Investimento privado chega a 2019 abaixo dos níveis pré-crise

Banco de Portugal vê "crescimento mais sustentado", mas lento. É preciso que Estado e empresas aproveitem boleia do BCE

O investimento privado vai recuperar, mas a um ritmo que não será suficiente para repor o que foi destruído na crise pós-2008, pondo assim em xeque ou adiando o necessário reforço do potencial económico do país, alerta o Banco de Portugal. A ajuda do investimento público também deve ficar aquém do que é preciso, "refletindo a necessidade atual de consolidação orçamental".

No boletim económico que ontem apresentou, o governador Carlos Costa envia duas mensagens claras: a boa é que o padrão do crescimento está a melhorar - mais baseado em investimento e exportações, menos em consumo. A má é que isso não chega, nem de longe, e mesmo os progressos que agora se antecipam têm os dias contados - vão durar até que o Banco Central Europeu dê por findas as políticas de apoio aos bancos e à dívida pública (mantendo juros muito baixos através da expansão monetária/emissão de moeda).

A expansão da economia para este ano foi revista em alta ligeira (de 1,1% para 1,2%), mas a de 2017 levou um corte, caindo de 1,6% em junho para 1,4% agora.

Naquilo que pode ser entendido também como um elogio ao modelo económico defendido pelo governo, o Banco de Portugal refere que "o padrão de crescimento projetado - em que as componentes com uma evolução mais dinâmica do que o PIB são as exportações e a FBCF [investimento fixo] - é compatível com uma recuperação mais sustentada da economia portuguesa, em particular numa situação em que se mantém uma capacidade de financiamento junto do exterior e se projetam reduções adicionais dos níveis de endividamento do setor privado". Elogia a "recomposição" da procura interna, marcada pela "moderação do consumo privado" e pela tal "recuperação" do investimento, "em particular da componente empresarial", após a queda de 2016.

"Estes traços são consistentes com um padrão de crescimento mais sustentado, caracterizado pela reorientação de recursos para setores mais expostos à concorrência internacional e mais produtivos, pela manutenção de um excedente nas contas externas e pelo prosseguimento do processo de redução do endividamento do setor privado não financeiro." Além disso ainda espera uma "melhoria gradual da situação do mercado de trabalho". O desemprego deverá recuar para 8,5% em 2019.

Mas é no investimento, sobretudo o privado, que o banco central vê a energia da economia, embora curta. O ritmo do investimento total deve ficar "aquém do observado em recuperações anteriores". E mesmo contando com um ambiente de juros artificialmente baixos (efeito BCE), "em 2019 o nível da FBCF empresarial deverá manter-se abaixo do observado em 2008". Assim, "o contributo do fator capital [para a evolução do PIB per capita] deve ser aproximadamente nulo ao longo do horizonte de projeção, já que, não obstante a recuperação do investimento, este deverá ainda manter-se em níveis que apenas permitem compensar a depreciação do capital."

Em 2017, o consumo privado abranda para 1,3% (o governo espera 1,5%), o consumo público estagna (desaparece o efeito do acréscimo de despesa com PPP rodoviárias que permitiu uma subida real de 1% em 2016), o investimento inverte a tendência negativa e sobe 4,4%, ficando acima dos 4% até 2019 (e, aqui, Carlos Costa até é mais otimista do que o governo, que espera 3,1%). Finalmente, as exportações aceleram para 4,8% em 2017, mantendo-se na casa dos 4% nos próximos três anos. O governo é mais conservador, projetando um aumento de 4,2% no ano que vem.

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