Lisboa tem de ter pedalada para acompanhar ambição de Paddy

Acordo prevê realização por mais dois anos em Lisboa, mas sucesso da primeira edição pode render prolongamento até 2020. Para o ano haverá mais mulheres e mais pavilhões

"Paddy Cosgrave é um empreendedor por natureza. Por muito grande que isto seja, para ele nunca será suficiente. Resta saber se temos pedalada para o acompanhar." A frase é de Miguel Fontes, diretor da Startup Lisboa e sintetiza o que poderá ser o futuro da grande cimeira de tecnologia e empreendedorismo. Se Portugal assim o quiser, e conseguir acompanhar, tem todas as condições para que esta primeira Web Summit se prolongue por mais dois anos.

Se este primeiro teste corresse bem, a expectativa era que a cimeira ficasse em Lisboa até 2020, mas nem Paddy nem o governo português arriscam avançar um prolongamento. Para já estão certas as edições de 2017 e 2018 e nem Paddy revela se haverá mais. Uma coisa o CEO da Web Summit garante: esta edição "foi absolutamente fantástica. Tivemos um desempenho absolutamente incrível em Lisboa", afirmou o empreendedor em jeito de balanço.

Estiveram presentes, neste ano, 53 mil pessoas. Mas para 2017 a previsão é de que rumem a Lisboa 80 mil. Os primeiros 300 bilhetes de 300 euros foram vendidos na quarta-feira, esgotaram tão rapidamente que a organização pôs à venda, ontem, outros tantos.

Mas para que a conferência possa atingir estes valores, os três pavilhões da FIL (o quatro servia apenas para a entrada e bengaleiro) e os 20 mil assentos do MEO Arena podem não ser suficientes. "Não somos o Papa, mas... penso que podemos vir a ocupar, por exemplo, o Pavilhão de Portugal. Queremos utilizar mais espaço no próximo ano", assumiu Paddy Cosgrave.

Alargar o espaço não é o único objetivo. A igualdade de género continua a ser um caminho que a Web Summit quer trilhar, depois de na edição deste ano a organização ter oferecido alguns milhares de bilhetes a mulheres, tendo dedicado um lounge, Women in Tech, no pavilhão 3. "Queremos ter mais mulheres, por exemplo, de África, jovens mulheres que estejam a criar startups", referiu Paddy, lembrando que neste ano foi quebrado um recorde absoluto das cimeiras internacionais de tecnologia com 42% de mulheres. "No ano passado eram apenas 10%."

Mas a ambição de Paddy Cosgrave choca com alguns comentários de desagrado que se ouvem nos vários pavilhões, de que a Web Summit é grande demais. "Por isso é que tantas vezes se frisou a importância da preparação", justifica Miguel Fontes. "Isto é enorme, gigantesco. É preciso saber que tempo se tem para as conferências e que tempo deve servir para reuniões e apresentações. Há uma aplicação que torna tudo mais fácil."

Paddy Cosgrave não revela para já mais sobre o futuro. Mostra, antes, o gigantismo dos últimos quatro dias: entre telemóveis, tablets e portáteis foram utilizados 67 mil dispositivos; o tráfego atingiu os 20 terabytes e os downloads de dados feitos durante o evento são equivalentes à média de um utilizador durante 30 anos. Além disso, foram trocadas na aplicação criada para a cimeira de Lisboa mais de um milhão de mensagens. Só na noite da abertura do evento, na segunda-feira, houve 1,1 milhões de posts no Facebook. Foram gerados 84 mil tweets sobre o tópico Web Summit ou Web Summit 2016.

"Há ainda muito espaço para crescer", admite o fundador da Web Summit, detalhando que o retorno não serve apenas as 1490 startups e os 1300 investidores de topo presentes no evento. "Para a cidade de Lisboa há um enorme impacto económico, que não pode ser visto só agora, mas para um período entre cinco e dez anos do ponto de vista das empresas portuguesas."

Não é só. Mais do que ter a Web Summit a realizar-se em Lisboa por anos consecutivos, é preciso dar condições às empresas que se sintam tentadas a vir para Portugal, graças ao evento, assinalou Assunção Cristas. A líder do CDS--PP, ministra do anterior governo - que fez as negociações iniciais para trazer a conferência para Lisboa -, assume que o executivo de António Costa soube dar continuidade ao assunto, mas que isso, por si só, não chega. "Estamos a querer atrair empresas para cá, a fazer grandes campanhas, mas depois esquecemo-nos de oferecer condições propícias a que essas empresas se estabeleçam no país. Estávamos a desenvolver legislação para benefícios em sede de IRC e o governo atual deixou essas propostas cair. Não se compreende", desabafou.

Ao longo dos últimos quatro dias, os incentivos foram outros: colocar os empreendedores frente a frente com investidores e ainda os cem mil euros de financiamento da Portugal Ventures, que foram entregues como prémio final para o vencedor da competição principal da Web Summit, o PITCH, ganho pela dinamarquesa Kubo Robot.

A próxima edição é daqui a um ano. "A minha mulher teve um bebé há três semanas e, nos últimos dias, tenho sido um péssimo pai e um péssimo marido. Agora vou tirar um tempo e depois logo penso no ano que vem", diz Paddy.

Com ANA MARCELA e ANA SANLEZ

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