Portugal e Espanha separados nas rotas da seda chinesas

Lisboa assina hoje um memorando para cooperar na iniciativa chinesa Faixa e Rota. O mesmo acordo foi rejeitado por Madrid, que exige mais oportunidades para as suas empresas

Nenhum dos parceiros ibéricos está de costas voltadas para a China, mas seguem trajetórias opostas nas chamadas novas rotas da seda. Portugal assina hoje com o Presidente chinês um acordo que Espanha rejeitou há uma semana, durante a visita de Xi Jinping ao país. Para Madrid, o entendimento não terá oferecido oportunidades às empresas espanholas.

"A iniciativa Faixa e Rota não está a funcionar como era esperado. Não é verdadeiramente uma iniciativa multilateral. É antes um conjunto de acordos bilaterais. E muitos projetos não têm em conta preocupações com a sustentabilidade ambiental ou financeira", considera Mario Esteban, do espanhol Real Instituto Elcano. "Também há um problema de oportunidades de negócio para as empresas espanholas", junta. E essa terá sido a principal razão para uma rejeição "educada" de Madrid no passado dia 28. China e Espanha assinaram antes um acordo para cooperação em investimentos em terceiros países, matéria que também está na agenda da cooperação luso-chinesa.

Para Lisboa, porém, há perspetivas de atrair investimento para os portos portugueses. O memorando de entendimento para a cooperação bilateral entre Portugal e China no âmbito da iniciativa Faixa e Rota será o principal documento assinado entre os dois países durante a deslocação a Portugal do Presidente chinês, que se conclui hoje com 17 acordos no total.

Com a aproximação ao projeto de investimento em corredores logísticos anunciado por Xi em 2013, o governo diz querer atrair investimento para Sines, colocando o porto português na rota dos porta-contentores chegados do Canal do Panamá como ponto de transbordo de carga com destino à Ásia. O porto da Praia da Vitória, na Terceira, também tem sido referido num momento em que os Açores promovem o caderno de encargos do concurso internacional para a sua concessão e ampliação.

A abordagem dos diferentes países europeus ao investimento chinês não é tema pacífico. Para alguns, Portugal surge cada vez mais próximo de Pequim depois de um encaixe superior a nove mil milhões de euros da venda de participações de empresas portuguesas iniciada no final de 2011 com a entrada da China Three Gorges na EDP.

"O governo do primeiro-ministro Costa tem procurado promover a cooperação na Ásia, e com a China. Também creio que há sectores na economia portuguesa que estão agora sob influência direta da China após a compra das principais empresas, da energia à banca e seguros", comenta François Godement, do European Council on Foreign Relations.

O "choque" espanhol com a EDP

Também para Mario Esteban, a atitude portuguesa tem-se demarcado da espanhola na abertura de setores que Madrid quis manter vedados. "Portugal tem um muito significativo investimento chinês em setores estratégicos e Espanha não. A Espanha está disponível para receber mais investimento chinês, mas não a qualquer custo e não em qualquer setor", afirma.

A aquisição da EDP, com atividade em Espanha, pela China Three Gorges terá, aliás, sido a principal divisória ibérica, apanhando há mais de seis anos Madrid desprevenida. "O grande choque para Espanha foi o país não ter conseguido antecipar. Foi sobretudo o elemento surpresa. A Espanha tinha rejeitado investimento nesse setor. Foi um setor que não foi conseguido pelas empresas chinesas em Espanha, que acabaram ainda assim por entrar através do investimento em Portugal", diz Mario Esteban.

Esta compra acabaria por motivar o apoio espanhol a novas regras europeias de análise a investimentos feitos por países exteriores à União Europeia, inicialmente propostas por França e Alemanha e que estão prestes a receber o voto final do Conselho Europeu e do Parlamento Europeu.

"É uma das razões pela qual Espanha apoia o mecanismo de escrutínio da União Europeia. Por via deste mecanismo, será necessário informar outros Estados-membros dos investimentos", diz o analista do Real Instituto Elcano.

Quando forem aprovadas, as regras comuns passarão a exigir que os Estados-membros deem conhecimento de investimentos sensíveis ou com implicações em programas da União aos restantes países do grupo e à Comissão Europeia. A última palavra sobre qualquer investimento ficará ainda assim com cada um dos países.

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