Presidente da CMVM critica falta de ética na banca e nos negócios

Carlos Tavares termina esta sexta-feira o segundo mandato à frente do regulador do mercado de capitais

O presidente da Comissão do Mercados de Valores Mobiliários (CMVM) disse hoje que a tarefa dos supervisores é cada vez mais complexa devido à "falta de ética existente na banca e nos negócios" e defendeu o regresso aos valores tradicionais.

"Todos os casos que tivemos mostram isso. Quando os padrões éticos não são respeitados, mais cedo ou mais tarde os custos aparecem e são muito elevados para todos", disse aos jornalistas o presidente da CMVM, Carlos Tavares, após participar no Dia da Formação Financeira 2015, em Faro, no Algarve.

Para o antigo ministro da Economia, os maiores problemas que os supervisores do mercado de capitais enfrentam, "infelizmente, têm a ver com o desrespeito da ética, dos valores tradicionais da honestidade e pela palavra dada".

"Quando entrei para a banca não me pediram para assinar códigos de conduta ou de ética, porque sabíamos que o essencial era o respeito pelo interesse dos clientes, e a palavra dada era muitas vezes mais importante do que qualquer contrato feito", lembrou.

Carlos Tavares frisou que, além das reformas regulatórias e da legislação na área da banca e dos negócios que tem defendido, "o mais importante, é que se regresse aos chamados valores tradicionais".

"O que mais preconizo é que todos os que participam nos mercados se comportassem pelos padrões éticos mais elevados", sublinhou o presidente da CMVM, lamentando que "nem sempre seja assim" e a tarefa dos supervisores se torne "cada vez mais complexa".

Para Carlos Tavares, a falta de ética na banca e nos negócios, resultam dos objetivos comerciais de curto prazo "que se sobrepõem aos de longo prazo".

"Quando os objetivos de curto prazo não respeitam estes valores fundamentais de ética e honestidade, normalmente acabam sempre por gerar maus resultados", concluiu.

Carlos Tavares termina hoje o seu mandato na CMVM, após cumprir dez anos - dois mandatos de cinco anos - à frente do regulador do mercado de capitais.

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