Robôs portugueses que conquistaram o mundo

Introsys atua sobretudo na indústria automóvel e aeronáutica. Vai ajudar a fazer o T-Roc em Palmela. E ganhou o prémio COTEC

É uma empresa portuguesa que constrói os robôs que vão fazer o novo modelo da Volkswagen na Autoeuropa. Esses e também os que outras marcas incontornáveis como a BMW, a Siemens ou a ThyssenKrupp utilizam nas suas fábricas de todo o mundo. Quinze anos depois de surgir a ideia durante um jogo de bilhar de dois irmãos, e numa época em que a inteligência artificial e a automação estão na ordem do dia, a Introsys acaba de ser distinguida pela COTEC com o Prémio PME Inovação. Uma distinção que "representa muito" para os irmãos Nuno e Luís Miguel Flores e que "estimula a continuação do trabalho com afinco".

"É o reconhecimento da dedicação e empenho de todos os nossos colaboradores e parceiros. Estamos conscientes do nosso valor num mercado altamente competitivo, mas este prémio entusiasma-nos. É um orgulho e permite-nos olhar os próximos 15 anos nesta lógica de procura da inovação", reagiu, em entrevista ao DN, o engenheiro industrial Nuno Flores.

Hoje com 220 colaboradores e uma faturação que subiu dos 12 aos 20 milhões de euros nos últimos dois anos - graças a uma "conjuntura perfeita que incluiu grandes projetos no México, na Alemanha para a BMW, e cá, com a produção do novo modelo da Volkswagen" -, a Introsys tem entre os seus clientes gigantes mundiais. "95% do nosso volume de projetos vai para o mercado alemão", concretiza Nuno Flores. E serve sobretudo a indústria automóvel e a aeronáutica em praticamente todo o mundo, a partir das filiais que abriu em Portugal, na Índia e no México. Líder de mercado e tendo arrancado com a internacionalização apenas dois anos depois de abrir portas, rapidamente se tornou numa referência e revolucionou a área dos sistemas de controlo robotizados.

Claro que este não foi um caminho isento de dificuldades. "As principais decorreram de, em 2002, Portugal ser ainda pouco conhecido - não havia Web Summit, não estávamos no mapa - e a engenharia portuguesa não ser uma referência a nível internacional", conta Nuno Flores. "A chancela da qualidade foi uma batalha travada projeto a projeto e para trabalharmos para um mercado tão exigente e protecionista como é o alemão tivemos de nos germanizar e responder aos desafios do crescimento." Às dificuldades que ainda surgem, responde "provando o valor da Introsys ano após ano". E é por isso que, questionado sobre que conselhos daria a outros empresários inovadores que estejam a arrancar, o fundador simplifica o que admite ser complexo: "Boas práticas e bons princípios simplificam o caminho. E é preciso mantermo-nos curiosos, estender a curiosidade que nos permite sermos inovadores nos serviços, nos processos, na forma de olhar para a qualidade, a segurança, até a saúde dos trabalhadores. Esta comichão pela descoberta de soluções mais eficientes é essencial para nos adaptarmos ao novo mundo."

Consciente de que a inovação é o único caminho para a diferenciação numa economia global com contornos competitivos predatórios, Nuno Flores deixa ainda um elogio aos recursos humanos altamente qualificados que saem das universidades e empresas portuguesas. "Dada a dimensão da Introsys e o facto de servir um mercado global, não podemos garantir todas as nossas necessidades com quadros portugueses, mas há aqui pessoas muito capazes. Os engenheiros portugueses estão ao nível dos melhores do mundo e as nossas universidades são verdadeiras fábricas de produção de talentos com excelentes resultados."

Quanto ao futuro, Nuno Flores traça planos para a Introsys: "Manter a busca pelos caminhos do conhecimento e da inovação para continuar a criar valor e a projetar o nome da empresa e do país no mundo."

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Anselmo Borges

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1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.