Já há quem faça 240 quilómetros para atestar em Badajoz

A crise nos combustíveis está a levar automobilistas portugueses a percorrerem cerca de 200 quilómetros para atestarem os carros em Badajoz.

Numa gasolineira do lado de lá da raia, o DN encontrou esta manhã vários exemplos e até quem tivesse viajado desde Coina (Barreiro), com dois jerricans na bagageira, garantindo que o preço em Espanha "compensa".

Era o caso de Mário Tereno, que acabava de atestar na área de serviço de São Martin (no parque industrial de Badajoz). "Tenho uma viagem grande no fim de semana e não quis arriscar. No distrito de Setúbal já há várias bombas secas, mas como tinha um serviço em Montemor-o-Novo aproveitei para vir aqui. Faço mais 240 quilómetros - 120 para cada lado - mas fico descansado", explicava, mesmo antes de fazer as contas e perceber que tinha garantindo uma poupança superior a 40 euros entre os 60 litros com os quais atestou o depósito do carro, mais os 50 que encheram os dois jerricans.

É que o preço da gasolina de 95 octanas nesta área de serviço está hoje nos 1.240 euros, quando o preço médio em Portugal se fixa nos 1.615, segundo o site "maisgasolina". Ou seja, garantiu uma poupança de 37.5 cêntimos por litro, o que, multiplicando pelos 60 litros introduzidos no depósito, mais outros 50 nos dois jerricans, dá um total de 41.25 euros poupados em 110 litros. "Está paga a deslocação", comentava após as contas feitas com o DN, admitindo que decidiu seguir viagem até Espanha à medida que foi encontrando pelas estradas do Alentejo áreas de serviço sem combustível e "filas enormes" nas gasolineiras que ainda tinham gasolina e gasóleo.

Mas as viaturas de matrícula portuguesa continuavam a chegar à gasolineira espanhola com uma afluência invulgar para uma manhã de quarta-feira. Em apenas 15 minutos contaram-se oito carros lusos e mais alguns jerricans discretamente escondidos nas bagageiras. Seria mais normal se fosse um sábado, o dia da semana em que portugueses da raia aqui atestam as viaturas. O próprio funcionário estranha a "correria" e pergunta se os combustíveis "aumentaram muito em Portugal por estes dias".

Recebe como resposta que está a decorrer uma greve dos motoristas de matérias perigosas e que os postos de combustível não estão a ser reabastecidos. "É que tem sido uma loucura de carros portugueses desde as oito da manhã. Muito mais do que quando ali aumenta a gasolina", confirma este funcionário, enquanto um outro automobilista acaba de chegar de Castelo Branco.

"Tenho uma entrega para fazer em Évora. Em situação normal iria direto de Portalegre para Évora, mas isto está o caos nas nossas gasolineiras e alarguei a volta uns 100 quilómetros depois e um colega me ter aconselhado a vir aqui", conta Arménio Palma, que vai atestar a carrinha com mais de cem litros de gasóleo. "Compensa vir cá, porque ainda se poupa mais de 30 euros", afirma. O gasóleo está hoje a 1.155 euros neste posto de combustível, enquanto o preço médio em Portugal está nos 1.453. Uma poupança por litro de 29.8 cêntimos.

Ao longo da manhã também por aqui se foram abastecendo camionistas portugueses, garantindo que esta opção nada tem a ver com crise em Portugal. Explicam que é normal atestarem os depósitos em Espanha, quando vão viajar pela Europa, porque em cada mil litros de gasóleo poupam quase 300 euros face a Portugal.

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.