Vera Pinto Pereira: "A EDP quer estar no centro da mobilidade elétrica"

O Lisbon Mobi Summit vai realizar-se em setembro de 2018, com Warm Up de 26 a 28 de Janeiro. O evento realiza-se anualmente em Lisboa, com expansão internacional prevista para outras geografias a partir de 2019.O Lisbon Mobi Summit é um dos mais inovadores e relevantes eventos na área da mobilidade urbana. Lisboa será palco internacional para comunicar e experimentar mobilidade. Este movimento da mobilidade urbana é liderado pelo Global Media Group e pela EDP, em parceria com a Via Verde, Volkswagen e Efacec.

Gosta de sair da sua zona de conforto enquanto gestora. E ainda bem. Há cinco meses aterrou numa "revolução energética enorme", como CEO da EDP Comercial. A descarbonização e eletrificação da economia são os grandes desafios para os quais Vera Pinto Pereira tem metas precisas: reduzir as emisssões em 75% até 2030 e aumentar a capacidade de produção de renováveis para 76% em dois anos. A mobilidade elétrica é a nova "área de negócio central", em Portugal, mas também em Espanha ou no Brasil.

Que balanço faz destes cinco meses à frente da EDP Comercial? Que empresa encontrou e que projetos e metas estão no horizonte?
Encontrei uma empresa com profissionais e pessoas extraordinárias, uma empresa de futuro, virada para a inovação, que alimenta essa cultura de forma transversal. Na EDP Comercial, em particular, encontrei um foco enorme no cliente. É um desafio, porque temos um cliente cada vez mais exigente, fruto do da tecnologia e da digitalização.


E que metas para reforçar esse foco e melhorar a eficiência?
Vivemos uma revolução energética enorme, que se faz sentir em três dimensões: a descarbonização, a descentralização e a digitalização, com o cliente no epicentro. Isto lança uma série de desafios. A descarbonização impõe a eletrificação da economia e a alteração radical no consumo, criando novas necessidades do cliente. A descentralização, ao ter um cliente que é ao mesmo tempo produtor (o chamado prosumer), cria desafios e alterações no preço de energia, bem como outras necessidades. Um cliente enquanto produtor vai precisar de armazenar e gerir a sua energia. Por fim, a digitalização, que está a alterar a economia mundial, impõe uma disrupção profunda. Este é o contexto no qual nós vamos desenhar a estratégia de crescimento para a EDP Comercial.

E qual é essa estratégia?
Passa por quatro ou cinco eixos. Pretendemos posicionar-nos como algo mais do que uma empresa de energia. Queremos ser uma empresa de soluções energéticas para o cliente final, alargar o portefolio de serviços para as novas exigências. Já não é um caminho novo. Os serviços são personalizados e desenhados em parceria com clientes de várias áreas de negócio. Depois, temos o objetivo de fazer crescer a base de clientes.


Isso também no mercado internacional?
Sim, por exemplo, no mercado espanhol ou nos novos mercados anunciados recentemente, iniciando uma estratégia de retalho.
O terceiro eixo desta estratégia é a diversificação para novas áreas de negócio e a mobilidade é uma delas. Queremos assumir um papel central na mobilidade. Todas estas frentes serão ancoradas na excelência operacional, que está no ADN da EDP.

Geriu empresas das telecomunicações e dos media. Que semelhanças encontrou com o setor da energia?
Embora sejam áreas distintas, há imensos pontos de contacto, sobretudo na semelhança de fase em que se encontra o setor da energia, em profunda transformação. Estive nas telecoms também numa fase de profunda transformação, e eu gosto de sair da zona de conforto. Quando estive na Fox, foi a mesma coisa: discutia-se o futuro e a sobrevivência dos canais lineares. Tem tudo a ver com o momento em que nos encontramos agora no setor da energia, em que temos de nos reinventar, alterar a cadeia de valor, lidar com players novos, alguns totalmente digitais.

Perante o desafio da descarbonização e eletrificação da economia, o que tem de mudar numa entidade que também gere infraestrutura para conseguir essa mudança?
No esforço de descarbonização, há que reduzir os combustíveis fósseis para baixar a emissão de CO2. Mas o consumo de eletricidade só é responsável pela emissão de 20% desses gases, pelo que o que podemos fazer de estruturante no consumo de eletricidade só diz respeito a 20 % da emissão de gases. Há, assim, um outro passo que é preciso dar, que é eletrificar a economia. Isto joga com o tema dos transportes rodoviários, que representam 21% das emissões de gases de efeito de estufa. O que é preciso fazer é eletrificar este consumo dos transportes, para depois substituir a fonte de energia por uma fonte renovável. As energias renováveis são um compromisso da EDP. Há uma década que o nosso crescimento é ancorado nas energias renováveis. Cerca de 74% da nossa capacidade de produção instalada é renovável e o objetivo é crescer para 76% até 2020, reduzindo as emissões de CO2 em 75% até 2030, isto na lógica da geração. Também na lógica do retalho estamos focados em desenvolver soluções que permitam ao cliente final reduzir a sua fatura, baixar as suas emissões e aumentar a eficiência.

