Portugal trocou bacalhau por tabaco com Noruega em 2015

O tabaco foi a mercadoria mais exportada para o país nórdico que fornece o "fiel amigo" dos portugueses

É uma das mais conhecidas importações norueguesas para Portugal, mas poucos saberão que produtos portugueses são vendidos à Noruega e menos ainda que o tabaco foi a mercadoria mais exportada para aquele país nórdico em 2015.

No dia em que os noruegueses assinalam, de forma simbólica, a venda do bacalhau 500 milhões a Portugal, a Lusa analisou as estatísticas dos últimos 70 anos, altura em que começaram a ser sistematizados os registos do comércio internacional, e concluiu que o padrão de exportações se alterou significativamente.

No ano passado, os dados preliminares, fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), indicam que Portugal aumentou as exportações para os 207 milhões de euros.

O 'tabaco e seus sucedâneos', como charutos, cigarrilhas e cigarros, uma categoria praticamente inexistente nas duas décadas precedentes, passam a valer quase 20% do total (cerca de 40 milhões de euros), ficando, mesmo assim, aquém dos cerca de 50 milhões de euros de bacalhau vendidos anualmente pelos noruegueses aos operadores portugueses.

Distinguiram-se ainda nas vendas as categorias de materiais têxteis ('Pastas [ouates], feltros e falsos tecidos; fios especiais, cordéis, cordas e cabos; artigos de cordoaria), com 12,3% do total exportado, os 'minérios, escórias e cinzas', com 10,2%, as embarcações e estruturas flutuantes (8,8%) e o calçado (6,2%).

Entre 1996 e 2015, Portugal conseguiu aumentar o valor das vendas de bens aos noruegueses, mas o peso das exportações para este país, face ao total, desceu de 0,9 para 0,4%, com a Noruega a cair da 15.ª para a 29.ª posição entre os parceiros comerciais de Portugal.

Nas décadas de 40 e 50 se eram os produtos da agricultura, das florestas e das pescas que se distinguiam, nas três décadas seguintes foi a indústria que ganhou preponderância, com os têxteis e o calçado a ganhar ainda mais fôlego no novo milénio.

Em 1946, um ano após o fim da II Guerra Mundial, que obrigou praticamente a interromper as trocas comerciais entre os dois países, o valor dos produtos portugueses exportados para a Noruega pouco excedia os 36 milhões de escudos (cerca de 36 mil contos, ou seja, pouco mais de 181 mil euros), correspondentes, essencialmente, a matérias-primas de origem animal e vegetal, num total de 24 mil contos (cerca de 120 mil euros).

Destacava-se na primeira categoria o óleo de sardinha (dois terços das exportações em valor) e, na segunda, a cortiça e o pez-louro (colofónia), uma matéria-prima obtida através da resina de pinheiro bravo e usada na indústria química.

Portugal vendeu ainda, nesse ano, 1.500 contos em produtos têxteis (incluindo Bordados da Madeira, feltros em obra, roupa usada e, sobretudo, redes e linhas de pesca), quase 3.000 contos de vinho, salientando-se os do Porto, e produtos alimentares como o miolo de amêndoa, que valeram 2.400 contos aos exportadores.

As 'manufaturas' eram uma categoria pouco relevante, não ultrapassando os 1.200 contos, dos quais 834 correspondentes a chapéus de feltros, acessório indispensável na moda masculina da altura.

Dez anos depois, Portugal tinha conseguido pouco mais do que duplicar o valor das suas exportações para a Noruega, para quase 77 milhões de escudos (cerca de 77 mil contos ou 385 mil euros), continuando a ser líderes as matérias-primas oriundas do setor primário.

As 'substâncias alimentares' foram a segunda categoria de mercadorias mais vendidas em 1956, num total de 25 mil contos, voltando a sobressair os vinhos do Porto e a amêndoa e surgindo ainda com algum sucesso a categoria de 'tomates em sumo'.

Os produtos têxteis começam também a ganhar algum protagonismo, valendo quase 9.600 contos, enquanto as manufaturas, com os inevitáveis chapéus de feltro na terceira posição, não iam além dos 5.200 contos.

Na década de 60, as exportações para a Noruega renderam a Portugal mais de 180 milhões de escudos (mais de 180 mil contos ou 902 mil euros), com as matérias têxteis a posicionarem-se em primeiro lugar (mais de 125 mil contos).

As matérias-primas do reino vegetal, com destaque para as frutas e hortícolas, suplantavam de longe as de origem animal e a cortiça continuou a ser relevante, mas também os produtos da indústria alimentar que começaram a brilhar em 1966, com 33.605 contos exportados nesta categoria, repartidos maioritariamente entre bebidas alcoólicas e 'preparados de produtos hortícolas e frutas'.

Dois anos após o 25 de abril, em 1976, as exportações para a Noruega aumentam para mais de 1,5 milhões de contos, com as matéria-primas animais e vegetais a recuarem de forma acentuada, enquanto os produtos das indústrias alimentares e bebidas, bem como das indústrias químicas conquistam terreno, a par dos têxteis.

No ano da entrada de Portugal na CEE, 1986, as vendas para o país do bacalhau caem para pouco mais de um milhão de contos e torna-se mais evidente a ascensão dos setores têxtil e do calçado que valem quase metade do total exportado (cerca de 420 mil contos).

Também relevantes neste ano são as vendas de máquinas e aparelhos e material elétrico, madeira e cortiça, celuloses e papel e produtos agroalimentares e bebidas.

Na década seguinte, ainda antes da introdução do euro, mas com as estatísticas fornecidas pelo INE já convertidas na nova moeda, as exportações sobem para 180 milhões de euros (3,6 milhões de contos), sendo o vestuário e acessórios a principal categoria exportada num total de 61 milhões de euros, seguindo-se o calçado (25 milhões de euros).

Os 'veículos automóveis, tratores, ciclos e outros veículos terrestres' surgem em terceira posição a valer mais de 21 milhões de euros.

Quatro anos decorridos desde a introdução da moeda única, em 2006, a venda de bens à Noruega cai para os 110 milhões de euros.

Juntos, o vestuário e o calçado representaram quase um quinto do total exportado (21,1 milhões de euros), enquanto os 'veículos automóveis, tratores, ciclos e outros veículos terrestres' se ficaram pelos 12,5 milhões de euros.

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