Salário médio subiu 4,5% desde que a troika foi embora

Aumento do salário mínimo nacional e publicação das portarias de extensão de contratos coletivos explicam a subida. Rendimento líquido mensal é agora de 838 euros

O rendimento salarial líquido dos trabalhadores por conta de outrem subiu 36 euros (+4,55%), desde que a troika saiu de Portugal há dois anos. Está agora nos 838 euros por mês, o valor mais alto de sempre. A explicação está no aumento do salário mínimo nacional e nas portarias de extensão que vieram atualizar as tabelas salariais de uma série de contratos coletivos de trabalho, diz o economista João Cerejeira.

A melhoria das condições do mercado de trabalho, com a subida do emprego, embora não acompanhada, em igual dimensão, pela descida do desemprego, também se tem refletido nos salários, lembra o professor da Universidade do Minho. O rendimento mensal médio líquido era de apenas 802 euros no final do primeiro trimestre de 2014.

Pedro Passos Coelho aumentou o SMN em outubro de 2014 (estava congelado desde 2011) de 485 para 505 euros. Um aumento que abrangeu, então, meio milhão de trabalhadores. O atual governo aprovou nova subida, em dezembro de 2015, para 530 euros. Dela beneficiaram mais de 650 mil trabalhadores.

João Cerejeira acredita que a atualização da retribuição mínima garantida tenha efeito sobre cerca de um terço da população ativa, na medida em que "há uma proporção muito grande de salários muito próximos que acabam por ser positivamente afetados", diz.

E, claro, há a questão da contratação coletiva, que esteve congelada durante o período da troika e que, com o fim do programa de ajustamento, embora não esteja ainda ultrapassada, pelo menos a atualização das tabelas salariais tem vindo a ser conseguida por via da publicação de portarias de extensão.

"Há ainda um grande bloqueamento à contratação coletiva" em Portugal, alerta a CGTP. Arménio Carlos lembra que 60% dos trabalhadores portugueses não ganham mais de 900 euros e critica a "manutenção do modelo de baixos salários e de precariedade" no país. Na realidade, só nos escalões de rendimento de 600 a 900 euros por mês e dos 1200 a 1800 euros é que aumenta o número de trabalhadores (ver infografia).

O aumento do rendimento salarial resulta da "necessidade de atualizar os salários como elemento fundamental de dinamização da economia e criação de emprego, mas também de justa distribuição da riqueza", diz Arménio Carlos. É preciso ir mais além, defende. "Estes números confirmam a necessidade urgente de mudar este modelo, de se distribuir a riqueza e de se valorizar as profissões e as carreiras profissionais. A não evolução das carreiras tem sido usada para reduzir o poder de compra das famílias, quando elas devem ser um fator de motivação fundamental e de desenvolvimento para o país."

A subida "é positiva", diz Carlos Silva. "A UGT sempre se opôs, e continuará a fazê-lo, à utilização dos salários como variável de ajustamento económico e de promoção da competitividade", garante o secretário-geral.

A reversão dos cortes salariais na Função Pública também poderá, por efeito de contágio, ter dado uma ajuda à subida das remunerações dos trabalhadores por conta de outrem. E as empresas, face à esperada recuperação económica, poderão estar a adotar políticas salariais "mais favoráveis", sobretudo aos seus quadros de chefia.

A concentração "de uma percentagem cada vez maior" de trabalhadores nos escalões mais baixos de rendimento deve-se - explica Carlos Silva - "à descida do valor médio" do salário oferecido aos novos contratados.

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