Que soluções tem a empresa para o cliente no sentido de incentivar a mobilidade elétrica e de aumentar a eficiência energética?
No segmento residencial, para promover um consumo mais eficiente, temos uma série de soluções, como o re:dy, que mede os consumos em casa e permite agir remotamente para ajustar o consumo. Está dentro de casa, associado às diferentes tomadas e equipamentos. Temos também o solar, área em que somos um dos maiores impulsionadores da instalação de painéis solares, que são instalados com o re:dy para otimizar a produção durante as horas de calor. E disponibilizamos ainda soluções para a mobilidade, como sejam os planos de mobilidade e mobilidade verde, para a instalação de wall box em casa para carregar os veículos elétricos. No segmento não residencial temos vindo a desenvolver, numa lógica de parceria com os nossos clientes, serviços de gestão e eficiência energética, por exemplo através da plataforma save to compete, no qual desenhamos uma conjunto de planos e serviços, à medidada, que permitem ao cliente reduzir o seu consumo energético.

O que está previsto em matéria de investimento para o desenvolvimento desta área da mobilidade elétrica?
Prefiro começar por dizer o que já fizemos. A EDP quer estar no centro da mobilidade elétrica . É uma prioridade estratégica por três razões: primeiro, porque os nossos clientes têm a necessidade de eletrificar o seu comportamento e olham para a EDP como um parceiro natural; segundo porque será, a prazo, um vetor de crescimento e de diversificação de negócio; eterceiro, porque é um dever existir uma aposta coletiva nesta área. Porque atingir as metas do Acordo de Paris, é algo que não se fará sem um esforço coletivo e a criação de um ecossistema. Se queremos ganhar velocidade nesta matéria, temos a responsabilidade de estar na linha da frente desse esforço.

Como está a rede a nível de postos de carregamento?
Em Portugal temos oito postos de carregamento rápido, em oito cidades; em Espanha temos já 52 e mais nove planeados. No Brasil inaugurámos recentemente o maior corredor elétrico da América Latina, do Rio de janeiro a São Paulo, com 430 km e seis postos de carregamento. E somos parceiros muito empenhados no projeto do Mobi.e, onde estamos desde o início. Vamos inaugurar agora mais dois postos de carregamento rápido na zona do MAAT , em Belém. Estes dois destinam-se a trabalhar a dimensão de e-hubs para frotas. Porque as frotas têm um comportamento de circulação e carregamento atípico, que acaba por perturbar e criar uma alguma entropia numa rede de consumidor final que tem outro tipo de necessidades. É importante focar nas necessidades específicas das frotas que diferem das do cidadão comum. Acreditamos muito, aliás, no potencial de eletrificação das frotas.


Como está a evoluir a adesão das empresas à mobilidade elétrica?
O nosso compromisso interno é ter 100% da nossa frota eletrificada até 2030. Obviamente há outras empresas que têm objetivos similares e é preciso desenhar pacotes de energia com uma solução de carregamento que respondam a estes objetivos e apoiem as empresas neste esforço. Ainda a nível interno, temos um plano de medidas que tem evoluído para dar incentivos aos trabalhadores nesta área e ferramentas para apoiar a alteração de padrões de mobilidade, indo ao encontro das necessidades atuais de urbanismo.

A mobilidade elétrica já é rentável? Quanto é que vale este mercado em geral?
Ainda não atingimos o cost parity entre o veículo elétrico e o de combustão. Estima-se que a paridade no custo irá acontecer em 2022, e, a partir daí, a curva de adoção destes veículos também começará a descolar. Ainda estamos a falar de valores muito pequenos na mobilidade elétrica, para todos nós, marcas automóveis e sistemas de carregamento. Estamos a dar os primeiros passos. Entrou em aceleração este ano e agora temos todo um ecossistema de parceiros que precisa de criar e alimentar um círculo virtuoso. As estimativas - por exemplo da BCG - apontam para que 35% dos novos veículos vendidos na Europa em 2035 serão veículos elétricos. Para onde vamos? Para a mobilidade elétrica, autónoma e partilhada. A nível europeu há vários ecossistemas de parceiros a trabalharem juntos, dos setores da energia, das tecnológicas, bem como marcas automóveis. Nós acreditamos na importância das parcerias. Temos, nomeadamente uma parceria com a Efacec, com a qual desenvolvemos uma nova wall box que lançaremos em Outubro, em que a grande novidade é a gestão de carga da casa, otimizar para que quando há mais consumo, a carga do carro ajuste. Também com a Efacec estamos a trabalhar uma solução para condomínios, para diferenciar os consumos por utilizador e que estará operacional em 2019. Fazemos parte de uma série de fóruns internacionais, com destaque para World Business Council for Sustainable Development e para a Transport Decarbonisation Alliance , da qual somos membros-fundadores.


Como vai evoluir o mercado energético face à diversidade de fontes? Qual será o peso da energia hidroelétrica, solar e eólica neste mix?
O preço do dióxido de carbono aumentou três vezes no último ano. Esta tendência vai fazer com que a energia do carvão acabe por ficar mais cara do que o gás, que, por sua vez, substituirá o carvão. E, a seguir, o gás será substituído pelas energias renováveis. Vamos caminhar, por todas as razões, para um mundo com um peso muito maior das energias renováveis e também com um crescimento da produção descentralizada.


Com mais energia renovável e maior eficiência energética, o preço será mais acessível?
A longo prazo com o crescimento das energias renováveis tem tendência para descer. Nao obstante, tem havido um agravamento nos preços grossistas, dado, por exemplo, o referido aumento do CO2.

E as previsões de consumo com a eletrificação da economia?
Temos um efeito que contraria o outro. Temos o efeito da eficiência que faz com que seja preciso gastar menos, mas ao mesmo tempo temos a eletrificação da economia que traz um crescimento. O que se espera é que seja alimentado por energias renováveis. Por outro lado, temos que aliviar a circulação automóvel nas cidades. Temos de evoluir para a partilha e o on demand. São comportamentos que têm de ser incentivados.

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