Muro de silêncio na Autoeuropa com greve de sexta-feira afastada

Nenhum dos sindicatos entregou pré-aviso no Ministério do Trabalho dentro do prazo. À saída da fábrica, no primeiro dia do novo horário, trabalhadores optaram por não falar.

Não vai haver greve na Autoeuropa nos dias 2 e 3 de fevereiro, ao contrário do que tinha sido aprovado em plenário pelos trabalhadores. Nenhum dos três sindicatos representado na fábrica de Palmela entregou o pré-aviso com antecedência mínima de cinco dias úteis junto do Ministério do Trabalho. Fica, para já, afastada a segunda greve no espaço de cinco meses na unidade portuguesa do grupo Volks-wagen. Os 5700 operários iniciaram ontem o novo horário de trabalho para responder à elevada procura pelo modelo T-Roc.

"Não recebemos qualquer pré--aviso de greve relativo à Autoeuropa", garantiu fonte oficial do Ministério do Trabalho ao DN/Dinheiro Vivo. No início deste mês, os sindicatos SITE-Sul - afeto à CGTP - e Sindel - afeto à UGT - já tinham afastado o cenário de greve na fábrica de Palmela por entenderem que são necessárias mais negociações entre a comissão de trabalhadores e a administração. O terceiro sindicato, dos metalúrgicos (SIMA), não tinha assumido a entrega do pré-aviso de greve. A greve de sexta e sábado seria a segunda na história da Autoeuropa, depois da paragem de 30 de agosto, que impediu a montagem de automóveis.

Ontem, à saída da fábrica, o ambiente era de silêncio. Nenhum operário da empresa quis falar aos jornalistas depois de terminado o turno da manhã, às 15 horas. Os mais novos alegam que estão há pouco tempo na fábrica de Palmela; os mais velhos só falam se não forem identificados e se não forem fotografados, como constatou o DN/Dinheiro Vivo.

Os operários mais experientes criticam o desempenho da comissão de trabalhadores e defendem mesmo que a fábrica deveria entrar em greve por vários dias para que o impasse seja ultrapassado. "Para resolver isto é necessária uma união muito forte", afirma um operário. Na linha de montagem, o silêncio reina entre os funcionários.

A alteração dos plenários de 26 de janeiro para 1 de fevereiro também foi contestada. Na quinta-feira, a comissão de trabalhadores vai revelar os desenvolvimentos das negociações para os aumentos salariais deste ano ou, no melhor cenário, as conclusões do diálogo iniciado há duas semanas com a administração da Autoeuropa, liderada por Miguel Sanches.

A comissão de trabalhadores propôs um aumento salarial de 6,5%, com uma subida mínima de 50 euros, e efeito retroativo a setembro de 2017. A administração propõe distribuir este aumento entre 2018 e 2019, segundo informação enviada aos operários na semana passada pela comissão de trabalhadores. As negociações do caderno reivindicativo vão continuar a decorrer nos próximos dias.

Em paralelo, seguem as conversações entre os serviços técnicos da Segurança Social e da Autoeuropa por causa do funcionamento das creches aos sábados para os filhos dos operários da fábrica de Palmela e da ativação do complemento de horário em creche.

Este mecanismo permite à Segurança Social compensar os encargos das creches (IPSS) que ficarem com os filhos dos operários ao sábado. Este apoio é concedido em IPSS que funcionam, regra geral, perto de empresas ou instituições onde existe trabalho por turnos e não é exclusivo dos trabalhadores da Autoeuropa, esclareceu o gabinete de Vieira da Silva.

Fornecedores preocupados

O funcionamento da Autoeuropa de segunda-feira a sábado também afeta as empresas do Parque Industrial de Palmela. As 18 empresas que fornecem componentes para a unidade portuguesa do grupo Volkswagen "já se adaptaram ao novo horário", garante Daniel Bernardino, representante das comissões de trabalhadores do parque industrial da fábrica.

As fornecedoras da fábrica, contudo, estão a utilizar vários modelos para se ajustarem aos novos horários na Autoeuropa: algumas negociaram horários com os trabalhadores; outras, impuseram turnos, à semelhança da Autoeuropa.

A introdução dos 17 turnos semanais a partir de ontem na fábrica da Volkswagen "não levou à contratação de muito mais pessoas", revela Daniel Bernardino ao DN/ /Dinheiro Vivo. "Estamos preocupados que existam operários a trabalhar seis dias por semana", manifesta o mesmo dirigente.

A Autoeuropa impôs um novo horário para responder à elevada procura pelo veículo T-Roc, com o qual conta produzir 240 mil unidades neste ano, o número mais alto de sempre. De segunda a sexta, serão produzidos, em média, 860 veículos por dia; ao sábado, serão montados, em média, perto de 600 automóveis. A fábrica de Palmela, para cumprir com esta meta de produção, recebeu um investimento de 677 milhões de euros nos últimos anos.

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