Rent-a-car vale 700 milhões de euros à boleia dos turistas

Governo prepara mudança no aluguer de automóveis: cliente poderá precisar de ir ao parque apenas para levantar o carro

Setor prepara-se para comprar 60 mil carros neste ano, mais 5% do que em 2017. ARAC quer assumir-se como associação de mobilidade e incluir partilha de outros veículos

É um dos setores que mais crescem graças ao aumento do turismo em Portugal: as empresas de aluguer de automóveis, as rent-a-car, registaram receitas de cerca de 700 milhões de euros só no ano passado. O crescimento foi de 45% em comparação com 2016, com os britânicos a serem os principais clientes. Os números, no entanto, não vão ficar por aqui. A ARAC - Associação dos Industriais de Aluguer de Automóveis sem Condutor antecipa mais um ano de ganhos à boleia dos estrangeiros; o setor prevê comprar ainda mais carros neste ano do que em 2017, adianta o secretário-geral da associação, Joaquim Robalo de Almeida, em entrevista ao DN/Dinheiro Vivo

"O setor do rent-a-car, para fazer face à procura, tem de ter a frota ajustada. Por isso, teremos de comprar mais. Devemos comprar mais 5% de carros neste ano", quando, só ano passado, as rent-a-car compraram 58 mil carros ligeiros de passageiros, o equivalente a mais de um quarto deste mercado, segundo os dados da ACAP - Associação Automóvel de Portugal.

As empresas confiam nas previsões do governo, que antecipa novo crescimento do turismo acima dos 10%. O parque automóvel destas empresas, com as novas aquisições, deverá atingir os 90 mil veículos, prevê a associação. O número só não é maior porque "a maior parte das empresas ficam com os carros apenas entre seis meses e um ano".

O turismo, graças ao grande crescimento dos últimos anos, já representa seis em cada dez euros de receitas para o setor. Há quatro anos, lembra o secretário-geral da ARAC, as empresas é que representavam 60% da faturação das rent-a-car. "Portugal tem um clima fantástico e que apenas necessitava de mais promoção. Temos de continuar a apostar no turismo."

Apesar dos números, a associação diz que "não há risco de dependência excessiva do turismo". É necessário, apenas, "ter mecanismos e regras para que o crescimento não se venha a revelar, como nalguns pontos do mundo, um fator para gerar conflitos internos". Portugal, acredita o dirigente, "está atento a isso". Joaquim Robalo de Almeida lembra que "o turismo é o grande responsável pela maioria dos postos de emprego criados no pós-troika.

Os principais receios do setor estão noutras frentes. "A legislação que temos é um espartilho, com regras muito apertadas. O ideal é ter regras claras e exequíveis. O empresário não tem de ser um jurista", reclama o secretário-geral da ARAC.

Digitalização chega em breve

A digitalização do processo de aluguer de automóveis é uma das principais sugestões da ARAC desde há alguns anos e poderá ser satisfeita em breve. O secretário de Estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, anunciou "alterações cirúrgicas" na lei do rent-a-car, durante a segunda convenção nacional realizada pela associação, na semana passada.

A assinatura do contrato através do smartphone deverá ser uma das principais alterações previstas na lei, uma medida que vai ao encontro das pretensões da associação. "Alugar um carro tem de ser tão fácil como chegar ao hotel e darem--lhe a chave do carro. Deve demorar quatro ou cinco minutos." Esta medida também poderá beneficiar o setor. "O rent-a-car, muitas vezes, é o espelho do país para o turista. É a primeira coisa que vê quando entra e a última que vê antes de sair."

A associação, no entanto, tem outras questões para resolver. Desde o final de 2016 que estão no mercado português as primeiras plataformas de aluguer de automóveis partilhados por particulares, como Bookingdrive, Shareacar e Parpe. Apesar de trabalhar diariamente com plataformas tecnológicas, as empresas de rent-a-car querem que estas startups "tenham regras iguais". A ARAC diz que já fez queixa às autoridades em relação a esta matéria mas que não obteve qualquer reação.

Associação de mobilidade

Ainda na frente tecnológica, a ARAC está a lidar em Portugal com as empresas de partilha de automóveis, bicicletas e motos, que começaram a funcionar principalmente nos últimos dois anos. A associação, tendo em conta essa realidade, prepara-se para alterar os estatutos e abrir as portas a empresas como DriveNow e 24/7 by Hertz (carsharing), eCooltra (partilha de motos) e Gira, Ofo e oBike (bikesharing).

As empresas que pertencem a esta associação, que poderá mesmo mudar de nome, contribuíram com quase mil milhões de euros em impostos no ano passado, por causa de ISV, IUC, IVA e IRC. "Se o IVA fosse igual ao de Espanha, ficaríamos mais concorrenciais, mas o setor é independente dos apoios públicos", assinala Joaquim Robalo de Almeida.

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