Prestação da casa vai baixar mais dez euros já em março

Banca está a tentar convencer clientes com crédito à habitação a mudar para taxa fixa. Mas, para já, não vale a pena, avisam analistas, já que as Euribor vão manter-se baixas

A prestação da casa vai cair mais dez euros já em março para os empréstimos indexados à Euribor a seis meses. Com a queda dos juros para valores cada vez mais negativos, a banca tenta convencer os clientes do crédito à habitação a mudarem para taxa fixa. Esta pode vir a ser uma boa opção a longo prazo, mas, se o fizerem já, vão perder dinheiro, avisam os analistas.

A Euribor a seis meses, a mais utilizada em Portugal no crédito à habitação, bateu um novo mínimo histórico de -0,129% (ver gráfico); e até a taxa a 12 meses já está nos -0,017%, esmagando a margem de lucro (spread) dos bancos. O resultado está à vista: pagar a casa nunca foi tão barato.

De acordo com uma simulação realizada pela Deco/Dinheiro&Direitos, tendo em conta os valores das Euribor até dia 25, uma família com um empréstimo de 150 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor a seis meses e com um spread de 1%, vai pagar 474,64 euros por mês a partir de março. São menos 10,86 euros do que o valor pago em setembro, na última revisão.

Apesar dos juros negativos já estarem a ser abatidos aos spreads, os bancos estão a emprestar mais dinheiro. Em dezembro, segundo os dados do Banco de Portugal, as novas operações de crédito à habitação totalizaram 469 milhões de euros, um aumento de 13,5% face ao mês anterior e o valor mais alto desde maio de 2011. Contas feitas, os bancos emprestaram, em 2015, uma média de 334 milhões de euros por mês para a compra de casa; em 2014, a média era de 193 milhões e, em 2013, de 170 milhões.

Taxa fixa? Ainda não

É verdade que a torneira do crédito está mais solta, mas os níveis historicamente baixos dos juros têm levado a banca a procurar soluções mais rentáveis para o crédito à habitação. O Millennium BCP, por exemplo, está já a enviar cartas aos clientes a propor a troca por uma taxa fixa. "Porque sabemos que a surpresa da variação das taxas pode não ser muito agradável, oferecemos-lhe agora a possibilidade de mudar, sem custos, para uma das nossas Soluções de Taxa Fixa a 3,5 ou dez anos", lê-se na carta do banco a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso.

BPI, Caixa Geral de Depósitos e Santander Totta ainda não tomaram uma iniciativa deste género, mas também têm produtos a taxa fixa. A Deco, a associação de defesa dos consumidores, garante ter a "perceção de uma maior publicidade, por parte dos bancos, à taxa fixa, sobretudo desde o final do ano passado". Percebe-se porquê: atual- mente, só o BCP e o Montepio apresentam soluções de empréstimos com Euribor a seis meses; os restantes bancos já só têm ofertas a 12 meses.

Seja como for, não faz sentido mudar para taxa fixa agora, consideram os analistas consultados pelo DN/Dinheiro Vivo. "As taxas de juro estão a mínimos históricos e não vão subir tão cedo. Nos próximos três a quatro anos, vamos continuar com taxas baixas, e mesmo em terreno negativo, não haja a menor dúvida", garante João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa. E lembra que todos os analistas preveem que, na próxima reunião do Banco Central Europeu (BCE), a 10 de março, Mario Draghi deverá anunciar um novo corte nas taxas de depósitos dos bancos em dez pontos-base.

A Deco também não aconselha a troca. O economista Nuno Rico reconhece que um cliente que não se sinta confortável com "a instabilidade de ter de pagar um valor diferente todos os meses" deve optar pela taxa fixa, mas sublinha que, "neste momento, a taxa variável continua a ser muito mais vantajosa". De acordo com um estudo da Deco que compara as duas taxas, um cliente com um empréstimo à habitação de cem mil euros com maturidade a 20 anos e taxa fixa acabaria por pagar, no final desse prazo (e assumindo que as condições atuais do mercado se mantêm), mais 18 mil euros do que um cliente com crédito indexado à Euribor.

Com SANDRA ALMEIDA SIMÕES

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