Venda de roupa e sapatos cai entre 25% e 50% por causa do mau tempo

A chuva e o frio tem afetado as vendas de roupa e calçado. Retalhistas já avançaram com fortes campanhas promocionais para alavancar negócios. O consumidor ganha mas as margens de receita ficam esmagadas

Tempo nublado com aguaceiros são as previsões para os próximos dias. "Quem é que compra sandálias com este tempo?"O desabafo do designer Luís Onofre, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), resume o estado do comércio de calçado e vestuário, que está a sofrer quebras de vendas entre 25% e 50% na época primavera-verão. A culpa é do mau tempo.

"As vendas têm caído a pique", admite Luís Onofre. "Quem está em Lisboa e nos grandes centros urbanos ainda beneficia do turismo, mas quem está noutras regiões não beneficia desse efeito."

João Vieira Lopes, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), reconhece que o impacto do mau tempo é "significativo" no comércio a retalho. Fala em quebras de vendas, entre abril/junho, de 25% a 50% nas vendas de vestuário e calçado, "mais no têxtil do que no calçado". As consequências são, naturalmente, "negativas" para os comerciantes. Depois da quebra de vendas com as coleções de primavera/verão, os retalhistas avançam com promoções, vendo desaparecer as suas margens. "O que dificulta substancialmente os pequenos e médios operadores", alerta João Vieira Lopes. E a agressividade promocional tem vindo a aumentar. "Há uns anos falávamos de 10%, 20% a 25%, neste momento, chegam a 50%."

Promoções para vender

Na Chicco as promoções oscilam entre 20% e 50%. "Este ano, o tempo anormalmente frio que se fez sentir até há pouco tempo, teve impacto nas nossas vendas de roupa e sapatos de primavera/verão, provocando uma variação negativa nos resultados face a 2017, ano em que o calor chegou bastante mais cedo", admite Filipa Remígio. A diretora de marketing e comercial da Artsana, a dona da marca infantil, não revela o valor das quebras verificadas, mas admite que a "venda de produtos em promoção acarreta sempre uma redução da margem de comercialização dos produtos. Ao antecipar o início das promoções, o impacto nas margens faz-se sentir de imediato, principalmente se tivermos em linha de conta os elevados volumes de vendas que caracterizam estes meses".

A Zippy diz não notar, "para já", qualquer impacto com as vendas devido à instabilidade do clima. A marca de roupa infantil do grupo Sonae está desde a semana passada com promoções que se irão manter nas lojas até final de agosto. "Não antecipámos a época de promoções devido à instabilidade do clima. Os timings da estratégia promocional mantêm-se, sendo que neste momento estamos em saldos, com artigos com até 50% de desconto."

A cadeia francesa Kiabi, com duas lojas em Lisboa e Porto e uma terceira prevista para o segundo semestre, não refere valores quando questionada sobre o impacto do estado do tempo nas vendas, mas admite que a instabilidade climatérica implicou mudanças na forma de trabalhar. "Obriga a que a Kiabi aposte na presença mais contínua nas suas lojas de um mix de oferta de produtos e complementos que não se centram somente na coleção forte da estação. Assim, junto da coleção primavera-verão, temos sempre complementos para aqueles dias mais frescos que ainda persistem, respondendo assim melhor às necessidades dos nossos clientes", refere Isabel Azevedo, country leader da Kiabi Portugal.

E quando o stock não é vendido pelas lojas, em alguns casos é feita a devolução. "Hoje em dia há muita gestão de stock que faz a devolução no fim da estação, mas isso acaba por ter impacto na indústria", alerta João Vieira Lopes.

"Para já ainda não há [quebras de vendas], porque as encomendas foram feitas no ano passado. Quando muito o efeito vai fazer-se sentir no outono-inverno", diz João Costa, presidente da Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal (ATP).

E tudo vai depender do arranque da próxima época. "Quando a estação começa com frio, o mercado ganha ânimo. Se for como há um ano, um inverno quente..." Mas na época primavera/verão já não há volta a dar: "Foi fortemente afetada." Na indústria têxtil e do vestuário o impacto não foi tão acentuado, porque 80% da produção é para exportação.

Mas o arranque do ano, tanto para o têxtil como para o calçado, registou descidas. O tempo, lembra Luís Onofre, "é um problema global". "Estamos a produzir a coleção do próximo verão e vai ter repercussões porque as pessoas estão a comprar menos", admite.

No têxtil e vestuário, João Costa descreve um primeiro trimestre de exportações "relativamente estável, com uma ligeira quebra. O quarto mês foi melhor, com a Páscoa, que permitiu um crescimento de 12%". Um salto algo "atípico" também empurrado por mercados como França, Alemanha e Itália. Ritmo que o presidente da Associação Têxtil e de Vestuário não acredita que se mantenha até ao final do ano. "Bom já seria mantermos o mesmo crescimento do ano anterior: 4% a 5%."

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