitas críticas. Com o balanço no vermelho de 2012 a 2014, não quis virar-se para um mercado saturado, difícil de rentabilizar sem grandes investimentos em promoção e aquisição de jogadores (a não ser, é claro, que o jogo se chame Pokémon Go).

Mas para a Nintendo, o core continua a ser sistemas de jogos em que controla o hardware e o software (Wii, 3DS e em breve uma nova NES Classic), mais os jogos associados e as figuras amiibo, de realidade aumentada, a eShop, a Nintendo Network e merchandising. "Pretendemos continuar a comunicar Pokémon ao longo do ano, com os olhos postos no lançamento do Pokémon Sun e Moon, que vão introduzir novas funcionalidades relacionadas com competição online", revela Calvinho. Estes títulos serão lançados a 23 de novembro para a família de consolas 3DS. "São a grande aposta a par do Yo-Kai Watch", diz, referindo-se ao franchise com grande sucesso junto do público infantil.

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