Setor a setor, quais são os impactos da greve?

Pequena unidade familiar de Leiria, que, em média, vende 500 jerricãs por mês, "só na última semana já expediu 5000".

A aproximação do dia D da greve dos motoristas sem acordo à vista fez disparar a procura de jerricãs para transporte de combustíveis, embora a lei proibia o seu armazenamento em garagens ou arrecadações dos prédios. Um exemplo: a Prolipet, uma pequena unidade familiar de Leiria, que, em média, vende 500 jerricãs por mês, "só na última semana já expediu 5000", explicou ao Dinheiro Vivo Ricardo Henriques, responsável da empresa. "Sentimos um grande aumento das encomendas sensivelmente há 15 dias. Mas agora já está a acalmar."

ALIMENTAÇÃO

"É fundamental respeitar o direito à greve mas também é crucial que os serviços mínimos sejam cumpridos de forma ordeira e com tranquilidade", diz Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). Super e hipermercados têm-se preparado "nas últimas semanas com ações de logística que possam dar resposta aos pedidos da população e estes serviços mínimos parecem possibilitar evitar perturbações no fornecimento atempado de produtos e bens essenciais". A Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) destaca os moldes em que foram decretados os serviços mínimos. "Esperamos agora que, caso a greve avance, esses serviços mínimos sejam cumpridos."

AGRICULTURA

A Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores (FPAS) receia que a greve provoque "uma catástrofe" nas explorações, se a alimentação animal não for assegurada, afetando a exportação de porcos para a China. "O despacho garante que nos serviços mínimos está incluído o transporte de alimentos e até o de animais vivos, é necessário que este acautele a chegada de matéria-prima às fábricas", diz David Neves, vice-presidente da FPAS. A Portugal Fresh, associação para a promoção das frutas, legumes e flores, está preocupada: estimou prejuízos diários de 21 milhões, valor que, se a paralisação se prolongar por mais de quatro a cinco dias, poderá atingir 350 milhões, comprometendo as exportações do setor, que, em 2018, atingiram mais de 1,5 mil milhões. Os serviços mínimos para produtos perecíveis e deterioráveis são de 100% e de 75% em regiões onde as colheitas estão a decorrer.

BEBIDAS

O Super Bock Group apela ao diálogo e ao bom senso entre todas as partes envolvidas", diz Miguel Araújo, diretor de comunicação. Perante, o "possível impacto desta situação", o grupo "reforçou medidas preventivas, no sentido de minimizar os eventuais constrangimentos, que estão centradas no reforço de stocks nas plataformas de abastecimento ao mercado e nos clientes/pontos de venda".

ENERGIA

A EDP Distribuição está "preparada para acionar" o seu plano operacional de atuação em crise, que mobiliza também os fornecedores e prestadores de serviços. "Estão estabelecidas as ações a adotar nas diversas áreas da empresa e respetivas responsabilidades, bem como os meios disponíveis, as viaturas essenciais para garantir a movimentação dos operacionais, estando também acautelado o abastecimento de geradores."

TELECOMUNICAÇÕES

Reforço de combustíveis nas frotas de intervenção e nos depósitos dos data centers, do stock de materiais, definição de prioridades para intervenções de terreno e alargamento das equipas de prevenção são algumas das medidas previstas nos planos de contingência da NOS, Meo e Vodafone para a greve. Caso a paralisação não seja desconvocada, a dona do Meo, que montou um gabinete de crise, irá anunciar novas medidas.

TRANSPORTES

A Sociedade de Transportes Coletivos do Porto (STCP) já tem reserva de diesel para manter o funcionamento normal da frota "por alguns dias", mas frisa que "o reabastecimento a curto prazo é essencial e urgente, de modo a evitar potenciais constrangimentos no serviço regular". Cumprindo-se os serviços mínimos, a Carris "não prevê que ocorram problemas no normal funcionamento do serviço". Os taxistas são equiparados a veículos prioritários. Os Uber não.

TURISMO

A Confederação do Turismo de Portugal (CTP) prevê "gravíssimos impactos" para o turismo, defendendo "bom senso e boa vontade" nos plenários dos sindicatos, agendados para hoje, sábado, para se desconvocar uma greve de "consequências absolutamente imprevisíveis". A Associação das Agências de Viagens (APAVT) está satisfeita com a definição dos serviços mínimos, por "finalmente" se "sublinhar a importância do turismo", defendendo os direitos "dos portugueses que marcaram e pagaram férias" e por se ter decidido que "o aeroporto é uma infraestrutura que não pode ser afetada em nenhuma medida".

Ana Marcela e Ilídia Pinto são jornalistas do Dinheiro Vivo

Exclusivos