Roma prepara-se para novo round no choque orçamental com Bruxelas

Os juros da dívida de Itália estão perto de máximos de quatro anos. Mas os economistas não acreditam numa resposta efetiva às preocupações da Comissão Europeia sobre o orçamento.

O governo italiano tem de entregar esta terça-feira a resposta às preocupações de Bruxelas sobre os planos orçamentais para o próximo ano. Os analistas antecipam que Roma possa fazer alguns retoques. Mas longe do suficiente para cumprir com as exigências da Comissão Europeia, o que levará a mais um round no confronto com Bruxelas e a mais incerteza nos mercados de dívida.

O braço-de-ferro entre o governo dos eurocéticos do Movimento 5 Estrelas e da Liga e a Comissão Europeia levou já as taxas de juro italianas para perto de máximos de quatro anos. Estão próximas de 3,5%. Mas essa pressão não se alastrou aos outros países com as finanças públicas mais débeis, como Portugal, um dos cenários temidos pelo Fundo Monetário Internacional.

Esta instituição avisou, na semana passada, que em relação a Itália "existe uma incerteza apreciável e pode existir um contágio considerável, especialmente para economias com características macroeconómicas mais fracas". Mas constatou que, para já, a pressão não se propagou. Os juros portugueses, por exemplo, estão em níveis historicamente baixos. A taxa a dez anos é de menos de 2%.

Mas, no mercado, a ansiedade vai subindo. "O conflito sobre o orçamento de Itália deverá ser ainda mais relevante para as obrigações soberanas europeias com os mercados a aguardar impacientemente a resposta do governo italiana à UE", observam os analistas do Commerzbank, numa nota a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso.

A Comissão Europeia considerou, a 18 de outubro, que os planos do governo italiano são um desvio "sem precedentes na história do Pacto de Estabilidade e Crescimento". Entre as várias críticas feitas está a subida significativa do défice para 2,4% quando a meta acordada seria de 0,8%. E classificou as projeções económicas do governo italiano como "otimistas".

Juros portugueses continuam, para já, em níveis historicamente baixos. A taxa a dez anos é de menos de 2%.

Na imprensa italiana as informações são de que o governo poderá rever em baixa as estimativas do crescimento para responder às preocupações de que as projeções são irrealistas. Di Maio, líder do 5 Estrelas, deixou também a porta aberta a um diálogo sobre o corte da despesa nas "gorduras" do Estado.

Ainda assim, os especialistas do Commerzbank dizem que "existem poucos sinais de se inverter" a escalada no diferendo. Mas duvidam que "Itália jogue duro ao deixar o anterior esboço orçamental completamente inalterado". Já os economistas da Capital Economics salientaram, que "há poucas hipóteses de uma mudança radical nos planos orçamentais". Avisaram que "as tensões entre Itália e a UE devem escalar" esta semana.

O próximo round

Caso Itália não atire a toalha ao chão e Bruxelas também não desista das suas exigências, haverá um novo round. Os economistas da Capital Economics explicam que "após o deadline desta terça-feira, a Comissão irá provavelmente publicar uma opinião negativa sobre o orçamento italiano".

Os especialistas da entidade de análise britânica explicam que "apesar de ter três semanas para o fazer, duvidamos que leve tanto tempo. Portanto poderá não demorar muito antes da Comissão recomendar que Itália seja colocada em Procedimento por Défice Excessivo". Isso levaria Bruxelas a poder ter uma maior supervisão sobre as medidas orçamentais de Itália e mesmo a poder impor multas ao país. O nível máximo inicial dessa penalização pode ir até 0,2% do PIB.

Esse cenário levaria a uma subida dos juros de Itália. As agências de rating Moody"s e Standard & Poor"s (S&), por exemplo, têm mostrado preocupações com a abordagem de confronto entre Itália e Bruxelas. Em outubro, a Moody"s baixou o rating de Itália para apenas um nível acima de lixo. E a S&P meteu a notação com perspetiva negativa.

O Commerzbank avisou que uma decisão daquele tipo por parte de Bruxelas levaria a uma subida dos prémios de risco da dívida europeia. Mas tem como cenário base que Itália faça concessões subtis e condicionadas e tem esperança que isso possa ser interpretado como a possibilidade de se alcançar um acordo entre o governo italiano e a Comissão Europeia.

Rui Barroso é jornalista do Dinheiro Vivo

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