Portugal perde por ano 60 milhões com joias e malas falsificadas

Imitações são cada vez mais sofisticadas, refere a ASAE, e até já abrangem rolamentos para a indústria mecânica

Portugal tem prejuízos anuais de 60 milhões de euros só na contrafação de relógios, joias, malas e carteiras. Em toda a Europa, as perdas atingem 3,5 mil milhões de euros, levando ao corte de 27 mil postos de trabalho, alerta o último relatório do Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO). E ficam também por cobrar todos os anos pelos governos europeus nada menos de 1,1 mil milhões de euros de receitas fiscais.
"Os setores da joalharia e relógios e da marroquinaria na Europa são, maioritariamente, compostos por microempresas que empregam menos de dez pessoas cada uma; na joalharia e relojoaria, o número médio de trabalhadores por empresa é de três pessoas. Estes negócios são particularmente vulneráveis aos efeitos económicos da contrafação", reconhece António Campinos, presidente do EUIPO.
Só na joalharia e relojoaria prevê-se que as perdas, em Portugal, ascendam a 48 milhões de euros por ano; na indústria de malas e carteiras os prejuízos são calculados em cerca de 12 milhões. Na Itália, responsável por metade da produção europeia do setor, as falsificações têm um impacto anual de 520 milhões. É, também, o país mais afetado pela contrafação de joias e relógios, com 400 milhões de perdas, de acordo com os números do EUIPO. No topo das contrafações de malas e bolsas estão marcas famosas como Gucci, Louis Vuitton, Hermes, Fendi e Prada.
Está a contrafação a crescer? Pedro Portugal Gaspar, inspetor-geral da ASAE, reconhece que são contas difíceis de fazer, já que a estratégia de combate às falsificações está hoje muito mais centrada nas fontes de produção e na grande distribuição. "Continuamos muito atentos ao retalho capilar, como as feiras e mercados, mas procuramos subir na cadeia de valor, identificando as fontes de produção e de grande distribuição. E, claro, que ao subir na cadeia temos apreensões em maiores volumes", diz o inspetor.
Do que não há dúvida, garante, é da evolução da contrafação, no sentido da diversificação e sofisticação dos produtos. "Aquela ideia clássica de que a contrafação estava muito associada às peças de vestuário já não tem sentido hoje. Há uma diversidade imensa de produtos contrafeitos e com um nível de sofisticação enorme, já não é aquela imitação grosseira em que se vê logo que o produto é falsificado", sublinha, dando exemplos de apreensões recentes de rolamentos para a indústria mecânica, de secadores de cabelo profissionais e de vinhos contrafeitos.
No caso dos rolamentos, por exemplo, foi necessário pedir a colaboração de peritos suecos para aferir se se tratava, efetivamente, de produtos falsificados ou não. Até porque o nível de sofisticação chega já à própria embalagem, pensada para dar a ilusão de legitimidade ao produto. "As caixas destes rolamentos continham em inglês qualquer coisa como "este material encontra-se protegido da contrafação", tentando dar uma chancela de qualidade ao artigo", explica Pedro Portugal Gaspar.
A sofisticação da contrafação e os novos canais de distribuição, como a economia digital, fazem que, muitas vezes, o próprio consumidor seja ludibriado. Veja-se o caso das garrafas de Barca Velha e de Pêra Manca falsificadas recentemente apreendidas. Uma das denúncias partiu de um consumidor brasileiro que comprou pela internet uma garrafa de vinho no valor de 400 euros e só se apercebeu do engano... ao prová-lo.

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