Joalharia quer duplicar exportações e chegar aos 150 milhões de euros em 2022

Mercados externos valem só 10% das vendas da indústria, mas eram praticamente inexistentes há uma década. Nova geração de criadores já olha para o exterior e a associação AORP tem três milhões para ajudar

A joalharia portuguesa quer mais do que duplicar as suas exportações nos próximos cinco anos. O objetivo é chegar a 2022 com 150 milhões de euros vendidos nos mercados internacionais, contra os atuais 71 milhões.

Um valor que parece pequeno, num setor com um volume de negócios anual da ordem dos 700 milhões, mas a verdade é que, em 2010, as exportações de joias portuguesas valiam apenas 20 milhões de euros. Três milhões de euros é quanto a Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP) está a investir no projeto de internacionalização.

A indústria marcou presença na Inhorgenta, em Munique, com uma participação recorde: 15 marcas portuguesas, dez das quais são jovens promessas que nascem com uma vocação internacional. É o caso de Inês Rio, que passou pela Gatto e pela Topázio e criou a sua marca em 2016. Estudou em Milão, tem hoje amigos "em todo o mundo", e uma relação próxima com Londres, onde conta com alguns clientes, como o diretor-geral da Tom Ford em Inglaterra.

Também Sara Coutinho criou a Mater Jewellery Tales há pouco mais de dois anos, em resultado de um projeto de aceleração da Associação Nacional de Jovens Empresários e exporta já 35% das suas peças, tendo clientes na Suíça, França, Bélgica, Itália e Holanda, tendo conquistado, na feira de Munique, um novo mercado: o Canadá.

Conceição Neves marcou presença em Munique com demonstrações ao vivo do seu trabalho, na arte da filigrana. Natural de Gondomar, Conceição seguiu os passos da mãe, contra sua vontade, como "enchedeira" - assim são conhecidas as artesãs que fazem o rendilhado delicado que preenche as molduras das peças de filigrana. A mãe queria outro futuro para a filha que, às escondidas, ia testando a arte que aprendeu vendo a mãe a praticar, dia após dia. Já adulta, trabalhou sete anos para uma multinacional. "Um dia cansei-me e decidi que era altura de avançar sozinha" e em 2015 lançou a sua marca, em nome próprio.

Hoje vende as suas peças em Londres, Suíça ou Austrália, além de produzir joias em filigrana para grandes marcas internacionais, mas sobre as quais tem de manter sigilo. Embora se saiba que os dois corações de filigrana oferecidos pela Douro Azul a Sara Sampaio e a Joss Stone foram produzidos por si. Também fez, em 2016, umas largas centenas de corações e arcadas portuguesas, de prata e de prata com banho de ouro, para sandálias de edição limitada da marca Christian Louboutin.

Conceição Neves esteve em Munique em representação da Rota da Filigrana de Gondomar, o maior núcleo produtor desta técnica artesanal e que criou um roteiro de turismo industrial, promovendo visitas a seis oficinas e ao centro de formação profissional da indústria. Carlos Brás, vereador da Câmara de Gondomar, explica que a rota criada em março de 2016 já foi visitada por mais de cinco mil pessoas.

Para combater a "ameaça da filigrana injetada", que chega do Oriente, as autarquias de Gondomar e Póvoa do Lanhoso têm "praticamente concluído" o processo de certificação da filigrana de Portugal, que passará a ostentar um selo de garantia. Uma forma de distinguir os dois produtos e de ajudar à valorização dos artesãos portugueses. "A filigrana tem potencial para ser um artigo de luxo pela elevada incorporação de trabalho que tem, não há uma peça igual a outra", frisa Carlos Brás. As duas autarquias pretendem candidatar a filigrana nacional a Património Imaterial da Humanidade.

Reinventar a filigrana, dando--lhe um cunho de modernidade, é o que faz Sara Sousa Pinto que, durante 21 anos, trabalhou para uma empresa de alta joalharia que fechou em 2009. A artesã avançou por conta própria e hoje tem uma equipa com oito artesãos. Esteve pela primeira vez na Inhorgenta este ano e saiu com uma encomenda de uma cadeia de 30 lojas na Rússia. Em Portugal, as peças de Sara Sousa Pinto estão à venda, desde novembro, no espaço Portugueses Jewel no El Corte Inglés de Lisboa, uma parceria com a AORP.

A pequena dimensão das empresas do setor "é a maior fragilidade" da indústria, reconhece Fátima Santos, diretora-geral da AORP, lembrando que o setor está assente em microunidades. Basta ter em conta que o setor tem 4237 empresas e menos de 11 mil trabalhadores, ou seja, menos de três trabalhadores, em média, por empresa. A Galeiras é uma exceção: tem 20 trabalhadores. É uma empresa familiar, fundada pelos pais, hoje gerida pelos três irmãos, e que exporta 70% da sua produção, para 19 países distintos, em especial na Europa, e que marca presença nas principais feiras internacionais em busca de novos clientes. A Galeiras produz para outras marcas e está confortável assim, embora, um dia, admita avançar com uma marca própria a longo prazo. "A marca própria não dá a rotatividade de produção que obtemos com o private label. E temos já clientes fidelizados e com um relacionamento de confiança de muitos anos", diz António José Galeiras.

* A jornalista visitou a Inhorgenta a convite da AORP

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