Mais de 7500 empresas zombies sugam competitividade à construção e serviços

Fatia de 10% das empresas destes setores não geram receitas suficientes para manter a atividade, deteriorando a competitividade. Vivem à custa do crédito. Os processos especiais de revitalização arrastam problema, acusa AECOPS

Mais de 10% das empresas portuguesas de construção e serviços são empresas zombies, ou seja, "sem viabilidade económica", "com muito baixa produtividade" e que "minam o crescimento" da economia. Os dados são do estudo "Empresas Zombies em Portugal - Os setores não Transacionáveis, da Construção e dos Serviços", da responsabilidade do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e Inovação. Em causa estão mais de 7500 empresas, a construção e imobiliário, do comércio, da reparação automóvel e de serviços de distribuição de água e gestão de resíduos. Os dados dos últimos dois anos parecem indicar que há uma "inversão de tendência", pós-crise, mas Gabriel Osório de Barros, um dos autores do trabalho, acredita que "ainda é cedo para tirar ilações".

O estudo, assinado também, por Filipe Bento Caires e Dora Xarepe Pereira, destaca que a "facilidade de obtenção de crédito, aliada a um "longo período de juros muito baixos", criou as condições propícias ao "aparecimento, fixação e permanência" de empresas no mercado, que de outra forma "não seria possível". Empresas que "sobrevivem à custa de crédito" por não conseguirem gerar "receitas suficientes" para concretizarem as suas atividades, que pagam "salários acima da produtividade" do setor e que são "pouco inovadoras". Em 2008 eram mais de 5100 (5,24% do total); em 2013, e apesar de uma redução no universo total de empresas, fruto das falências, a taxa tinha já subido para 12,48. Um total de 9500 zombies. Em 2015, o último ano analisado, eram 10,65%, ou seja, mais de 7500.

A presença destas empresas zombies pode ter "amplificado as consequências negativas da crise", mas também estar a "retardar a retoma". É que não só criam "problemas de solvabilidade" no sistema bancário, como "diminuem a competitividade" do mercado em que operam, impedindo a entrada de empresas novas, "mais inovadoras e mais competitivas".

Ricardo Pedrosa Gomes, presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Serviços (AECOPS), concorda e admite, até, que o número de zombies possa ser "bem maior". A situação deve-se, crê, ao mau uso do Processo Especial de Revitalização (PER) e à permissividade do sistema que permitia que as empresas sem viabilidade "saltassem de PER em PER, contaminando o mercado e fazendo concorrência desleal" às restantes construtoras.

Admite que, em tempo de crise, o PER teve a "pequena vantagem" de ir mantendo os postos de trabalho "enquanto as empresas vegetavam", mas isso já não faz sentido "numa altura em que a dinâmica económica é uma realidade". Aponta, no entanto, o dedo aos bancos, habitualmente os principais credores destas empresas zombies, "por não terem capacidade ou vontade" de reconhecerem estas imparidades, forçando o seu desaparecimento.

O problema, diz Ricardo Pedrosa Gomes, é o "estigma" que a sobrevivência artificial destas empresas cria: "A construção é o setor com maior índice de crédito irrecuperável na economia portuguesa. Enquanto continuar a ser contaminado por estas empresas, todas as restantes são estigmatizadas pela banca. No mínimo, pagam um prémio de risco. É uma concorrência desleal objetiva, que penaliza toda a gente quando a banca sabe que a maioria desses créditos são irrecuperáveis."

A manutenção artificial destas empresas faz-se sentir também ao nível da concorrência nos concursos públicos, com uma política de esmagamento de preços em busca de obras. "É um círculo vicioso, que se vai eternizando, com a cumplicidade dos donos de obra. E as restantes empresas, para evitar que se tornem zombies, acabam a entrar nessa espiral destrutiva. É tudo muito pernicioso e induz comportamentos de dumping." A situação, diz, "está a melhorar", fruto da dinâmica positiva da economia, mas está longe de ser ultrapassada.

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