Plano de reestruturação dos CTT fica aquém do esperado pelo mercado

Analistas não estão convencidos com o plano apresentado pelo operador para ajustar operação à realidade de um negócio que desde 2001 tem vindo a perder tráfego postal. Até 2020 os CTT terão menos mil trabalhadores

Reduzir em cerca de mil os trabalhadores dos CTT até 2020, otimizar a rede postal, vender ativos e reduzir as remunerações do conselho de administração são algumas das medidas do plano de reestruturação dos Correios com o qual a companhia conta ter um impacto positivo de até 45 milhões nos lucros antes de impostos (EBITDA) a partir de 2020.

O plano surge num momento em que os Correios estão sob pressão, com o governo a anunciar um grupo de trabalho para avaliar o serviço universal postal cuja concessão termina em 2020. "Os CTT são uma empresa sólida, sem endividamento, que definiram o caminho a trilhar para o futuro e estão, obviamente, dispostos a colaborar com o governo", diz o CEO Francisco Lacerda. "O regulador [Anacom] sabe que os CTT cumprem os critérios de serviço a que estão obrigados. Quando nos disponibilizámos para, com o governo, melhorar os níveis de serviço foi porque não ficámos satisfeitos com 85% da aprovação dos nossos clientes", reforça.

Para Steven Santos, do BiG, o plano ficou aquém do esperado pelo mercado, desde que foi conhecido a quebra de 35,9% do lucros até setembro, depois de uma aceleração da quebra do tráfego postal, e que levou as ações da "estrela da Bolsa" a derrapar 33%. Em pouco mais de um mês a empresa perdeu mais de 245 milhões em valor de mercado, para uma valorização bolsista de 512,1 milhões.

"Julgo que o mercado esperava um plano de transformação operacional mais abrangente, que fosse além da venda de imóveis, dos despedimentos e da redução salarial", diz o gestor do BiG. E explica porquê. "O objetivo de poupança anual não só deverá ser inferior ao que o mercado esperava como envolve um risco de execução considerável, dado que os despedimentos e a forte redução da remuneração variável em 2017 poderão deteriorar a estabilidade dentro da empresa e provocar mais greves, sobretudo numa empresa que até há pouco tempo era pública", afirma. E prevê uma tarefa dura para a companhia nos tempos que se avizinham. "Dado o declínio do correio tradicional e as necessidades de investimento do banco postal, os CTT enfrentam um importante desafio nos próximos meses."

Foi exatamente a aceleração da quebra do tráfego postal nos últimos trimestres (na ordem dos 7%) que levou os CTT a prometer até ao final do ano um plano para ajustar a operação à realidade do negócio.

Redução de salários

Logo em novembro, anunciaram o convite para rescindir com 300 trabalhadores, com o objetivo de reduzir em 200. Destes, 140 já fecharam acordo, mas o processo deverá ter ainda continuidade até ao final do ano, com um custo estimado de 14 milhões. O plano agora conhecido vai, no entanto, mais longe: até 2020 querem reduzir até 800 trabalhadores, elevando para mil o número de colaboradores que a companhia quer eliminar de 6700, num total de 12 mil afetos à área operacional. Destes, 6200 são efetivos e 500 têm contrato a termo. Esta medida terá um custo estimado de 25 milhões.

As medidas de contenção com pessoal passam ainda pelos salários. Em 2018, a administração dos CTT vai ter um corte de 25% na remuneração fixa no caso do presidente do conselho de administração e do CEO, e de 15% para os restantes membros executivos e não executivos do conselho. Em 2017--2018 a comissão executiva não vai receber a componente variável da remuneração e os salários dos trabalhadores vão sofrer neste ano uma "forte redução" na remuneração variável, dizem os CTT, sem precisar valores. Haverá ainda uma "limitação dos aumentos salariais não obrigatórios para os colaboradores em 2018".

Os acionistas também vão receber menos. Os CTT já tinham anunciado que iriam cortar de 48 para 38 cêntimos o dividendo aos acionistas, mas agora o mercado ficou a saber que entre 2018 e 2019 o conselho de administração - que tem agora o ex-PT Portugal Guy Pacheco como administrador financeiro depois da saída de André Gorjão - tenciona propor "uma política de dividendos alinhada com o seu resultado líquido".

A rede também será otimizada, com o plano a contemplar a conversão de lojas em postos de correio ou "fecho de lojas com pouca procura por parte dos clientes". Quantas, os CTT não precisa, mas frisam que o objetivo é a "manutenção do número de pontos de acesso, assegurando a proximidade com os cidadãos, qualidade de serviço e as obrigações regulatórias". Os Correios querem ainda "continuar a desenvolver o modelo de postos de correio explorados por terceiros". Com isto a empresa estima um custo de 15 milhões e uma poupança anual até 2020 de entre seis e sete milhões de impacto no EBITDA recorrente.

Depois de encaixar nas contas deste ano uma mais-valia de 16 milhões, com a venda da antiga sede em Lisboa, o CTT pretendem dar continuidade à alienação de "ativos não estratégicos" e com isso encaixar entre 12 e 13 milhões.

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