Startups de olho no sucesso do negócio da venda de colchões

Mercado é dinâmico e tem margem para crescer. Portugal acompanha tendência, mas Europa ainda está longe dos EUA

A venda de colchões não é um negócio da China, mas traz milhões para o país. Estima-se que o mercado nacional do descanso, este ano, atinja os 105 milhões de euros em preços de venda ao público, mais 5% que 2016. Portugal segue a tendência do estrangeiro, em particular a de Espanha, com uma cultura semelhante. Juntos, os dois países somam 500 milhões de euros anuais, em retalho. Na Europa, o valor ascende aos cinco mil milhões.

Apesar de dinâmico e atrativo para novos players, por cá, o tradicional mercado dos colchões começa a deixar de o ser. "Em primeiro lugar estão a Pikolin e a Molaflex. Só as duas têm uma quota de 50%. Há ainda a IKEA que é um fenómeno em termos de procura por parte do consumidor, também com uma fatia importante. Só depois surgem as outras marcas, mais recentes," explica Daniel Bragança, diretor-geral da Pikolin Portugal.

Sozinha, a Pikolin estima deter 25% do mercado nacional. A empresa deverá fechar o ano de 2017 perto dos 26 milhões de euros em preços de venda ao público e assume que não está focada na concorrência. "O aparecimento de novas marcas não nos afeta. Pelo contrário, à medida que o mercado vai ficando mais maduro, o próprio consumidor vai-se preocupando cada vez mais com o equipamento de descanso que comprou para casa. E a nossa diferenciação, mais do que o preço, é no investimento em novas tecnologias," indica o responsável.

O argumento de que passamos um terço da vida a dormir, "mais do que o tempo que passamos no carro, por exemplo," sublinha Daniel Bragança, surge fácil quando se tenta encontrar uma justificação para o dinamismo do mercado. É que até as startups já entraram no negócio dos colchões.

A portuguesa Koala Rest nasceu este ano para tentar melhorar a experiência de compra do consumidor. "Apostamos no conceito de colchão único que as pessoas compram online e podem experimentar em casa por 30 dias. Não têm aquela pressão de entrar numa loja e ter que se deitar numa carrada de colchões para escolher um com base numa experiência de três ou quatro minutos, sem a possibilidade de devolução, caso não goste ao final da segunda noite," esclarece o co-fundador Bruno Madeira. A Koala Rest surgiu em março e já pensa terminar o ano com 100 mil euros de faturação. Em janeiro, a equipa pretende entrar no mercado espanhol.

O caminho inverso, ou seja, do estrangeiro para cá, fez a startup alemã Emma, que acaba de chegar ao mercado nacional. "Queríamos ter uma presença europeia e achámos que esta era uma boa altura para vir para estes países do sul, que estão a ter boa resposta a este tipo de produto," explica Pedro Ferreira, responsável português da marca. Quando questionado sobre o que torna a venda de colchões tão atrativa, mostra-se evasivo. Boas margens? "Prefiro não me pronunciar sobre isso." Já Daniel Bragança indica que não está aí o segredo do negócio. "As nossas margens são muito pequenas." Por sua vez, Bruno Madeira assume que os lucros podem ser consideráveis. "Sobretudo nos segmentos mais altos. Mas a perceção das margens loucas existe por causa dos descontos que as lojas praticam, tanto pode ser de 30 como 70%. Um colchão de 2000 euros pode ser vendido a 700. Mas isso acontece porque os clientes desconhecem o produto e por isso acham que se for caro é porque tem qualidade," justifica.

Todos concordam que o mercado é dinâmico e os portugueses, segundo o Eurostat, gastam mais em produtos para a casa, do seu orçamento disponível, que os franceses ou os britânicos. Ainda assim, o mercado do descanso europeu está muito longe do dos Estados Unidos, onde, em Silicon Valley, o número de startups de colchões tem explodido nos últimos anos. "Não sei se chegaremos ao nível deles. Mas a Europa está a despertar para esta realidade e, em Portugal, imagino que num futuro próximo surgirão ainda várias empresas destas," acredita Bruno Madeira.

Artigo atualizado às 10h48 de 03/11 com retificação em relação à Pikolin Portugal e aos valores de preços de venda ao público.

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